A música como objetivação imediata da vontade na metafísica do belo de Arthur Schopenhauer

José Luís de Barros Guimarães*


1 INTRODUÇÃO

Quando nos deparamos com os manuais de filosofia, encontramos o nome de Artur Schopenhauer, assim como o de Fiche, Schelling, Hegel e, posteriormente, Nietzsche, entre os autores alemães que compõem aquilo que a literatura contemporânea denominou de “Filosofia Trágica”. O autor de O mundo como vontade e representação é considerado por parte expressiva de seus comentadores como o “pai do pessimismo”. Esse rótulo de que a filosofia schopenhaueriana é marcadamente desconsoladora e irremediavelmente fatalista deve-se, em partes, à asserção apresentada pelo autor de que metafisicamente “toda a vida é sofrimento” (alles Leben Leiden ist). Por sermos ontologicamente marcados por um impulso cego, irracional, irrefreável, insaciável e desprovido de finalidade, denominado de Vontade [1], é que Schopenhauer compara a oscilação do nosso estado de espírito ao movimento de um pêndulo, que ora aponta para o sofrimento, ora aponta para o tédio. Podemos confirmar essa linha de pensamento no fragmento abaixo:
A base de todo o querer, entretanto, é necessidade, carência, logo, sofrimento, ao qual consequentemente o homem está destinado originalmente pelo seu ser. Quando lhe falta objeto do querer, retirado pela rápida e fácil satisfação, assaltam-lhe vazio e tédio aterradores, isto é, se ser e sua existência mesma se lhe tornam um fardo insuportável. Sua vida, portanto, oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e tédio. (SCHOPENHAUER, 2005, pp. 401-402)
A princípio, essa análise enfática da condição humana parece, de fato, trágica e fatalista graças ao fato de a natureza humana ser marcada por esse pulso cego e irrefreável que nos promove um incomensurável desconsolo existencial quando não conseguimos objetivá-lo na realidade. Entrementes, Schopenhauer mostra-nos um caminho que pode auxiliar e amenizar, mesmo que momentaneamente, o sofrimento e a angustia, intrínsecos à condição humana. 

O primeiro horizonte apontado pelo autor para suspender o pesar da existência humana diz respeito à dimensão estética: seja por um estado de sublimação da vontade quando nos deparamos com os fenômenos da natureza - o pôr do sol, as águas enfurecidas dos oceanos, um furacão, um tsunami - seja por um estado de contemplação absoluto do belo, quando nos perdemos com o objeto artístico – uma pintura, um monumento arquitetônico, um poema ou uma música. Não é por acaso que Fonseca afirmou que “para o filósofo, o que melhor define a vida humana são as carências e necessidades. A única experiência que em geral nos permite considerar uma condição existencial diferente é a contemplação do belo, seja na arte ou na natureza” (FONSECA, 2010, p. 74).

No livro III de O mundo como vontade e representação, Schopenhauer mostra-nos a possibilidade de desvencilharmo-nos do sofrimento que emana da nossa própria estrutura desejante a partir de um tipo especial de conhecimento que pode ser adquirido no contato com as Belas Artes. Quando a intuição estética do sujeito atua frente ao objeto artístico produzido pelo gênio artistico - seja na arquitetura, pintura, poesia e música -, a vontade existente no indivíduo é momentaneamente suprimida. Isso se dá porque o sujeito que contempla a realidade pelas lentes da intuição estética esquece por um curto intervalo de tempo as suas vontades e desejos particulares por estar em face do belo artístico.

Na perspectiva schopenhaueriana, podemos sentir uma alegria interior e um conforto espiritual quando nos perdemos na grandeza de uma obra arquitetônica dos Castelos góticos, nas elegantes pinturas de Van Gogh, nas reveladoras poesias de Fernando Pessoa, nas melodias cortantes das sinfonias de Beethoven, apenas como títulos de ilustração. As manifestações artísticas podem ser transformadas em um remédio poderoso, apropriando-se de uma expressão estoica, para aliviar as dores da alma humana. Todas as Belas Artes, indistintamente, possuem a capacidade de promover uma comoção estética quando o sujeito do conhecimento está em face ao belo artístico. Porém, a arte dos sons tem uma peculiaridade com relação às outras a tornando especial dentro da Weltanschauung schopenhaueriana. E é exatamente esse o ponto nefrálgico da nossa investigação filosófica, isto é, evidenciar as razões metafísico-epistêmicas que justifiquem a arte dos sons ser considerada objetivação imediata da Vontade e não representação que não foi submetida ao princípio de razão suficiente, como a escultura, a pintura e a poesia, por exemplo.

Para isso, resolvemos dividir a nossa exposição em três momentos. No primeiro, apresentaremos a relação existente entre Vontade e Arte presente na metafísica do belo schopenhaueriana, dando ênfase à relação epistemológica entre sujeito e objeto em sua estética, isto é, representações alheias às determinações espaço-temporais e ao contemplador da existência purificado momentaneamente da vontade. No segundo momento, iremos dissertar sobre o sistema das Belas Artes presentes no âmago do pensamento schopenhaueriano com o intuito de explicitar a hierarquização feita pelo autor concernente às manifestações artísticas a partir da sua filosofia da natureza. Faremos aqui uma compacta exposição da arquitetura, pintura e poesia para melhor entendermos a hierarquização promovida por Schopenhauer. Por fim, dissertaremos sobre a majestosa, revigorante e poderosa arte dos sons bem como os impactos que ela consegue produzir no espírito humano.

