O amor e o feminino no discurso de Sócrates-Diotima no Banquete de Platão

Felipe Gustavo Soares da Silva*


RESUMO
O presente trabalho analisa o discurso de Sócrates-Diotima no Banquete de Platão buscando demonstrar como a passagem dá ênfase ao aprendizado de Sócrates com Diotima acerca do amor. Para tanto, fizemos a leitura da narrativa no trecho específico do diálogo em que ocorre o relato da cena, e buscamos uma chave de leitura considerando o feminino como modelo de amor nas relações humanas, afim de responder porque, num diálogo que demonstra a supremacia dada ao masculino na sociedade grega, Platão usa a figura feminina como mestra de Sócrates, ensinando-o, afinal, o que é o amor.

PALAVRAS-CHAVE: Mulher; Amor; Erótica; Aprendizagem.


INTRODUÇÃO

O Banquete de Platão, conhecido também por Simpósio - συμπόσιον -  é uma das obras mais conhecidas do autor, normalmente é estudada na Filosofia[1], na Educação e na Psicologia, visto o conteúdo que apresenta sobre a temática do amor na antiguidade.  O cenário da obra é a celebração do triunfo de Agatão no teatro no ano de 416 a. C.

A obra é composta por sete discursos sobre o amor (Eros). Cada personagem fala de Eros a partir de uma perspectiva particular, cada discurso é uma expressão particular da personagem que revela um aprendizado, um contexto e uma prática cultural  atrelada ao perfil de quem fala: poeta, médico, guerreiro, filósofo, são exemplos das funções desenvolvidas na cidade e que se fazem presente na mesa. Mas o que nos chama atenção e convida a escrita deste trabalho é a fala de Sócrates: ele usa a figura feminina de Diotima para explicar como aprendeu o seu conceito clássico de amor. O recurso a uma mulher causa espanto visto que, numa sociedade onde a mulher era notadamente diminuída frente a importância política e educativa do homem e, ainda mais, na Filosofia de Platão, onde o feminino não é um lugar de destaque, considerar Diotima mestra de Sócrates nas coisas do amor é no mínimo estranho e talvez queira revelar algum fundamento específico sobre a figura da mulher ou sobre a essência do amor a partir da figura feminina.

Platão não defende exatamente uma postura que condene a mulher em sua obra, mas essa visão é um tanto ambígua e cheia de argumentos prós e a favor[2]; Em síntese, Jaeger, (2011, p,815), demonstra como Platão concebia a mulher frente à sua época.

Platão acredita na capacidade da mulher para cooperar criadoramente na vida da comunidade, mas não é onde parece que devia busca-la, na família, que ele procura esta cooperação. Não partilha a opinião dominante no seu país, segundo a qual a mulher é destinada pela natureza exclusivamente a conceber e a criar filhos e a governar a casa. (...) reconhece que a mulher é em geral mais fraca que do que o homem.

Jaeger, referindo-se claramente à presença da mulher na República,  tende mais a considerar que Platão defende ideia de que a mulher seja colaboradora do homem no projeto da cidade. Outra visão sobre esta questão, seria a de Capriglione (1990) [3], que considera que Platão deprecia a figura da mulher em suas obras e, esta visão, tende a concordar de maneira mais ampla com os conceitos de educação (παιδεία) da antiguidade.

 Outro fator importante é que não é suficientemente claro que na Grécia antiga a mulher fosse objeto do amor (φιλíα) mas tinha apenas uma função social bastante inferior a do homem, lhe servindo por meios de serviços domésticos e artesanatos de pequeno porte, além é claro, do dever de geração dos filhos. O amor grego como tal era objeto de relações masculinas, a chamada pederastia. A pederastia era um processo educativo que envolvia a relação de um homem mais velho com um mais novo e nela aprendia-se e ensinava-se todos os elementos que preparariam o jovem para sua vida na pólis. A mulher estava fora desse projeto, o que apenas soma elementos para o pressuposto de que a figura feminina não era relevante nem no contexto histórico grego, senão por gerar filhos, nem tão pouco na Filosofia de Platão, onde, há uma certa indecisão do autor em considerar a mulher num nível hierárquico inferior ao do homem, seja pela natureza mesmo seja pelas atividades desenvolvidas.

O que consideramos aqui é que, Platão não é claro em relação à sua interpretação da figura da mulher em suas obras, talvez nos coloque em uma de suas aporias mais uma vez ao colocar a figura da mulher no Banquete de uma maneira bastante positiva e sugestiva à uma interpretação de que ela tenha um papel muito importante na vida do homem. Examinar o Banquete é uma alternativa de encontrar uma saída ou um argumento que possa ser utilizado para falar de uma defesa ou uma função da mulher nas questões do amor, ainda que, defendamos aqui, que existiria um amor feminino ou pelo menos uma experiência das mulheres que ajuda a compreender o conceito de amor como um todo, no Banquete. Como todas as experiências gregas, o amor necessita ser aprendido e ensinado: na narração da experiência com Diotima, é Sócrates que reconhece a necessidade de aprender sobre o amor com um mestre - διδασκάλων - (Symp.206d).

