A contemplação do uno em Plotino imerso no 'Quem das Coisas' de Guimarães Rosa

Carlos Eduardo Gomes Nascimento*





Physis kriptesthai philein
(A natureza ama esconder-se)

HERÁCLITO, aforismo 123

O tempo é contemplado como imagem da eternidade no diálogo “Timeu” de Platão, uma ideia engendrada nas “Enéadas” de Plotino, que diz: “fabricamos o tempo como imagem da eternidade” (III.7). A palavra de Plotino nos conduz à natureza inquieta em sua totalidade metafísica, traçando uma relação imanente entre o intelecto com o mundo sensível. Esta mística enigmática da filosofia de Plotino foi encantada na linguagem poética de Guimarães Rosa sobre a natureza do Sertão brasileiro, recriando um novo universo do pensamento linguístico nas veredas do sertão brasileiro, onde o sertão é do tamanho do mundo e está dentro da gente.

O diálogo simbólico entre a literatura contemporânea brasileira de Guimarães Rosa sob a ótica da cultura singular do homem sertanejo e as imagens da natureza encontram-se entrelaçado com a metafísica da filosofia de Plotino, principalmente, no capitulo III “Sobre a natureza, a contemplação e o Uno” nas “Enéadas”. Com isso, o texto objetiva investigar a importância da experiência filosófica de Plotino em Guimarães Rosa. Em carta ao amigo Paulo Dantas escreveu Rosa: "Não foi à toa aquelas epígrafes de Plotino (...) para o meu Corpo de baile [qual o conto “Cara-de- Bronze” faz parte]. São um complemento de minha obra" (DANTAS, 1975, p. 56), acerca da presente relação entre seus textos na obra “Corpo de Baile” (1956) com a filosofia de Plotino, revelando toda sua admiração pelo espírito contemplativo do filósofo neoplatônico.

A concepção filosófica de Plotino cria experiências de vida muito raras, que se podem qualificar de místicas ou “unitivas” (HADOT, 2014, p. 232), através das hipóstases. A primeira hipóstase é a realidade metafísica, o Ser em sua unidade (Uno, absoluto, eterno, imóvel), que é o ponto de partida e origem da vida. No entanto devemos salientar que a teoria do Uno de Plotino se revela por experiência mística e transcendente, por uma ascese ou exegese filosófica em consonância com o mundo sensível, para o Intelecto ou espírito (nôus). A segunda hipóstase, que é a realização da contemplação do Uno, por uma emanação do Ser que é desvelado e acolhido na natureza. Já a Alma do Mundo, terceira hipóstase, surge como o princípio responsável pelo devir ou mudança das coisas sensíveis e criadora do tempo e do espaço.  Neste sentido, o texto apresenta algumas veredas para uma leitura da mística filosófica de Plotino na metalinguística do conto “Cara-de-Bronze” de Rosa que tem seu desvelamento numa estranha viagem do personagem, Grivo, ao mundo em uma desmedida experiência metafísica nos recantos do sertão brasileiro, marcando um encontro com o aquilo está recôndito na natureza humana e com o próprio mundo em toda a sua plenitude natural, lá na região dos Gerais do Brasil, onde é o lugar em que o Ser se mostra na descoberta do mundo a cada instante, por meio da linguagem, da palavra, do verbo e da carne, entre o Criador e a criatura.

Guimarães Rosa lança mão de maneira original na literatura brasileira no conto "Cara-de- Bronze", através de um recurso metalinguístico, permeado de uma miscelânea de imprevistos da linguagem, com fragmentos do conteúdo de botânica por descrições esmiuçadas nos pequenos detalhes da fauna e flora dos Gerais, uma espécie de catálogo naturalista poético, diz Rosa: “toda árvore, toda planta, desmuda de nome quase que em cada palmo de légua, por aí...” (ROSA, 1984, p.120). O conto destaca também a linguagem dos antigos cancioneiros bucólicos da cultura ibérica como nas cantigas de enganar e na construção de um “auto de fé”, por uma profusão de canções litúrgicas e ladainhas sertanejas, bem como um surpreendente e curiosíssimo esboço audiovisual de um roteiro cinematográfico. Com a utilização de todos estes recursos da linguagem, Guimarães Rosa buscou uma experiência narrativa singular sobre as imagens da natureza, constituindo uma sinestesia para o leitor, pela qual seus personagens sentem a plenitude poética do Ser no sertão.
Na exegese filosófica de Plotino a linguagem é a expressão do intelecto, contemplando o Uno, que também se encontra na expressão da mística contemplativa da natureza no relato do conto “Cara- de-Bronze”, onde o personagem recluso de um velho fazendeiro, Segisberto Saturnino Jéia Velho, Filho, em seu infinito desejo humano, busca saber “o quem das coisas” (ROSA, 1984, p.108) para tentar a cura de sua agonia sem definição, a fim de se revelar e estar aberto ao mundo.
Tal tarefa nas veredas do sertão cabe a Grivo, um dos vaqueiros da fazenda do Urubuquaquá, o escolhido pelo Cara-de-Bronze fazer a travessia; e, encontrar na Natureza, o essencial ao aprendizado humano, isto é, que ele traga “o quem das coisas”, desvelado quando vislumbramos o Uno, o Ser-tão, que se engendra como imagem de si na natureza. Sobre esta experiência mística filosófica da vida em plenitude de transformação do sujeito, Pierre Hadot expressa: “a experiência unitiva plotiniana, totalmente indizível em sua especificidade dado que aquele que fala dela, uma vez terminada a experiência, já não se situa no mesmo nível psíquico de quando ele vivia a experiência” (HADOT, 2014, p.251).