Apresentaremos também algumas considerações finais que, mais do que resolver cabalmente o problema que abrimos nesse texto, possibilita-nos pensar sobre a relevância da experiência estética, em especial, à música, em nossa breve existência no mundo. Usaremos, como aporte teórico central dessa investigação, o livro III da sua principal obra, O mundo como vontade e representação, bem como seu outro escrito, que trata especificamente das questões relacionadas à Filosofia da Arte, intitulado A metafísica do belo. Além das obras supracitadas, iremos recorrer a texto de comentadores que se debruçaram sobre as reflexões schopenhauerianas com o intuito de melhor fundamentar a nossa reflexão filosófica acerca da arte dos sons.

2 A RELAÇÃO ENTRE VONTADE E ARTE NA FILOSOFIA SCHOPENHAUERIANA

Para que possamos compreender as considerações schopenhauerianas referentes à música, tornar-se imprescindível esclarecer primariamente a relação existente entre Vontade e Arte em sua filosofia. No livro III de O mundo como vontade e como representação, Schopenhauer afirmou que a contemplação estética é um modo especial e diferente que os seres humanos possuem para conhecer o mundo. Aquele que intui o mundo como representação, sob o viés artístico, possui a capacidade de entendê-lo de uma maneira absolutamente imediata, independentemente do princípio de razão [2], não apreendendo do fenômeno apenas as suas relações causais dadas no tempo e no espaço, mas por uma compreensão intuitiva daquilo que denominamos na doutrina platônica de Idéias eternas ou Formas imutáveis. Estas são consideradas em sua filosofia “objetidade da Vontade”, isto é, Vontade que se torna objeto, representação.
Só a Idéia é a mais ADEQUADA OBJETIDADE possível da Vontade ou coisa-em-si; é a própria coisa-em-si, apenas sob a forma de representação: aí residindo o fundamento para a grande concordância entre Platão e Kant, embora, em um sentido restrito e rigoroso, Aquilo de que ambos falam não seja o mesmo. As coisas particulares, por seu turno, não são objetidade adequada da Vontade, mas esta já foi turvada pelas formas cuja expressão comum é o princípio de razão, condição como este é possível ao individuo. Se, numa suposição absurda, fosse-nos permitido não mais conhecer as coisas particulares, nem acontecimentos, nem mudança, nem pluralidade, mas apenas Idéias, apenas o escalonamento das objetivações de uma única e mesma Vontade, verdadeira coisa-em-si apreendidas em puro e límpido conhecimento. (SCHOPENHAUER, 2005, pp. 242-243)
Schopenhauer reconhece nas Idéias platônicas a manifestação mais perfeita e pura da Vontade por se tratar da essência íntima do mundo como forma e conteúdo, mas completamente despida das particularidades e contingências que são próprias do devir. O sujeito que se depara com o objeto artístico, desprende-se dessa unificação integral do espaço e do tempo, que se torna efetiva por meio da lei de causalidade, intuindo imediatamente aquilo que existe de mais essencial no mundo, isto é, aquilo que não nasce nem perece, aquilo que simplesmente é independente das formas puras do entendimento humano que são dadas a priori ao sujeito cognoscente. Por isso, Germer afirmou que “de acordo com Schopenhauer, as Ideias eternas são os arquétipos, os protótipos, os modelos das coisas. Elas são as formas atemporais, imutáveis, permanentes; são os caracteres, os elementos puramente objetivos” (GERMER, 2010, p. 92). O conhecimento estético, na perspectiva schopenhaueriana, é mais verdadeiro e direto do que o da ciência [3], pois ele não é regido pela lei de causalidade e não passa pelo crivo da racionalidade.

Essas representações não submetidas ao princípio de razão suficiente, objeto da arte, foi o modo que a Vontade “encontrou” para ser conhecida, tornando-se objeto do conhecer humano, a própria objetidade de si mesma.  Deve-se acrescentar ainda que por mais que as formas imutáveis de Platão não sejam apreendidas pelo princípio de razão ainda permanece inalterável a relação sujeito-objeto. Porém, como expusemos a pouco, o modo como essa relação entre conhecedor e conhecido se estabelece na contemplação da Ideia difere da forma a que estamos condicionados a conhecer habitualmente. É importante que se tenha em mente que a única via de acesso possível para a contemplação imediata das formas, essenciais e permanentes do mundo e de todos os seus fenômenos, dá-se por intermédio das belas artes. E cabe ao gênio artístico, aquele que possui a capacidade de intuir imediatamente as Ideias platônicas, “traduzi-las” em obras de arte.
Entretanto, qual modo de conhecimento considera unicamente o essencial propriamente dito do mundo, alheio e independente de toda relação, o conteúdo verdadeiro dos fenômenos, não submetido à mudança alguma e, por conseguinte, conhecido por igual verdade por todo o tempo, numa palavra, as IDÉIAS, que são a objetidade imediata e adequada da coisa-em-si, a Vontade? – Resposta: é a ARTE, a obra do gênio. Ele repete as Idéias eternas apreendidas por pura contemplação, o essencial e permanente dos fenômenos do mundo, que, conforme o estofo em que é repetido expõe-se como arte plástica, poesia ou música. Sua única origem é o conhecimento das Idéias, seu único fim é a comunicação deste conhecimento [...]. A arte se detém nesse particular. A roda do tempo para. As relações desaparecem. Apenas o essencial, a Idéia, é objeto da arte – Podemos, por conseguinte, definir a arte COMO O MODO DE CONSIDERAÇÃO DAS COISAS INDEPENDENTE DO PRINCÍPIO DE RAZÃO, oposto justamente à consideração que o segue, que é o caminho da experiência e da ciência. (SCHOPENHAUER, 2005, pp. 255-256)
Esta linha de pensamentos permite-nos compreender a forte relação entre Vontade e Arte na filosofia de Schopenhauer, por reconhecermos as belas artes o meio mais preciso e claro de entendimento do mundo como representação despido das relações, acidentes e mudanças que sempre estão em curso - assim como o rio heraclitiano - renovando-se a cada instante e efetivando-se necessariamente nesse fluxo contínuo do tempo que se faz presente em um determinado lugar. Pelo fato de as Belas Artes serem o meio que nos habilita a intuir os arquétipos imorredouros do mundo, as Ideias platônicas, ou, expressando em um vocabulário schopenhaueriano, a “Objetidade da Vontade” é que a experiência estética torna-se a pedra de toque da filosofia schopenhaueriana.

