A filosofia-medicina orgânica de Trotula de Ruggiero, na Baixa Idade Média (1050-1097)

Dr. Marcos Roberto Nunes Costa*
Trotula de Salerno, por John William Waterhouse

Dado o preconceito ou tabu, de que não convinha a uma mulher ser examinada por um homem, era comum, na Idade Média – assim como ainda hoje em alguns meios populares – as mulheres procurarem umas às outras quando de suas “doenças femininas”, especialmente aquelas ligadas à sexualidade, o que levavam a certas mulheres tornarem-se “especialistas” ou “práticas” na arte da medicina, a qual envolvia os mais diversos aspectos: identificação ou diagnóstico, cura ou tratamento, confecção ou preparo de medicamentos, acompanhamento da gravidez e realização de partos, etc.

Daí o aparecimento na Baixa Idade Média, nomeadamente da Escola de Medicina de Salerno – Sul da Itália, na costa do Mediterrâneo – mulheres destinadas a estudar medicina, para melhor servir à sua classe, especialmente no que se refere às chamadas “doenças femininas”.  Foi o caso, por exemplo, de Trotula de Ruggiero (1050-1097), uma mulher que, embora pouco se saiba acerca de sua vida, a ponto de alguns autores defenderem que ela sequer existiu, estudos recentes falam dela como uma mulher oriunda da cidade de Ruggiero – Sul da Itália, que por ser de família nobre pode estudar, chegando a frequentar a referida Escola de Medicina de Salerno, onde, mais tarde, veio a ser Mestre (magistra). Fala-se que ela se casou com o médico salernitano Giovanni Platearius, o Velho, com quem teve dois filhos: Giovanni Platearius, o Jovem, e Matteus Platearius, que também foram médicos e professores de prestígio em Salerno.

E a própria Trotula, no prólogo de uma de suas obras, o De passionibus mulierum curandorum ante, in, post partum (Sobre as doenças das mulheres antes, durante e depois do parto), narra os motivos que a fizeram exercer a profissão de médica:

Como as mulheres são naturalmente mais frágeis do que os homens, estão mais frequentemente sujeitas às doenças, especialmente nos órgãos envolvidos nas tarefas destinadas pela natureza. Uma vez que tais órgãos estão colocados em partes íntimas, as mulheres, por pudor e por reserva inata, não se atrevem a revelar a um médico homem o sofrimento infligido por estas doenças.  Por isso a compaixão por esse infortúnio feminino e principalmente por solicitação de uma mulher da nobreza, levou-me a examinar mais detalhadamente as disposições que mais frequentemente afetam o sexo feminino (TROTULA apud SIMONI, 2012, p. 4).

            Trotula se destacou em meio às demais mulheres de sua época que faziam medicina na Escola de Salerno por não só estudar e cuidar de suas companheiras, mas por ensinar e divulgar ou escrever para o mundo aquilo que fazia, conforme destaca Chiara Zamboni:

Trotula, portanto, não é uma exceção na Escola de Salerno: outras mulheres se ocupavam daquilo que ela se ocupava. Exceção é o fato dela ter escrito ou feito escrever os seus ensinamentos, pondo-lhes sob o plano de um saber transmissível.  Os seus escritos são interessantes.  Falam dela, além dos conselhos que ela dá às mulheres. Dizem da sua grande capacidade de olhar com destaque os fatos, da ligação entre eles, de trazer indicações práticas de cura (ZAMBONI, 1997, p. 19. ).

      Trotula nos legou três obras, as quais mais tarde seriam reunidas num único compêndio a ser chamado de O Trotula, o qual foi objeto de muitas controvérsias a partir do Renascimento, conforme veremos mais adiante.

Segundo Francesca Santucci, além Trotula, tem-se notícias de outras mulheres que também escreveram sobre medicina na Escola de Salerno, a saber:

Abella, que escreveu os tratados Sulla bile nera (Sobre a biles negra) e Sulle natura del seme umano (Sobre o sêmen humano); Rebecca Guarna, autora de Sulle febbri (Sobre as febres), Sulle orine (Sobre as urinas) e Sull’embrione (Sobre os embriões) e Mercuriade, que compôs Sulla peste (Sobre a peste), Sulla cura delle ferite (Sobre a cura das feridas) e Sugli unguenti (Sobre os unguentos), dentre outras (SANTUCCI apud  SIMONI, 2012, p. 3).

        O primeiro tratado de Trotula, intitulado De passionibus mulierum curandorum ante, in, post partum (Sobre as doenças das mulheres antes, durante e depois do parto), versa sobre ginecologia, obstetrícia e puerpério (pós-parto). Nesta obra, citando fontes como Hipócrates, Galeno, Oribásio e Dioscórides, dentre outros, Trotula explica a menstruação, a concepção, a gravidez, o parto, o puerpério, o controle de natalidade, as doenças do útero e das vias urinárias (especialmente as sexualmente transmissíveis), e, do ponto de vista prático, recomenda ou aconselha a proteção do períneo e a sutura das rasgaduras. Além disso, como ela descreve as suas experiências particulares, a obra deixa transparecer que ela praticou cesariana e usou e recomendou o emprego de opiáceos como anestésicos durante o parto, para aliviar a dor das mulheres, contrariando os ensinamentos da Igreja Católica da época, que sustentavam que as mulheres deviam sofrer o parto sem qualquer alívio.