A travessia do Grivo em busca do “quem das coisas” é o grande sertão linguístico de Rosa em sua busca pela linguagem metafísica do Ser. Assim é a experiência da linguagem literária de Guimarães Rosa, “não do ponto de vista filológico e sim do metafísico”( BRAIT apud ROSA, 1982, p.142). O sertão é uma imensa vereda transcendental onde se pode captar a imagem natural do Ser, e o Uno plotiniano é possibilidade de contemplar a plenitude conceitual da natureza. Assim diz Rosa sobre a experiência natural do sertão que tem sua linguagem singular e pode falar: “— E que árvores, afora muitas, o Grivo pôde ver? Com que pessoas de árvores ele topou?”(ROSA, 1984,p.115).

Com efeito, Plotino engendra nas plantas e árvores também a possibilidade da linguagem, pois em “toda a natureza assim como os homens, são dotadas de intelecção” (III, 8.1). A natureza, em Plotino e Guimarães Rosa, fala e se faz ouvir muito além das palavras. Conforme ensina Plotino nas Enéadas (III, 8.4 ):

E se alguém perguntasse à natureza por que ela produz, se ela consentisse em dar ouvidos a quem pergunta e respondesse, diria: ''Não devias perguntar, mas compreender também tu em silêncio, como eu, que me calo e não costumo falar. Compreender o quê? Que o que é gerado é o que vejo em silêncio, um objeto de contemplação que surge naturalmente, e que me cabe, eu que nasci de uma contemplação desse mesmo tipo, possuir uma natureza amante da visão (PLOTINO, 2000, p.673).

Plotino desvela imagens do mundo natural para manifestar a realidade inteligível, assim também são os textos de Guimarães Rosa, em especial, o conto “Cara-de-Bronze”, que está imerso deste fenômeno imagético, que se torna o ato místico na contemplação da natureza, que fala em silêncio. Com efeito, o personagem de Grivo é o vaqueiro escolhido após se sagrar vencedor de torneios ou brincadeiras de “imaginamento, que carecia de se abrir a memória (...) E ver o que no comum não se vê: essas coisas de que ninguém não faz conta...” (ROSA, 1984, p.92), para ver, ouvir e saber o cheiro das plantas e terras e depois relatar ao Cara-de-Bronze, o dono da fazenda Urubuquaquá, o espírito e a voz silenciosa da natureza até o “amolecer as cascas da alma” (ROSA, 1984, p.92).   

Estes jogos de “imaginamento” vencido por vaqueiro Grivo, “consistiam em mudar o nome dos lugares, batizar os que ainda não possuíam denominação, arrancando a natureza em seus aspectos mais sutis” (BRAIT. 1982, p.11). A ideia de jogar e brincar com a natureza aparece também de um modo interessante nas “Enéadas” cujo o significando é também contemplar. Assim diz Plotino (III. 8. 1):

Ora, não haverá perigo algum em brincarmos com nossas próprias ideias. Acaso nós, neste momento, brincando, também contemplamos? Sim, nós e todos que brincam o fazemos ou, antes, brincam porque isso anseiam. Seja criança, seja adulto, brincando ou sério: parece que uma brinca e o outro é sério devido à contemplação, e toda ação inclui um esforço dirigido para a contemplação, a compulsória mais ainda, arrastando a contemplação para o exterior, e a chamada voluntária menos, embora igualmente nata do anseio por contemplação (PLOTINO, 2000, p.669).  