A relação entre Vontade e Arte estabelecida por Schopenhauer em confluência com a afirmação de que a contemplação estética é um modo distinto e majestoso de conhecer absolutamente as Ideias no mundo certamente são asserções que ainda promovem questionamentos pertinentes à teoria do conhecimento e a filosofia da arte, uma vez que encontramos epistemologicamente outro modo de sujeito e objeto relacionarem-se independentemente do princípio de razão. Para que tenhamos a clarividência filosófica referente ao modo de conhecimento estético devemos compreender como se dá a receptividade do sujeito frente ao objeto artístico. O conhecimento do mundo sob um olhar artístico, destituído das “amarras” da vontade humana, é outro elemento presente no âmago da estética de Schopenhauer que nos permitirá entender essa forte relação metafísica que todos os seres humanos possuem com a arte.

Schopenhauer defende a tese de que o modo de conhecimento puramente estético manifesta-se nas pessoas que conseguem suprimir momentaneamente o seu querer interior, cessando completamente essa relação ilusória (o véu de maia 4) entre o sujeito que intui e o objeto intuído. Assim, a fruição estética se dá epistemologicamente no momento em que o sujeito desprende-se das suas particularidades e o objeto revela-nos apenas o essencial do mundo. A obra de arte do gênio artístico é considerada a via de acesso para a contemplação imediata do arquétipo imorredouro do mundo, seja a arquitetura, a pintura a poesia ou a música. Isso acontece porque há uma transição do conhecimento comum para o conhecimento estético. Aquele que capta o mundo pelas lentes da arte deixa de ser indivíduo, pois esquece momentaneamente a sua vontade particular, para se tornar puro sujeito do conhecimento destituído de vontade. Podemos confirmar essa assertiva em um trecho da Metafísica do belo:
Como foi dito, é possível uma transição do conhecimento comum, que concebe somente coisas isoladas, para o conhecimento da Idéia. Mas isso é uma exceção. Semelhante transição ocorre subitamente. O conhecimento se liberta da servidão da Vontade: justamente por aí o sujeito de tal conhecimento cessa de ser indivíduo, cessa de conhecer, meras relações em conformidade com o princípio de razão, cessa de conhecer nas coisas só os motivos de sua vontade, tornando-se puro sujeito do conhecimento destituído de vontade: com tal, ele concebe em fixa contemplação o objeto que lhe é oferecido, exterior à conexão com outros objetos ele repousa nessa contemplação, observa-se nela. (SCHOPENHAUER, 2003, p. 45)
O puro sujeito do conhecimento destituído de vontade mergulha por completo no objeto e perde-se nele, esquecendo-se dos próprios desejos e das formas subordinadas do fenômeno, concebidas pelo princípio de razão, tornando-se uma espécie de espelho do mundo como representação. O ímpeto do querer conhecer se “esvai” momentaneamente e sujeito e objeto entram em pleno equilíbrio diante da imponência da Idéia que preenche e acalanta o espírito daquele homem que não mais reflete e conceitua, mas apenas intui e compreende o mundo despretensiosamente de modo absoluto. Essas considerações preliminares, referentes ao modo de conhecimento estético em Schopenhauer, é o primeiro passo para compreendermos porque a música é considerada objetivação imediata da Vontade [5] e não representações alheias ao princípio de razão suficiente. Nossa compreensão da estética schopenhaueriana será ampliada a partir do momento que entendermos a relação indissociável ente as Belas Artes e a Natureza.


