Literatura sem fronteiras: entrevista com Rafael Gallo

Sérgio Tavares*



O escritor Rafael Gallo estreou, em 2011, com “Réveillon e outros dias”, coletânea de contos que venceu o Prêmio Sesc de Literatura. Quatro anos depois, veio “Rebentar”, que ganhou destaque imediato no meio literário e acumulou críticas elogiosas. Em entrevista exclusiva para a Revista Sísifo, Gallo fala da relação entre formação acadêmica e literária, da importância da filosofia na sua obra e do processo de construção do seu novo livro, cujo enredo acompanha uma mãe que, depois de 30 anos, decide se livrar do luto instituído pelo desaparecimento do filho.

Sua formação é acadêmica, com prática docente nas áreas de design de som e de trilha sonora para produção audiovisual. Era uma faceta que ainda se impunha a do escritor, que só seria revelada para o público em 2011, quando conquistou o Prêmio Sesc de Literatura na categoria Contos. Como o seu processo de criação literária se relacionava, naquela época, com o contexto universitário? Era algo para o qual reservava um tempo particular? Ou tudo, para você, sempre fez parte de uma mesma corrente de conhecimento e de relação com o mundo?
Acho que tem um pouco das duas coisas. A escrita exige um tempo e uma dedicação que são exclusivas dela, mas também faz parte da escrita tudo o que você tem de repertório, de pensamento formado e de possibilidades criativas. Essa corrente de conhecimento e relação com o mundo, como você bem falou, atravessa a literatura que faço e é atravessada por ela. Porque a literatura é uma parte de mim, como tudo mais que somo em minha vida, não há fronteiras estabelecidas. Por estudar construção narrativa e dramática, seja no cinema ou em outras áreas, a minha forma de ver histórias e de conta-las se transforma, e vice-versa. Aprendo sobre dramaticidade e narrativa com Kubrick, com Haneke, Walter Murch, Cortázar, Magritte, Debussy etc. etc. Aprendo também por ensinar e para ensinar. Grande parte da minha vida, pessoal e profissional, é baseada nessas grandes engrenagens da imaginação, que movem coisas e são movidas por elas. Mesmo como professor, uma das minhas principais metas sempre foi expandir as possibilidades de imaginação dos alunos. Eu costumo falar bem mais sobre como os sons podem participar da composição narrativa e dramática do que sobre os tipos de microfone que existem. 

Sua estreia na literatura, a coletânea de contos “Réveillon e outros dias”, traz uma epígrafe extraída de “O avesso e o direito”, de Albert Camus. O que é bem esclarecedor, pois há nos contos um trabalho cuidadoso de investigação da condição humana, por meio de histórias que tratam dos conflitos, dos amores, da justiça social, da finitude. O quanto de carga filosófica você aplica em seus textos?
É curioso, eu não sou um grande leitor de filosofia. Mas esses temas, que tanto interessam à filosofia, também me fascinam. O que acontece, acho, é que acabo preferindo ter contato com as ressonâncias dos textos filosóficos na ficção, ou em outras instâncias, nas quais esses temas sejam tratados de uma forma mais... narrativa, talvez. Camus é um autor que mesmo em seus ensaios, como nos do livro “O avesso e o direito”, tem um certo “espírito narrativo”. É um grande ficcionista, claro, e seus romances estão entre meus preferidos. Talvez por isso ele seja uma figura tão emblemática para mim, talvez por isso fosse perfeito para abrir meu primeiro livro. Porque há um conceito filosófico forte por trás do texto, mas esse conceito é corporificado em uma narrativa ficcional, o que me agrada bastante. 

“Rebentar”, seu romance lançado no fim de 2015 pela editora Record, conta a história de uma mãe que, depois de 30 anos do desaparecimento de seu filho, decide dar fim às buscas e romper o estado de imobilidade criado pelo luto. Na obra “Luto e melancolia”, Freud define o luto como um estado provocado pela perda de um ente querido que, com o tempo, evola-se e possibilita redirecionar o afeto. A melancolia, por outro lado, é uma experiência de perda por algo indefinido, um processo inconsciente. Ângela, a mãe, está pronta para se lançar de volta ao mundo, tatear um alvo que retome sua vontade de viver, renove suas emoções positivas. Mas a tristeza ainda resiste feito uma tranca que a prende no quarto do filho. De onde surgiu a ideia desse conflito? De empreender uma busca não pelo desaparecido, mas por quem o procura?
É sempre difícil falar sobre o surgimento de uma ideia a posteriori, porque acaba parecendo que foi um procedimento calculado, quando não acontece exatamente assim. Depois do meu primeiro livro publicado, eu estava procurando histórias que possuíssem uma grande força. Não para ser sensacionalista ou sentimentalista, muito menos por questões de pretensão a sucesso ou coisa assim. Mas gosto dessas histórias que nos impõem questões difíceis, que nos tiram do conforto e exigem um exercício de empatia com o outro, especialmente com quem tenha um pensamento diferente do seu, desafiador de suas próprias noções. Assim, pouco a pouco foi se formando o desenho dessa mãe de um filho desaparecido, que rompe com todas as expectativas sobre ela, inclusive as próprias, e decide se dar o direito de recomeçar a vida. É óbvio que para muitas mães nessa situação de perda – e a própria perda é incompleta em si, pela possibilidade de reversão - esse é o melhor a se fazer, mas há também as pessoas diferentes, e é preciso saber lidar com elas. Eu acho que, em algum grau, o trabalho de um ficcionista se assemelha ao de um médico: a gente precisar mexer em certas feridas, mas não é por puro sadismo, para “cutucar”. É para tratar de alguma forma, atravessar a dor para chegar do outro lado. E a dor de um filho perdido é, provavelmente, uma das mais lacerantes. 