No ensaio “A Viagem do Grivo” (1969), Benedito Nunes analisa o personagem Grivo como um cavaleiro medieval com símbolos míticos e religiosos, que sai para o mundo em busca de feitos heroicos, onde sua missão é encontrar a língua silenciosa da natureza, através de todas as mensagens que a natureza lhe oferece, isto é, na linguagem plena da criação, onde o Ser, o Uno, teima em se esconder, a fim de relatar “o quem das coisas” ao soturno “Cara de Bronze”.

O nome primordial é o “quem das coisas”, o “verivérbio”, rastreando a origem da linguagem, o logos (verbum), a palavra criadora em seu ato e potência, como encontramos no “Evangelho de São João” (1,1, 14): "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus... E o Verbo se fez carne e habitou entre nós". Segundo escreve Hill:

A narração do Grivo, do que viu e ouviu em sua busca da Vereda do Sapal, é o relato que procura “transpoetizar” o momento do Gênesis, a tradução da primeira vibração do mundo antes de se concretizar em logos. Sua viagem diz da própria viagem. É Adão procurando seguir as palavras, as pistas em meio ao silêncio anterior à criação (HILL, 2009, p.91).

A viagem do personagem Grivo pela natureza dos Gerais cultiva uma descrição metafísica do místico em busca da plenipotência da experiência com o Uno. Assim, explica Grivo, quando é questionado pelos vaqueiros da fazenda do Urubuquaquá sobre o motivo da sua viagem, e sobre o que ele encontrou durante quase dois anos de viagem, mantendo o mistério da sua travessia na natureza dos Gerais: “ Por aonde fui... A vida é boba. Depois é ruim. Depois cansa. Depois, se vadia. Depois a gente quer uma coisa que viu. Tem medo. Tem raiva de outro. Depois cansa. Depois a vida não é de verdade!” (ROSA,1984, p.118). 

            Acerca da travessia, os vaqueiros fazem as mais diversas perguntas para Grivo: “se ele sentiu saudades”, ao que responde Grivo: “— A saudade é braço-e-mão do coração, e que, certas horas, quer segurar demais em alguma pessoa ou coisa”; “se sentiu vontade de desistir”, onde responde Grivo: “— Ah, não podia voltar para trás, que não tem como”; e continuam as perguntas, sobre como era o luar, desluar, o sol, o vento, poeira, os bichos, os passarinhos, se sentiu frio... “E sobre o tudo, então?”, quando responde Grivo: “Eu estava cumprindo lei. De ver, ouvir e sentir. E escolher” (ROSA, 1984, p. 121).

O contato com a linguagem da natureza, os olhos e o espírito do Grivo não se cansavam de contemplar o Uno, “o quem das coisas”, deste modo podemos lembrar o ensinamento de Plotino, “o espírito (nôus) é a imagem do Uno” (V, I, 7). Em epígrafe do livro “No Urubuquaquá no Pinhém”, Guimarães Rosa revela a sua inspiração filosófica sobre a metafísica da linguagem nas “Eneádas” de Plotino:

O melhor, sem dúvida, é escutar Platão: é preciso — diz ele — que haja no universo um sólido que seja resistente; é por isso que a Terra está situada no centro, como uma ponte sobre o abismo; ela oferece um solo firme a quem ela caminha, e os animais que estão em sua superfície dela tiram necessariamente uma solidez semelhante à sua (PLOTINO apud ROSA, 1984, p. 7).  

A natureza é o quadro que compõe todas as cores do mundo sensível. Interessante também observar na especulação muito singular que um dos vaqueiros do Cara de Bronze faz sobre a real intenção da viagem de Grivo: “— Mas, o que será, nessa viagem, à razão de feitiço, que Grivo foi buscar, para o Cara-de-Bronze? Terá sido uma moça, para casar! Uma moça, a muito Branca-de-todas-as-cores” (ROSA, 1984, p.104). Assim temos um retrato do sensível da luz do sol na percepção dos espectros da cores, pela qual a essência do branco se dá pela soma de todas as cores. Podemos ver que nessa expressão se confirma a plenitude da palavra criadora, assim o próprio Guimarães Rosa revela pistas para seu enigma, através do pensamento indiano Chandogya-Upanixad: “Então a Palavra se afastou. Depois de ausência de um ano, ela voltou e disse: — Como pudestes viver sem mim?” (ROSA, 1984, p. 79). Assim, Guimarães Rosa nos ensina que os vestígios da sua linguagem guardam segredos, como se pode observar através do diálogo de Grivo com o Cara-de-Bronze:

Ele, o Velho, me perguntou: — “Você viu e aprendeu como é tudo, por lá?”
Eu disse: — "Nhor vi."
Aí, ele quis: — “Como é a rede de moça — que moça noiva recebe, quando se casa?”
E eu disse: — "É uma rede grande, branca, com varandas de labirinto..."(ROSA, 1984, p.135).