3 O SISTEMA DAS BELAS ARTES E OS MODOS DE OBJETIVAÇÃO DA VONTADE


As belas artes indistintamente acalantam o espírito humano, não deixando no momento da fruição estética ímpeto algum do querer. O corpo esquece as carências diárias provocadas por essa força incontrolável que pulsa violentamente nos homens, confundindo-se com o próprio objeto intuído. Conseguimos suspender brevemente o binômio dor-tédio que marca substancialmente a existência humana exatamente por estarmos vis-à-vis com a obra de arte produzida pelo gênio. Não podemos deixar de mencionar que Schopenhauer não estabelece uma diferença epistêmica marcante ente os modos de sublimação do querer frente ao objeto artístico, no entanto, reconhece a existência de uma hierarquia entre as belas artes. Uma das razões apresentadas pelo autor diz respeito ao conteúdo exposto por cada manifestação artística que, por sua vez, está diretamente relacionado com os modos de objetivação da Vontade, isto é, como as variadas formas fenomênicas presentes em toda a Natureza, do reino mineral ao animal. No livro II de O mundo como vontade e representação, Schopenhauer esclarece essa ideia:
Ora, sabemos que todas as artes têm somente um objetivo, a exposição das Idéias. Sua diferença essencial consiste só em qual grau de objetivação da Vontade – a Idéia – será exposto, como o que também determina o material da exposição. Nesse sentido, mesmo artes muito distantes uma das outras se deixam, no entanto elucidar reciprocamente por comparação [...] O que o artista hidráulico realiza com a matéria fluida, o arquiteto realiza com a matéria sólida, e justamente o mesmo realiza o poeta épico ou dramático com a Idéia de humanidade. O fim comum de todas as artes é o desdobramento, a elucidação da Idéia, da objetivação dos graus da vontade que se expressam no objeto da arte. (SCHOPENHAUER, 2005, 228.)
As forças universais de toda natureza intrínsecas à matéria, os corpos inorgânicos, a natureza orgânica nas suas formas mais simples e sofisticadas, todas essas Idéias são objetidades da Vontade que se manifestam imediatamente na realidade. Schopenhauer observa a variedade ilimitada das formas essenciais e permanentes da natureza e estabelece uma hierarquia entre elas, classificando-as em graus mais baixos ou altos dependendo do grau de sofisticação da Ideia que se objetiva no mundo. As Belas Artes também entram nessa hierarquia graças ao fato de cada uma delas exporem um eidos específico do mundo como representação alheio ao princípio de razão, pois “para Schopenhauer, o fim das artes é a exposição (Darstellung) das Ideias, e a diferença essencial entre as artes reside no grau de objetivação da Vontade presente na Ideia que cada arte expõe” (STAUDT, 2012, p. 202). 

Essa é a principal razão que faz Schopenhauer analisar como cada manifestação artística suprime o sofrimento e a dor, oriundas da Vontade de viver. A arquitetura, a pintura, a poesia e a música possuem a capacidade de aquietar a vontade humana. Todavia, a maneira como o sujeito capta a beleza e a intensidade com que isso acontece difere substancialmente em decorrência do tipo de Ideia que cada arte expõe. Para que se tenha uma maior clareza das nuances entre as belas Artes, é fundamental termos no horizonte o conteúdo exposto por cada manifestação artística descrita pela metafísica do belo schopenhaueriana. Apresentaremos o conteúdo de três importantes artes: arquitetura, pintura e poesia. Esta analise nos permitirá ter um entendimento parcial da superioridade da música em relação a outras manifestações artísticas.


3.1 A ARQUITETURA

A arquitetura, não sendo pensada pelos humanos que as habitam para fins utilitários, representa os graus mais baixos de objetivação da Vontade. Os homens que conseguem suprimir momentaneamente a mola impulsora do querer interior com esse tipo de manifestação artística acalmam o espírito intuindo de forma imediata as Ideias de gravidade, rigidez, dureza e qualidades universais da pedra. A fruição estética acontece em decorrência da luta intensa entre a gravidade - lei natural que age sobre todos os corpos - e a rigidez da matéria que perdura com o passar dos tempos, sendo esse o único tema estético dos monumentos arquitetônicos. Uma construção da Grécia antiga, por exemplo, provavelmente irá conseguir suprimir a estrutura desejante humana em função de um auto reconhecimento imediato da pequenez do indivíduo diante do tamanho, peso e resistência daquela construção que permanece intacta com o passar dos séculos. Schopenhauer observa que à luz tanto do dia quanto da noite contribui substancialmente para a beleza de qualquer obra arquitetônica sendo este um modo possível da arte torna-se quietivo da vontade.
  
3.2 A PINTURA

A arte de pintar representa um grau mais elevado de objetivação da Vontade na medida em que o pintor consegue expressar, por meio de uma combinação variada de cores, Ideias bem mais sofisticadas do que a arquitetura como, por exemplo, as paisagens naturais, os animais e a própria vida humana. Schopenhauer observa que a pintura difere das outras belas artes pelo correlato objetivo das formas essenciais e permanentes do mundo expresso em um quadro – que em si mesmos já são dignos de apreciação estética como, por exemplo, os fenômenos da natureza – com o aspecto subjetivo do sujeito destituído de vontade. A satisfação estética, no caso da pintura, está concentrada nessa capacidade de equilibrar o lado objetivo da Ideia exposta em pintura com o lado subjetivo do sujeito que vê a mesma essência íntima do mundo. A Monalisa de Leonardo Da Vinci, por exemplo, na perspectiva de Schopenhauer, expressa tanto a Ideia de Homem, pensado aqui como Objetidade da Vontade, como as idiossincrasias dos indivíduos que participam desse modo de objetivação do Em-si do mundo. É exatamente por meio desse correlato mencionado acima que a pintura aquieta a vontade humana, suprimindo momentaneamente o sofrimento do puro sujeito do conhecimento destituído de vontade.

3.3 A POESIA

A arte poética consegue descrever de maneira esplendorosa o caráter trágico e cômico da condição humana, mostrado com plenitude ao puro sujeito do conhecimento que lê versos carregados de ritmo e rimas a Ideia límpida e clara de humanidade. Este último conceito é considerado na filosofia schopenhaueriana o grau mais elevado de objetivação da Vontade. O poeta conhece intuitivamente a essência íntima do homem, mostrando de forma autêntica as variadas facetas da ação humana. Schopenhauer escreve em uma das passagens de O mundo...: “Eis porque ninguém pode prescrever ao poeta o dever de ser nobre e sublime, moralista, pio, cristão, isso ou aquilo muito menos censurá-lo por ter este ou não ter outro caráter. O poeta é o espelho da humanidade, e traz a consciência dela, o que ela sente e pratica” (SCHOPENHAUER, 2005, p. 329).