Podemos aqui levantar a hipótese de um apelo educativo ao amor onde a mulher seria o modelo mais primário e ao mesmo tempo mais importante para falarmos o que é o amor. Sócrates dá testemunho de um aprendizado de sucesso nas coisas do amor, cena esta que ganha contraste frente ao fracasso de Alcibíades, relato da cena posterior a de Sócrates. Ora, só se aprende a amar com as mulheres? Ou seria a mulher o modelo de amor? Qual a importância então pode ser inferida da figura feminina a partir do Banquete? Estas perguntas podem ser respondidas se considerarmos o fato de que o amor no Banquete aparece como um aprendizado, e Platão talvez de fato, encontre em sua obra, um espaço para mostrar a importância da figura da mulher como educadora da intimidade do homem: o amor é uma forma profunda e que nos liga à todas as coisas. Os próprios relatos do Banquete mostram que o amor é um deus poderoso (quem fala), um princípio que está em todas as coisas (Erixímaco) e um princípio restaurador da condição humana (mito dos andróginos).


CONTEXTO DO AMOR FEMININO: O DISCURSO DE PAUSÂNIAS E A DEFESA DA PEDERASTIA GREGA

A figura feminina aparece no discurso de Pausânias, antecedendo a fala de Sócrates, mas de maneira ambígua: apesar de defender o amor dirigido a alma e não ao corpo ele se usa da figura feminina da deusa do amor Afrodite[4] para representar uma duplicidade de Eros. São dois Eros assim como são duas Afrodites. “Uma, a mais velha sem dúvida, não tem mãe e é filha de Urano, e a ela é que chamamos de Urânia, a Celestial; a mais nova, filha de Zeus e de Dione, chamamo-la de Pandêmia, a Popular” (Symp. 180 d-e) O fato de usar Afrodite é uma recorrência ao mito para fazer seu louvor a Eros. Ele apesar de usar dessa figura mítica não demonstra em seu discurso nenhum contributo dela para o problema do amor. Ele faz comparações do amor terreno, corporal e inferior à Afrodite Pandêmia e do amor celeste e virtuoso à Afrodite Urânia. O amor corporal, somente, inferior, seria o amor das mulheres ou pelas mulheres, visto a impossibilidade dessas atingir o amor intelectual, dos homens.

O amor feminino era um problema educativo: a mulher era escrava das próprias paixões, considerada débil e associada a toda desmedida possível. Portanto, a distinção de amor celeste e terreno era necessária para mostrar o contexto grego em que a mulher estava inserida, ademais, era necessário, portanto, negar uma forma de amor associada ou que representasse o feminino. Neste contexto, observa ROJAS (2004, p.294) o discurso de Pausânias, apesar de recorrer à figura da deusa Afrotide, pode e deve ser considerado

(...) negação do feminino, que se revela nesta duplicidade do Eros e é também a negação da sensualidade, do descontrole, a paixão propriamente feminina do amor, a tudo que vincula a Dionísio com as mulheres e que se ausenta deste erotismo. (...) O feminino é, de certa forma, por sua natureza, um desafio a essas regulações que sancionam a quietude, e a seriedade do amor celeste.

Eros vulgar, ou amor vulgar: era assim que se considerava o amor feminino e Pausânias acaba por defender a pederastia grega como forma de amor superior. O predomínio do amor masculino garante que se possa amar belamente e corretamente. O amor feminino ou o amor ao gênero feminino era considerado frágil e débil pelos motivos que já apresentamos. A virilidade, da qual a mulher não participava, garantia a realização política do jovem educando e dos adultos da pólis. A cidade grega era masculina e viril, amar era cuidar das relações com as quais os cidadãos da pólis lidavam. A preocupação do homem grego era, portanto, em não ser escravo de ninguém, nem de si, nem de outro. A escravidão aos desejos era retrato de uma forma de amor feminina e promíscua, desprovida de moderação e cuidado.

A fala de Pausânias será superada pela de Sócrates quando este último unificar o desejo (Eros) em seu discurso falando da natureza desse desejo. A duplicidade de Eros apontada na escala erótica narrada por Sócrates como etapas de gradação do desejo até contemplar o Belo em si. Desta forma, para nosso trabalho a fala de Pausânias torna-se relevante apenas por mostrar, de certa forma, a condição da concepção do amor às mulheres como um amor inferior e desligado da atividade intelectual tão preconizada na pólis. Platão parece-nos de propósito situar este discurso como uma premissa antes de demonstrar seu aprendizado com uma mulher. Talvez o discurso exista e recorra a uma figura feminina para contextualizar o uso de Diotima como mestra de Sócrates. Vejamos porque, nas coisas do amor, Sócrates foge a regra do aprendizado masculino


O DISCURSO DE SÓCRATES-DIOTIMA

            
O discurso de Sócrates é considerado o ápice da obra não apenas por narrar a experiência de uma figura central da Filosofia antiga, não apenas por mostrar como o mestre de Platão aprendeu e revelou-se aprendiz nas coisas do amor, mas, sem dúvida, pelo conteúdo filosófico que o discurso carrega acerca do amor[5] e da natureza do desejo (filosófico).