O labirinto da potência criativa se encontra no mundo de lá, um outro mundo, mas que está engendrado na própria natureza do mundo sensível, em Plotino, assim também para Guimarães Rosa, que traz na palavra uma experiência do Ser na poesia. No entanto, Rosa não nos dá de bandeja, é preciso um trabalho de si sobre si, uma exegese filosófica-literária, desvelando as ideias no mistério do “quem das coisas”, em um diálogo fortuito entre dois vaqueiros: “Vaqueiro José Proeza (surgindo do escuro): Ara, então! Buscar palavras-cantigas? Vaqueiro Aquino: Aí, Zé, opa! GRIVO: Eu fui...” (ROSA, 1984, p.135). Ocorre que “Aí, Zé, opa” é o anagrama de POESIA, conforme o pensamento de Benedito Nunes:

Mas o único bem, finalmente alcançado em "Cara-de-Bronze" que o Grivo entrega, na volta, ao mandante do feito, é relato das coisas vistas e imaginadas durante o percurso: a viagem transformada em palavras, súmula da atividade poética, que abriu os espaços do sertão e os converteu na profissão do mundo natural e humano (NUNES, 1969, p. 64).

A palavra em sua plenipotência, a palavra livre, a palavra essencial, a palavra original, a palavra criadora, a ânsia metafísica, “o quem das coisas”, para o saturnino personagem Cara-de-Bronze enviar o vaqueiro Grivo foi a tentativa de cura de sua extrema agonia, uma profunda melancolia, na grande busca e no desejo humano de encontra o Ser, que se oculta na poesia da natureza, esta é uma dimensão metafísica do conto “Cara-de-Bronze” de Guimarães Rosa. A obra de Guimarães Rosa veio de seu contato com uma espécie de metafísica da linguagem contemplada na natureza dos Gerais, assim como Plotino expõe nas “Enéadas”, uma espécie de confissão do ele viu no mundo de lá, revelado pela contemplação do Uno presente na essência da natureza, encontra conjugação ao “quem das coisas” em Rosa.  O convívio com o povo sertanejo e a natureza do Sertão, isto é, a realidade orgânica e contemplativa está em consonância com os modos de vida no rincão do Brasil mais profundo. Lá (por que não?) se pode encontrar o Uno, o “quem das coisas”. Assim sendo, a narrativa em assuntos do silêncio no conto "Cara-de-Bronze" de Guimarães Rosa parte da condição essencial do ser do homem, a sua própria natureza falando mais alto, uma condição que se mostra indissociável, na reminiscência conceitual da metafisica de Plotino, entre os buritizais do sertão brasileiro.

AUTOR
*Carlos Eduardo Gomes Nascimento é estudante do curso de licenciatura em Filosofia da Universidade Federal da Bahia.


REFERÊNCIAS

BRAIT, Beth. Guimarães Rosa - Literatura Comentada. Editora Abril Cultural. São Paulo. 1982.
DANTAS, Paulo. Sagarana emotiva. São Paulo: Duas Cidades, 1975.
HADOT, Pierre. O que é a filosofia antiga. Tradução de Dion Macedo. São Paulo: Edições Loyola, 2013.
HILL, Amariles Guimarães. “Cara-de-Bronze” in Revista Navegações (v. 2, n. 2, jul./dez. 2009. PUC-Rio). Link: http://caioba.pucrs.br/faced/ojs/index.php/navegacoes/search/ Acesso: 01 de setembro 2013.
HERÁCLITO. Fragmentos Contextualizados. São Paulo: Odysseus, 2012.
NUNES, Benedito. O Dorso de Tigre. Editora Perspectiva. São Paulo. 1992.
PLATÃO. Timeu Tradução: Carlos Aberto Nunes. Editora UFPA: Pará, 2002.
PLOTINO. Enéadas I, lI e III. Tradução de José Carlos Baracat Junior.  Tese (doutorado) Universidade Estadual de Campinas. 2000.
ROSA. Guimarães. No Urubuquaquá no Pinhém. Editora Nova Fronteira. Rio de janeiro. 1984.
ROSA. Guimarães. Primeiras Estórias. Editora Nova Fronteira. Rio de janeiro. 1999.

FEIRA DE SANTANA-BA | nº 3 | vol. 1 | Ano 2016

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