Deste modo, as práticas virtuosas e perversas, os momentos de covardia e coragem vivenciados pelos homens ao longo da existência e as ações maliciosas ou de compaixão praticadas com os outros são traduzidas com exatidão em versos encharcados de intuição poética. Essa capacidade da poesia de suprimir os ímpetos humanos está relacionada com os ritmos e rimas que as palavras impõem à nossa faculdade de representação - que estão ligadas ao tempo - além de uma concordância cega das estrofes da poesia. Schopenhauer afirmou que nenhum livro de história consegue entender com tamanha clarividência a essência íntima do homem como a poesia o faz, tendo em vista que os historiadores discorrem sobre as transformações e mudanças sobre as quais a humanidade passou. O poeta, diferentemente do historiador, apreende aquilo que é essencial e imutável, não falando de homens, mas do Homem. Todo o exposto demonstra compactamente outro modo possível da arte tornar-se quietivo da vontade.

4 A RAINHA DAS BELAS ARTES: A MÚSICA

A arquitetura, a pintura e a poesia conseguem suspender o querer interior dos homens, expondo conteúdos específicos das Formas essenciais e permanentes do mundo representacional independentes do princípio de razão. Essas representações, que não podem ser apreendidas pela unificação integral de espaço e tempo, são consideradas objetidades da Vontade. Os artistas autênticos expõem indistintamente as cópias perfeitas do mundo - por meio de suas manifestações artísticas - aliviando momentaneamente os desejos irrefreáveis que pulsam incontrolavelmente em toda a raça humana. Assim, todas as belas artes - independentemente dos graus de objetivação da Vontade que elas expõem - conseguem dirimir o pesar da existência, suprimindo o próprio querer que causa sofrimento e dor à vida dos homens.

A música, nesse sentido estrito, não difere das outras belas artes graças ao fato de ela também conseguir aliviar as inquietações humanas, diluindo arrebatadoramente os apetites que o corpo normalmente sente no constante pulsar irremediável da vontade de vida. Todavia, a arte dos sons deve ser vista como uma manifestação artística completamente à parte em relação às outras, especial num certo sentido, porque no momento da fruição estética musical o homem não contempla apenas o arquétipo imorredouro do mundo como representação - que se apresenta enquanto Ideia ao entendimento humano – mas sente o próprio mundo como Vontade. Por essa razão, o seu efeito é bem mais intenso e vigoroso comparado às demais artes já mencionadas. Podemos confirmar essa linha de pensamento nas palavras do próprio Schopenhauer:
Esta se encontra por inteiro separado de todas as demais artes. Conhecemos nela não a cópia, a repetição no mundo de alguma Idéia dos seres; no entanto é uma arte tão elevada e majestosa, faz efeito sobre o mais íntimo do homem, é aí tão inteira e profundamente compreendida por ele, como se fora uma linguagem universal, cuja distinção ultrapassa até mesmo a do mundo intuitivo [...] Do nosso ponto de vista, ao considerarmos o efeito estético da música, temos de reconhecer-lhe uma significação muito mais séria e profunda, referida a essência íntima do mundo e de nós mesmos [...]. Da analogia com as demais artes podemos concluir que a música, de certa maneira, tem de estar para o mundo como a exposição para o exposto, a cópia para o modelo, pois seu efeito é no todo semelhante ao das outras artes, apenas mais vigoroso, mais rápido, mais necessário e infalível. (SCHOPENHAUER, 2005, pp. 336-337)
Por essa razão, a música é considera a pedra de toque na concepção estética schopenhaueriana, pois, enquanto as outras artes expõem cópias perfeitas das formas essenciais do mundo e de todos os seus fenômenos, ela ultrapassa os próprios limites da intuição, preenchendo por completo a alma humana com melodias e harmonias que conseguem mostrar imediata e intensamente o substrato do mundo de uma maneira completamente límpida. Não é à toa que Bossert assinalou que “Ela [a música] não exprime mais apenas as Ideias, essa primeira manifestação da Vontade, mas a própria Vontade, princípio das Ideias” (BOSSERT, 2012, p. 212).

O impacto da música é tão revigorante no espírito do sujeito que esqueceu momentaneamente a condição de ser querente, que ele passa a entender a completude de tudo aquilo que existe de um modo que a razão e a linguagem não conseguem expressar o que a música pode comunicar. Essa inefabilidade da música faz com que Schopenhauer a “coroe” como a “rainha” das belas artes por ela ser objetivação imediata da própria Vontade e não das Ideias eternas e imutáveis platônicas, como as outras manifestações artísticas:
A objetivação adequada da Vontade são as Ideias (platônicas). Estimular o conhecimento delas pela exposição de coisas isoladas (que as obras de arte ainda sempre o são) é o fim de todas as demais artes (o que só é possível sob uma mudança correspondente do sujeito que conhece). Todas, portanto, objetivam a Vontade apenas mediatamente, a saber, por meio das Ideias [...]. Segue-se que a música, visto que ultrapassa as Ideias e também é completamente independente do mundo fenomênico, ignorando-o por inteiro, poderia em certa medida existir ainda que não houvesse mundo – algo que não pode ser dito acerca das demais artes. De fato, a música é uma tão IMEDIATA objetivação e cópia de toda a VONTADE [...]. A música, portanto, de modo algum é semelhante às outras artes, ou seja, cópias de Ideias, mas CÓPIA DA VONTADE MESMA, cuja objetidade também são Idéias. (SCHOPENHAUER, 2005, p. 338)
Por mais que a arquitetura, a pintura e a poesia consigam comunicar de modo imediato uma Ideia existente no mundo, as mesmas circunscrevem-se em Formas e podem ser “visualizadas empiricamente” pelo olho daquele que ainda não se desprendeu dos “óculos” do princípio de razão suficiente. Nelas, diferentemente da música, a intuição estética se faz extremamente necessária porque o objeto artístico é requisito indispensável para que o sujeito possa descortinar a beleza do mundo. Embora o puro sujeito do conhecimento destituído de vontade desprenda-se das suas particularidades e enxergue apenas o essencial da obra de arte, a relação epistemológica entre sujeito e objeto permanece. Os blocos de rochas e pedras organizados simetricamente, a combinação de tintas misturadas em uma tela e os versos ritmados escritos em uma folha de papel são coisas que se contrapõem aos “olhos de quem vê”, enquanto a intuição estética não entra em cena. E isso se dá exatamente porque, enquanto as outras manifestações artísticas são cópias dos arquétipos imorredouros do mundo, as Ideias platônicas, a música é a cópia perfeita da própria Vontade. 

