Entrevista - Miguel Cordeiro

Rodrigo Araújo*



Miguel Cordeiro, um dos pioneiros da pichação baiana, fala sobre o lendário Faustino: um "State of Mind"


Conheci Miguel Cordeiro no final dos anos noventa, no lendário Café Calypso, uma casa noturna, localizada no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Por algum tempo, o pub capitaneado pelo francês Jean Claude serviu de reduto aos desgarrados de uma duradoura monocultura que se autodenominava, pretensamente, de “baianidade”.

Miguel já era um artista veterano e, por uma temporada, apresentou-se semanalmente com a sua banda de rock Os Koyotes. Era popular entre os mais jovens que frequentavam a casa, sobretudo, por “Simca Chambord” (parceria com Marcelo Nova), hit que entoava a esperança perdida da geração que assistiu o regime militar florescer.

Reencontrei Cordeiro na sua belíssima exposição “Horizonte”, no suntuoso Palacete das Artes, no bairro da Graça, em Salvador. Dessa vez ele expunha a sua verve peculiar de artista visual tipicamente contemporâneo, criado na esteira da Pop Art. Mas também trazia para dentro da galeria a personagem que o tornou figura icônica do perfil irreverente soteropolitano do final dos anos setenta e início dos oitenta: Faustino. Com Mancha, Madame Mim e outras inquietas personalidades da época, Miguel Cordeiro inaugurou a pichação em Salvador. Talvez antes mesmo de Basquiat produzir seus primeiros rabiscos nos muros e metrôs de Nova York.

Faustino figurou nos muros da cidade com frases lapidares. De tão simples, se fez sofisticado, por conseguir tocar no âmago de quem quer que se deparasse com alguma delas, independente da condição social. Faustino “roubava miudezas”, e as dispersava pelas esquinas presenteando os passantes.

No dia 21 de fevereiro de 2015, numa tarde quente, depois de algumas doses de café forte e amargo, Diego Hasse, cineasta argentino radicado na Bahia, ligou a câmera sem ter a pretensão de enquadrar Miguel Cordeiro, ele sabia ser essa uma tarefa impossível. Numa das salas da galeria cuja presença de Faustino era predominante, deixou a objetiva acompanhar o influxo do poeta, simplesmente. E conversamos por um longo tempo sobre muita coisa, mas, sobretudo, sobre pichação..           

AUTOR 
* Rodrigo Araújo é professor  de filosofia do IFBA e doutorando em filosofia pela UFBA.

FEIRA DE SANTANA-BA | nº 1 | vol. 1 | Ano 2015
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3 comentários :

  1. Só mesmo essa Trindade Miguel + Araújo + Haase pra fazer-me ganhar quase 12 minutos do meu dia...porque tem tanta merda na internet, que vc perde tempo nela...Preferia ver Billy Childish em Salvador do que o Paulo Macca-ehhhheh

    E o pior de tudo é que o que vem depois da Trindade Caymmi/Verger/Amado é pastiche...claro que tem outros da "geração" deles que são fodas, como Carybé, Hansen entre outros...mas se fossem esses 3 de maneira bruta...ainda valeria a pena...ultimamente tenho admirado a Salvador da década de 1840/1850 até o último grande aterro no ano de 1912...era uma cidade INCRÍVEL...das mais belas do mundo...mas sobrou o que ficou e que vimos no dia a dia...mas ainda há beleza...e resistência...no pior e no melhor sentido...

    Grande Aula com o Mestre Miguelito da Bahia, que é baiano, mas num é caetano...

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  2. Mestre Miguel Cordeiro traça uma linha histórica entre o punk Gregório de Mattos e a gênese da arte do grafite transgressor no personagem Faustino, relembra os pioneiros colegas criadores Mancha e Madame Min, descreve a situação de perigo de morte a que se expõem os artistas plásticos de rua --- e esfrega a áspera VERDADE horrenda sobre a mediocridade provinciana que impera na Bahia, tornando-a hostil ao mundo contemporâneo em geral e ao Rock & Roll em particular: "Salvador em vez de explodir, implodiu." Ou nas palavras imortais de Marcelo Nova no clássico "Controle Total" do Camisa de Vênus: "Tá tudo armado pra te imobilizar. Você está cercado, você quer sair daqui."

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  3. Salvador nunca foi metrópole, sempre foi COLÔNIA, pois só se presta ao papel de entreposto comercial das riquezas naturais roubadas para exportação. E hoje em dia mal serve pra isso.

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