O que se sabe sobre Diotima é no Banquete de Platão, o que pode sugerir que ela seja uma personagem do filósofo para ilustrar o conceito de amor, todavia, todos os personagens de Platão correspondem a convivas de Platão. Nails (2002 p.137), fala de falta de provas para defender a existência histórica da personagem, de fato, não há recorrência dela em outras obras de Platão até o presente momento, entretanto, seu aparecimento no Banquete serve-nos para então defender a ideia de que Platão parece provocar a presença de uma mulher para demonstrar a origem do amor em seu conceito mais apurado, conforme demonstra. Nussbaum (2009), define Diotima como personagem fictício:

(...)somos levados a perguntar sobre o seu nome e porque Platão deve tê-lo escolhido. O nome significa “honra de Zeus”. Alcibíades tinha uma concubina, uma cortesã cujo nome registrado pela história é Timandra. Esse nome significa “honra do homem”. Aqui, pois, também Sócrates toma uma concubina: uma sacerdotisa em lugar de uma cortesã, uma mulher que prefere o intercurso da mente pura aos prazeres do corpo, que honra (ou é honrada por) o divino em lugar do meramente humano.[6]

A cena do contrato de Sócrates com Diotima inicia-se pelo reconhecimento do filósofo de que ouviu um discurso sobre o amor com uma mulher (γυναικὸς) de Mantinéia (Symp. 201d). Segundo ele, Diotima (Διοτίμας) era entendida (σοφὴ) nas coisas do amor (Symp. 201d). A primeira constatação, em reconhecer uma figura feminina como entendida já demonstra uma certa credibilidade que ele oferece a ela. O motivo, talvez seja esclarecido quando mais à frente descrever a escala erótica.

O passo do diálogo entre Sócrates e Diotima cumpre definir Eros como intermediário, carente, mediador entre os homens e os deuses (Symp. 202e). Prosseguindo, demonstra, com recurso ao mito, a genealogia de Eros (Symp. 203b-204a) Veja que, de fato, o aprendizado de Sócrates parece ter sido profundo e frutuoso: Diotima mostra-se entendida sobre o amor na sua origem e por isso consegue falar de sua natureza o que, posteriormente, será utilizado para definir Eros como filósofo. Na interpretação de Oliveira, (2016 p.32)

na fala de Diotima, a proclamação ousada de que existe uma associação intrínseca entre éros e o exercício da atividade filosófica e de que a filosofia, através de uma correta utilização da pederastia ou do amor aos jovens (tò orthôs paiderastân) (Symp.211b), eleva nossa alma paulatinamente acima de tudo aquilo que é ordinário ou vulgar, em direção à visão de uma beleza inefável.[7]

A racionalidade que girava em torno do amor aos homens na pederastia constituía um caminho filosófico conhecido e apresentado por Diotima. Uma figura feminina entende e determina que é no amor masculino que se encontra a verdadeira Sabedoria.  A constatação de Diotima, longe de um simples reconhecimento, pode ser interpretada como elemento de profundo entendimento (σοφὴ)  sobre o que é o amor. Só quem ama verdadeiramente sabe dizer o que é o amor. Mais a frente, Diotima irá demonstrar que amar será a procura da metade ou do todo que lhe falta considerando que essa metade ou todo seja bom (Symp. 205e). Esta passagem pode ser encarada como mais uma defesa da pederastia como a relação excelente. A educação (amorosa) entre homens garantia o sucesso político do jovem e mantinha uma sociedade de homens com funções nas quais não se encaixavam as mulheres. Não há espaço para amar mulheres enquanto se busca o ser Bom. Este ser bom exige o reconhecimento de uma capacidade intelectual desenvolvida da qual não participam as mulheres.