As harmonias e melodias musicais diferem-se das demais outras artes porque elas não se tornam de maneira alguma um objeto representado [6]. Os sons de uma determinada canção são inapreensíveis na medida em que a execução de uma nota leva-nos impreterivelmente a outra, e a outra, e, assim, sucessivamente. A música, que se faz invisível aos olhos, é a própria coisa-em-si kantiana, isto é, a cópia perfeita da Vontade. Para reforçar ainda mais essa verossimilhança entre o Em-si do mundo e a rainha das belas artes, Schopenhauer apresenta-nos uma bela analogia entre a estrutura musical e os modos de objetivação imediatos da Vontade. Vejamos:
Reconheço nos tons mais graves da harmonia, no baixo contínuo, os graus mais baixos de objetivação da Vontade, a natureza inorgânica, a massa do planeta [...]. Deste modo, assim como do tom é inseparável um certo grau de altura, da matéria é inseparável um certo grau de exteriorização da Vontade. – O baixo contínuo é, portanto, na harmonia, o que no mundo é a natureza inorgânica, a massa mais bruta, sobre a qual tudo se assenta e a partir da qual tudo se eleva e desenvolve. Ademais, no conjunto das vozes intermediárias que produzem a harmonia e se situam entre o baixo contínuo e a vozes que canta a melodia, reconheço a sequência integral das Ideias nas quais a Vontade se objetiva. As vozes mais próximas do baixo correspondem aos graus mais baixos, ou seja, os corpos ainda inorgânicos [...]. Já as vozes mais elevadas representam os reinos vegetal e animal [...]. Por fim, na MELODIA, na voz principal elevada que canta e conduz o todo em progresso livre e irrestrito, em conexão significativa e ininterrupta de UM pensamento do começo ao fim, expondo um todo, reconheço o grau mais elevado de objetivação da Vontade, a vida do homem. (SCHOPENHAUER, 2005, pp. 339/341)
As notas executadas pelos instrumentos de timbres graves, responsáveis por manter o campo harmônico de uma canção, são comparadas com toda a natureza inorgânica, pois ambos possuem pouca mobilidade, mas dão sustentação às demais coisas. As vozes intermediárias que geralmente possuem a função de estabelecer um elo entre o baixo contínuo e fundamental com a voz principal são responsáveis pela criação da harmonia. Nela, Schopenhauer reconhece as Ideias nas quais a Vontade se objetiva na realidade fenomênica, a saber, o reino vegetal e animal. A voz principal elevada (os tenores e as sopranos), que dita a linha melódica da música, representa o grau mais elevado de objetivação da Vontade: o homem. É por isso que quando nos deparamos com uma impactante ópera, assinala Schopenhauer, sentimos a própria Vontade “ecoando” absolutamente de modo ininterrupto à nossa mente, pois ela “traduz, em sua livre explosão de âmago da consciência humana, todos os movimentos do querer viver que animam o Universo” (BOSSERT, 2012, p. 212).

O ser humano que é tomado pela marcha fúnebre do réquiem em ré menor de Mozart [7], pela revigorante nona sinfonia de Beethoven, pelo belíssimo arranjo de cordas das quatro estações de Vivaldi ou mesmo pelas operetas tragicômicas produzidas por Rossini, apenas como títulos de ilustração, esquece completamente a dor e o tédio que são provocados por essa mola impulsora do querer interior, pois a música, na perspectiva schopenhaueriana, é a própria linguagem da Vontade. É interessante que se sublinhe que a arte dos sons anuncia todos os sentimentos humanos sem absolutamente nenhuma necessidade de explicação racional e conceitual da realidade. Sentimos como uma intensidade desmedida um estado de fantasia quando entendemos de modo absoluto os sentimentos e as emoções humanas em um sentido universal. Em mais um trecho do livro III de O mundo como vontade e representação, podemos confirmar a asserção:
Pois a música nunca expressa o fenômeno, mas unicamente a essência íntima, o em-si de todos eles, a Vontade mesma. A música exprime, portanto não esta ou aquela alegria singular e determinada, esta ou aquela aflição, ou dor, ou espanto, ou júbilo, ou regozijo, ou tranqüilidade de ânimo, mas eles MESMOS, isto é, a Alegria, a Aflição, a Dor, o Espanto, o Júbilo, o Regozijo, a Tranqüilidade de Ânimo, em certa medida, in abstracto, o essencial deles, sem acessórios, portanto também sem os seus motivos [...]. Daí advém o fato de nossa fantasia ser tão facilmente estimulada pela arte dos sons, tentando assim figurar em carne e osso aquele mundo espiritual invisível, vivaz e ágil, a falar tão imediatamente de nós, logo, tenta corporificá-la num exemplo analógico. (SCHOPENHAUER, 2005, p. 343)
Para a filosofia schopenhaueriana, a música nunca expressa individualidades ou particularidades, mas, tão somente, aquilo que é universal. A linguagem humana é desnecessária quando estamos diante de uma orquestra sinfônica ou mesmo de uma ópera, pois ela permite-nos sentir todos os sentimentos humanos em sua generalidade. Ela não exprime por meio das linhas melódicas uma determinada alegria, dor ou tédio em particular, mas a própria Alegria, Dor e Tédio. É por essa razão que “A música exprime, para Schopenhauer, a ‘quintessência’ da vida, e isto é uma propriedade exclusiva da música” (BURNETT, 2012, p. 160). São por essas razões elencadas acima que Schopenhauer estabeleceu uma hierarquia entre as belas artes, coroando a arte dos sons como a “rainha” entre as demais, pois a música possui a capacidade de exprimir a realidade imaterial do mundo em sua integralidade.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