          Fazendo uma relação entre reprodução e doenças sexualmente transmissíveis, descreveu as manifestações externas da sífilis e citou a doença como causa de esterilidade masculina e feminina, o que rompia a tradição médica da época que atribuía a infertilidade exclusivamente a mulher.

           Mais do que isso, por trás de suas experiências teóricas-práticas de medicina, a obra introduz uma reflexão filosófica acerca do corpo, especialmente do corpo feminino, e é isso que a torna diferente das demais mulheres médicas da Escola de Salerno, uma “filósofa naturalista”.

           Para tanto, baseada no pensamento de Galeno, médico famoso do período imperial de Roma (cerca de 200 d. C.), faz uma ligação entre a natureza (corpórea) de uma pessoa e o universo ou o cosmo como um todo. Ou seja, Trotula estabelece uma relação entre o macrocosmo e o microcosmo, no qual o corpo humano é um micro, e nesse, internamente, há uma relação entre suas características físicas particulares (o micro) e o todo (macro).  Resumindo, Trotula buscava explicar o ser humano numa visão orgânica de conjunto, na qual as partes devem estar relacionadas harmonicamente, para que haja saúde, conforme sintetiza Karine Simoni:

Para a médica, os órgãos e sistemas do corpo humano estavam interligados, fato que deveria ser considerado sob pena de não alcançar a cura ou de não impedir a morte do paciente. Em outras palavras, o bem-estar dependeria do funcionamento harmônico de vários fatores como saúde, beleza, cuidados e afetos. Esse, parece-me, é o fio condutor de toda obra de Trotula, e está presente inclusive nos escritos sobre a gestação, o parto e os cuidados para com o recém-nascido (SIMONI, 2012, p. 5).

             Tanto é assim que Trotula irá escrever outras obras, uma das quais sobre o uso de cosméticos por parte das mulheres como instrumento de cura, onde a beleza aparece como sinônimo de um corpo saudável, conforme veremos mais adiante.

         Dentro desta perspectiva, Trotula estudava e tratava das doenças, especialmente das “doenças femininas”, ligadas à sexualidade, de forma filosófico-naturalista, sem nenhuma conotação religiosa ou moral.

           Tanto é assim que, indo de encontro à moralidade de sua época, em que era tabu falar de certos assuntos sexuais, em capítulo intitulado “Como restringir a vagina de modo que, mesmo violada, pareça virgem”, com objetividade,  prescreve, ou diz, como aliviar o desejo sexual das mulheres que por razões diversas não podem manter relações sexuais:

Existem mulheres que estão proibidas de ter relações sexuais, ou porque fizeram voto de castidade, ou porque estão ligadas à uma condição religiosa, ou porque ficaram viúvas. Para algumas, não é permitido mudar de condição e, apesar de quererem a relação sexual, não a praticam, porque estão sujeitas a graves doenças. Para essas se sugere o seguinte: pegue algodão embebido em óleo de musgo ou de hortelã e aplique-o sobre a vulva. No caso de não dispor desse óleo, pegue um pouco de vinho quente e aplique-o sobre a vulva, com o bastão de algodão ou lã. Isso é um bom calmante e amortece o desejo sexual, aplacando a dor e o prurido (TROTULA apud SIMONI, 2012, p. 6).

       Mais do que isso, segundo Chiara Zamboni, nos seus ensinamentos práticos, tais como “remédios, ervas medicinais, sugestões de posições mais justas para o parto, a sua atenção vai também para a beleza do rosto, dos cabelos e em geral para beleza do corpo” (ZAMBONI, 1997, p. 20). Daí sua segunda obra De ornatun mulierum (Sobre a beleza das mulheres) que alguns traduzem simplesmente por Sobre os Cosméticos, em que prescreve cosméticos como instrumentos terapêuticos.

              E tal preocupação não tem um sentido frívolo, mas faz parte de sua “Filosofia Médica”, ligada a uma “Filosofia da Natureza” maior, na qual adota a máxima de que “a beleza é sinal de um corpo saudável”.

          Para ela, “cuidar da beleza é um modo de reencontrar a harmonia do corpo, que significa também reencontrar com a natureza como um todo, dada a ligação entre o ser humano e o universo” (Ibid.).

           Finalmente, lhe é atribuída a autoria de uma terceira obra intitulada De aegrituinum curatione (Sobre a cura das doenças), que se refere aos tratamentos e medicamentos. A obra é rica na indicação de remédios a base de ervas, especiarias, óleos, etc. associados às regras de higiene, alimentação equilibrada e exercícios físicos.