Melaine Klein, em "Contribuições à psicanálise" escreveu que a dor sentida no processo de lidar com o luto advém, em parte, "não somente à necessidade de renovar os vínculos com o mundo externo, mas também sim reexperimentar continuamente a perda, reconstruindo angustiosamente o mundo interno, que se sente estar em perigo de deterioração e colapso". Penso que essa é uma perfeita descrição para a travessia tomada por Ângela no romance. Porém construir esse personagem, dimensioná-lo em suas angústias, medos, culpas, requer segurança e domínio, pois há um risco enorme de cair no vazio ou derrapar na pieguice. Como se preparou para compor Ângela e sua experiência de perda?
De fato, é um belo jeito de se colocar a jornada dela. Eu gosto muito de psicologia, minha esposa é psicóloga comportamental e aprendi muito com ela. Para mim, foi uma espécie de revelação: uma organização e aprofundamento de entendimentos que eu já buscava, acerca do universo interior das pessoas. Há até um trecho no livro, o da reforma da casa, que funciona como uma pequena alegoria do processo de Ângela: a menção ao fato de que o mundo exterior, a reconstrução dele, é que mexe bastante com o mundo interior, e não somente o contrário. Esses aspectos emocionais, psicológicos, dos personagens são em geral meu norte para criar uma história. Eu não penso em termos de ação, de criar surpresas na trama; antes, me pergunto: “Como isso a afeta?” ou “O que quero demonstrar sobre ela, sobre sua situação, e como é a melhor maneira de se potencializar isso?” É claro que para falar sobre o universo específico das famílias com filhos desaparecidos, tive que fazer uma grande pesquisa. Li muito material a respeito, tanto ficcional, quanto artigos científicos e textos autobiográficos, mas a parte mais importante foi entrevistar algumas mães de filhos desaparecidos. Conhecê-las, conhecer suas histórias. Isso tudo me fez atentar para incontáveis detalhes – práticos, emocionais, sociais – que a gente nem imagina, mas são reais para essas pessoas. Mais do que isso, podem ser centrais em suas vidas. Por exemplo, muitas mães tendem a enxergarem sempre uma criança, de certa forma, em seus filhos, não importa o quanto eles cresçam. Como é isso para uma mãe que realmente não viu seu filho crescer? Que passa anos tendo apenas uma foto dele com 5 anos de idade para sinalizar, para buscar seu retorno? Que filho é esse que ela espera ter de volta 30 anos depois?

Desde que lançou seu primeiro livro, você tem participado de feiras literárias, mesas-redondas e debates realizados, em muitos casos, em ambiente acadêmico. Como tem sido a recepção desse público? Você constata interesse, nesse universo, pelo autor de ficção?
As duas primeiras entrevistas que dei quando lancei “Rebentar”, meu livro mais recente, foram para estudantes universitários, que estavam realizando-as como trabalhos para seus cursos. E eu adorei isso, adorei ver as perguntas interessadas. Talvez alguns cursos de Estudos Literários tenham suas reservas quanto à produção atual, mas em outros cursos vejo um interesse grande, sim, na produção de ficção contemporânea. Eu gosto muito do ambiente escolar, acadêmico, especialmente universitário, porque sinto que foi nele que cresci. As faculdades e pós-graduação que fiz foram importantíssimas na formação da minha identidade, do meu pensamento, e sempre surgem conversas interessantes nesse meio. Aliás, acho que alguns dos meus melhores encontros com leitores foram relacionados a universidades. Me sinto entre os meus ali.

A literatura é capaz de mudar o mundo ou só o mundo do autor?
No mínimo, o mundo do leitor também.

AUTOR

* Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

ENTREVISTADO

Rafael Gallo é paulistano, autor do romance Rebentar (Record, 2015) e de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti. Tem ainda contos publicados em diversas antologias, como o eBook Desassossego (Mombak, 2014) e a Machado de Assis Magazine (FBN, 2013).

FEIRA DE SANTANA-BA | nº 3 | vol. 1 | Ano 2016

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