       O corolário deste artigo consiste em evidenciar, dentro das reflexões estéticas schopenhauerianas, os fundamentos metafísicos e epistêmicos que justificam a superioridade da música frente às demais belas artes, pois a arte dos sons é considerada objetivação imediata da Vontade. O esclarecimento de pontos mais amplos que integram o escopo da sua discussão estética schopenhaueriana foi necessário, pois o modo de conhecimento estético apresentado pelo autor mostra-nos uma relação entre conhecedor e conhecido, que não se assemelha com o modo habitual de conhecimento dos fenômenos, que são apreendidos pelo intelecto humano com a atuação do princípio de razão suficiente. 

               Em um primeiro momento, procuramos evidenciar que os objetos artísticos, que na filosofia schopenhaueriana são chamados de objetidades da Vontade, ou seja, representações que se tornam objeto do conhecer humano independentemente do princípio de razão, possuem a capacidade de veicular o arquétipo imorredouro do mundo como representação (as Ideias de Platão), despindo-se por completo das particularidades e contingências que são próprias às representações circunscritas ao tempo e espaço. Todas as belas artes indistintamente, com a exceção da música, expõem uma ideia específica das formas essenciais e permanentes do mundo que carregam em si mesmas a “marca” da imutabilidade e imobilidade. Aqui, o indivíduo desprende-se momentaneamente da própria individualidade para se tornar “puro sujeito do conhecimento destituído de vontade”. Nesse momento da fruição estética, os tormentos e as dores ocasionados pelo constante pulsar da vontade são esquecidos momentaneamente diante da imponência da Ideia que preenche a consciência humana. 

            Todas as artes de modo indistinto conseguem promover essa alegria interior nos indivíduos que são tomados pelas obras de arte produzida pelo gênio artístico.  Porém, Schopenhauer estabelece uma hierarquia entre as belas artes em função das mesmas exporem uma Ideia especifica do mundo como representação. A arquitetura, a pintura e a poesia, embora expressem Ideias distintas, possuem uma coisa em comum, a saber: todas são Objetidade da Vontade, isto é, representação que ainda não foi submetida ao princípio de razão suficiente. A música difere das demais artes supracitadas pelo fato de ela ser completamente alheia a tempo, espaço e causalidade, pois, como vimos, ela expressa a Vontade mesma pensada como coisa-em-si kantiana.  Os sons que acalantam vigorosamente o espírito humano não podem ser circunscritos em formas, em conteúdos específicos, em objetos estéticos representados, em cópias perfeitas. A arte produzida por Beethoven, Mozart, e Rossini, segundo o próprio Schopenhauer, é a “linguagem da própria Vontade”, pois ela consegue expressar a Dor, a Alegria, a Tranqüilidade da alma mesma num sentido universal sem necessidade alguma das palavras e dos conceitos.

      Schopenhauer reforça ainda mais a tese - de que aquilo que flui ao meio de compassos, harmonias e melodias é a Vontade mesma manifestando-se imediatamente - quando a estrutura musical é comparada com os modos de objetivação da Vontade. Assim, diante do exposto, podemos afirmar que embora exista inegavelmente um pessimismo presente na metafísica da Vontade do filósofo alemão (pois somos marcados pela dor e o tédio de viver), parece-nos que a experiência estética pode ser uma alternativa consoladora diante dos acontecimentos dramáticos da vida. Nesse contexto, a música pode ser considerada um remédio eficaz contra os tormentos e as dores que inquietam a alma humana quando uma carência surge, pois quando a intensidade da canção arrebata o coração à razão simplesmente silencia-se com a poderosa arte dos sons.