           Por tudo isso, do século XI ao XVI Trotula foi referência obrigatória nas melhores escolas de medicina da Europa. Sua maior contribuição é considerar a prevenção como o aspecto mais importante da Medicina.

            Mas, com o passar dos tempos, após a morte de Trotula, o machismo predominou na Escola de Salerno a ponto dos médicos desta Escola, apesar de usarem seus textos, mudarem sua identidade, que passou a ter nome, ou melhor, um cognome de homem - “Trotula, o Médico”, ou simplesmente passaram a defender a ideia de que ela sequer existiu, que não passava de uma figura fictícia, conforme  ressalta Luciana Calado Deplagne, ao dizer que,  apesar de ser

bastante difundida sua obra durante o medievo, traduzida em vários idiomas, Trotula teve, no entanto, sua identidade questionada no século da invenção da imprensa, pelo seu primeiro editor, em 1544. Período de intensa misoginia, o renascimento negou a autoria dessa obra a uma mulher, alegando o elevado grau de cientificidade impossível para sabedoria feminina da época. Apenas pesquisas recentes do final do século XX é que vão devolver a Trotula o reconhecimento da autoria de sua obra De mulierum passionibus (DEPLAGNE, 2008, p. 1-8).

            Mais do que isso, suas três obras foram reunidas em um único compêndio conhecido por O Trotula, tendo sua autoria questionada. Para alguns, trata-se de uma compiliação de textos de autores diversos. Outros, atribuem ou relacionam a obra a um autor do sexo masculino, de nome Trottus, daí o cognome de “Trotula, o Médico”, conforme vimos no parágrafo anterior. E há ainda quem atribua a autoria a outros nomes, conforme narra Jennifer Drew:

Quando Kasper Wolff de Basileia publicou uma edição impressa do Tratado Trotula, em 1566, atribuiu o trabalho a um autor do sexo masculino, Eros Juliae, um médico greco-romano que viveu séculos antes de Trotula. Esta publicação foi usada como prova por alguns historiadores posteriores para defender a tese de que o Trotula não tinha sido escrito por uma mulher, mas era na verdade o trabalho de um médico do sexo masculino. Da mesma forma, no século XX, o médico alemão Karl Sudhoff intentando diminuir o estatuto de ‘As Damas de Salerno’, alegou que estas não teriam sido médicas, mas apenas parteiras e enfermeiras. Daí, por não serem médicas, significava que Trotula não poderia ter escrito o Passionibus mulierum, uma vez que era muito detalhado, para além do escopo e especialização de uma ‘simples parteira’ (DREW apud SIMONI, 2012, p. 7).

         E, finalmente, há aqueles que confundem ou relacionam o nome da autora Trotula com o título do supracitado compêndio O Trotula, dizendo que se tratava do nome de uma obra e não de uma mulher.

            Mas, a partir do século XVIII, com a descoberta de parte dos manuscritos de O Trotula, nomeadamente da obra De passionibus mulierum curandorum ante, in, post partum (Sobre as doenças das mulheres antes, durante e depois do parto), muitos estudiosos foram levados a defender que pelo menos esta obra é de autoria de Trotula de Ruggiero, de forma que a partir de então passaram a dividir a obra em duas partes, ou a usar duas nomenclaturas para O Trotula: a primeira, composta pelo De passionibus mulierum curandorum ante, in, post partum, de autoria reconhecida, que levaria o nome de Trotula maior, e a segunda, compostas pelas obras De ornatun mulierum  e De aegrituinum curatione, que formariam o Trotula menor, por ter autoria duvidosa.

AUTOR
*Marcos Roberto Nunes Costa é professor da Graduação e Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Filosofia da UFPE. Atualmente realizando Pós-doutorado em Filosofia pela Universidade do Porto, sob orientação do Prof. Dr. Francisco Meirinhos. E-mail: marcosnunescosta@hotmail.com

REFERÊNCIAS

BOIS, Danuta. Trutula de Salermo – mulheres ilustres de passado e presente. Disponível em: <http://www.distinguishedwomen.com/biographies/trotula.html>. Acesso em: 24.02.2012.
DEPLAGNE, Luciana Calado. Vozes femininas na Idade Média: auto-representação, corpo e relações de gênero. Fazendo Gênero 8 – corpo violência e poder. Florianópolis, 25 a 28 de agosto de 2008. p. 1-8.  Disponível em: ida de
GREEN, Monica H. The Trotula: a medieval compendium of women´s medicine. USA: University of Pennsylvania, 2002. Disponível em: <http://www.upenn.edu/pennpress/book/13496.html>. Acesso em: 24.02.2012
SIMONI, Karine. De dama da Escola de Salermo à figura legendária: Trotula de Ruggiero entre a notoriedade e o esquecimento.  Fazendo Gênero 9: diásporas, diversidades, deslocamento. 23 a 26 de agosto de 2010. Disponível em: 
ZAMBONI, Chiara. La filosofia donna: percursi di pensiero femminile. Colognola ai Colli: Demetre, 1997.


FEIRA DE SANTANA-BA | nº 4 | vol. 1 | Ano 2016


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