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AUTOR
*José Luís de Barros Guimarães é Graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí – UFPI. É mestre em filosofia pelo programa de Pós-graduação em Ética e Epistemologia pela mesma instituição de ensino. Atualmente é professor substituto de filosofia pelo Departamento de Fundamentos de Educação (DEFE).
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NOTAS
[1] A Vontade (Wille) é a instância fundamental do pensamento único schopenhaueriano. Corresponde de maneira imediata a coisa-em-si de Kant. Na abertura de O mundo como vontade e representação, Schopenhauer anuncia que “o mundo é minha representação” (2005, p. 45), do ponto de vista metafísico o complemento necessário é que “o mundo é minha vontade” (Ibidem, p. 47), porém, a Vontade se estende ao conjunto de fenômenos e adquire assim um estatuto cosmológico. (ROGER, 2013, 72)
[2] Em sua tese de doutorado, intitulada Sobre a quadrupla raíz do princípio de razão suficiente, de 1813, Schopenhauer apresenta-nos o princípio de razão sob quatro figuras, a saber: princípio de razão suficiente do devir, ser, conhecer e agir. Todos explicam os “porquês” do mundo, porém, o campo de atuação difere. No primeiro tipo, lidamos com as representações empíricas que fazemos da realidade. No segundo tipo, trata-se das representações puras, isto é, do tempo e espaço. A terceira atua no mundo para explicar as representações das representações, isto é, os conceitos produzidos pelo homem. Por fim, o princípio de razão suficiente do agir atua no mundo para explicar por meio dos motivos as ações humanas (SCHOPENHAUER, 2008, p 67).
[3] Maria Lúcia Cacciola, em seu artigo intitulado O conceito de interesse, assinalou que “A metafísica do belo proporcionaria um conhecimento de certo modo mais direto e verdadeiro que o conhecimento da ciência e do senso comum, pois esse conhecimento seria um conhecimento de uma representação não submetida ao princípio da razão, ou seja, nem à causalidade, que se refere aos fenômenos, nem às leis da lógica que regem o conhecimento racional. O conhecimento estético é, pois, para Schopenhauer, mediado apenas pela Ideia, isto é, apresenta ou expõe a Ideia, que, segundo ele, é a objetivação mais perfeita da Vontade. Schopenhauer explicita que a noção de Ideia tal como a emprega provém de Platão e significa o que há de imutável, de perene nas coisas, ou seja, o gênero, a unidade, antes de qualquer multiplicidade. Assim a Ideia está fora do tempo e do espaço, sendo algo aquém ou além do mundo fenomênico que manifesta o que ele é” (CACCIOLA, 1999, pp. 5-15).
[4] Schopenhauer utiliza a expressão “véu de maia”, de origem oriental, para se referir às representações (Vorstellung) submetidas ao princípio de razão suficiente, isto é, tempo, espaço e causalidade. Sabe-se que para o autor de O mundo como vontade e representação essa apresentação que o sujeito faz da realidade por meio da intuição empírica não passa de uma aparência, uma fantasmagoria, uma ilusão. Para que o sujeito consiga intuir o mundo de maneira verdadeira e correta, assinala Schopenhauer, é necessário que o “véu de maia” seja retirado. (ROGER, 2013, p. 64).
[5] Observe-se que neste parágrafo escrevemos o “V” de vontade tanto com letra maiúscula quanto com minúscula. Utilizaremos ao longo deste trabalho, a fim de evitar maiores confusões conceituais, a mesma distinção entre Vontade e vontade feita por Jair Barbosa na sua tradução de O mundo como vontade e representação. A Vontade com V maiúsculo corresponde à coisa-em-si kantiana, da qual, segundo Schopenhauer, a pedra, o cavalo, a árvore e o homem são apenas modos distintos de objetivação. A vontade com o v minúsculo diz respeito ao querer interior existente nos seres de modo particularizado. Quando nos referimos a essa pulsão metafísica em um sentido “universal”, estamos trabalhando com a Vontade. Quando abordamos tal pulso volitivo de modo “particular”, é da vontade que estamos a tratar.
[6] A esse respeito Burnett assinalou que “A música, diferente das outras artes, não exige nenhum tipo de experiência anterior de alguma forma de conhecimento prévio, a sua manifestação se dá por uma via inexplicável, a sua compreensão prescinde de qualquer elemento, ela se dá imediatamente ao homem; não resta dúvida que esta condição é absolutamente herdeira do fato de que na representação musical não existe criação ou cópia, ela é impossível de representar” ( CF: BURNETT, 2012, p 149).
[7] É interessante que se tenha em mente que as produções artísticas musicais que Schopenhauer possui no horizonte é a música erudita. Além da sua íntima relação com a arte dos sons – todo final de tarde o filósofo alemão costumava tocar flauta – ele teve a oportunidade de assistir a inúmeros concertos e óperas em suas viagens pela Europa. O fato dos exemplos pelo autor de O mundo como vontade e representação estarem circunscritos às produções estéticas de sua época, não nos impossibilita de estender tal reflexão estética para outras produções mais contemporâneas.
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REFERÊNCIAS

BARBOZA, Jair. Infinitude subjetiva e estética: natureza e arte em Schelling e Schopenhauer. São Paulo: UNESP, 2005.
BOSSERT, A. Introdução a Schopenhauer. Tradução de Regina Schopke e Mauro Baladi. Rio de Janeiro: Contraponto, 2011.
BURNETT, Henry. A metafísica da música de Arthur Schopenhauer. Veritas, v. 57, n. 2, 2012. p, 143-162.
JANAWAY, C. Schopenhauer. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
ROGER, Alain. Vocabulário de Schopenhauer. Tradução de Cláudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
SAFRANSKI, R. Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia. Tradução de Wiliam Lago. São Paulo: Geração editorial, 2011.
SCHOPENHAUER, Arthur. A metafísica do belo. Tradução de Jair Barboza. São Paulo: UNESP, 2003.
______. O mundo como vontade e como representação. Tradução de Jair Barboza. São Paulo: UNESP, 2005.
______ La cuádruple raíz del principio de razón suficiente. Traducido por Eduardo Ovejero y Maury. Buenos Aires: Losada, 2008

VANDENABEELE, B. Schopenhauer on aesthetic understanding and the values of art. In: NEIL, A.; JANAWAY, C. (Eds.). Better Consciousness: Schopenhauer’s Philosophy of Value. New York: Wiley-Blackwell, 2009. 

FEIRA DE SANTANA-BA | nº 4 | vol. 1 | Ano 2016


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