A questão pode ser aprofunda quando Diotima distingue fecundidade na alma e no corpo e vemos o amor feminino diminuído em importância no projeto do amor masculino. O amor masculino era o cenário do amor espiritual do qual as mulheres estariam excluídas. Assim relata Sócrates ter aprendido com a sacerdotisa:


Os indivíduos, prosseguiu, cuja força fecundante reside apenas no corpo, voltam-se de preferência para as mulheres – é a sua maneira peculiar de amar – a fim de gerar filhos e, por esse modo, assegurar para si próprios, conforme creem, a imortalidade, ventura e renome duradouro. Os fecundos na alma...Sim, porque há também pessoas, me falou, cuja força fecundante reside na alma, muito mais ativa do que a do corpo, com relação às coisas que convém à alma conceber e procriar. E que lhes convém conceber? A sabedoria e as demais virtudes de que, precisamente, os poetas são os pais, e o s artistas dotados de espírito inventivo. A porção mais importante e bela da sabedoria, continuou, é a referente ao governo das cidades e à organização da família, o que recebeu o nome de prudência e justiça. Quando a alma de um desses homens divinos encerra essa virtude fecundante e, na idade própria, sente desejos de fecundar e procriar, põe-se também, segundo creio, a procurar por toda a parte o belo para nele procriar, o que jamais poderia dar-se na fealdade. Essa a razão de deleitar-se muito mais com os corpos belos do que com os feios, por querer procriar; e se coincide encontrar uma alma bela, generosa bem nascida, alegra-se sobremodo com essa dupla beleza, a do corpo e da alma. Na presença de tal criatura, ocorrem-lhe, de pronto, as mais elevadas expressões sobre o valor da virtude, os deveres e as aspirações dos homens bons e, de imediato, procura doutriná-la. (Symp. 208e-209b)[8]

A distinção é bastante clara entre os amores ao corpo (feminino) e à alma (masculino). Mais uma vez justifica-se a pederastia grega, mais uma vez o amor feminino é diminuído frente ao masculino. Segundo Reeve, (2011) “Como a pederastia Ateniense, Diotima reconhece dois tipos fundamentalmente diferentes de amor, duas variedades fundamentalmente diferentes do desejo de dar à luz na beleza.”[9] A essência do amor, masculino por excelência, consiste em amar à alma e nela gerar beleza, o que entendemos educar para as virtudes e para a pólis. É o amor da educação masculina ao qual Diotima se dirige. Gerar no corpo, apenas, dirigir-se para as mulheres, é uma atitude que recebe uma espécie de crítica de Diotima  quando diz “conforme creem” (Symp.208e) o que nos parece demonstrar uma falta de credibilidade destinada aos amantes dos corpos (femininos).

No ritmo dialético, Platão conduz o leitor do diálogo ao ápice da obra, a chamada Scala amoris – Escala do amor. Vejamos

É o seguinte, disse: quem quiser percorrer nessas questões o verdadeiro caminho, deve começar desde a infância a procurar belos corpos. De Início, se dispuser de um guia seguro, amará apenas um corpo, ocasião propícia de gerar belos discursos. De seguida, compreenderá que a beleza de um determinado corpo é irmã da beleza de outro qualquer, e que, se ele tiver de empenhar-se em pós da ideia do belo, fora o cúmulo da insensatez deixar de perceber que a beleza de todos os corpos é uma só. Alcançado este ponto, tornar-se-á apaixonado de todos os corpos belos e relaxará, por outro lado, a violência do amor de um único corpo, que passará a desprezar, por haver reconhecido a sua insignificância. Daí por diante, terá de achar que a beleza da alma é muito mais preciosa do que a do corpo, de forma que uma alma de dotes excepcionais, até mesmo cum corpo carecente de viço, é quanto lhe basta para amá-la e dela cuidar, e gerar belos discursos, cultivando, de preferência, os temas que contribuem para a formação dos jovens. Passando dai para contemplação da beleza dos costumes e das leis, compreenderá que a beleza é uma só em todos os casos, para concluir, afinal, pelo nenhum valor da beleza corpórea. Dos costumes, passará para o estudo das ciências, afim de contemplar, também, sua beleza muito própria, e abrangendo, assim, num único lance d‟olhos o âmbito tão vasto da beleza, não se deixará prender servilmente à beleza de um único objeto, a de um adolescente, por exemplo, de alguma pessoas ou ocupação isolada, à maneira de escravo sem préstimo e de poucas falas, porém voltado para o vasto oceano de belezas e, dominando-o com a vista, gerará belos e magníficos discursos, com o que brotarão pensamentos em barda de seu inesgotável amor à sabedoria, até que, robustecido e aperfeiçoado, alcance o conhecimento único do belo que passarei a relatar-te. (Symp. 210 a- 211)

A scala amoris é a descrição de como pode-se atingir um amor verdadeiro a partir do desligamento de tudo que é corporal. O amor foi ensinado por Diotima a Sócrates por uma experiência que acreditamos ser típica da mulher: a renúncia ao corpo do seu marido e do seu próprio. O prazer cultivado pelo homem grego está na relação homo e não na hétero. Numa sociedade onde a mulher era menosprezada, cabendo-lhe apenas procriar e servir em atividades de pequeno porte, amar era quase uma proibição. Mas será que elas não amavam? Todavia, o amor ao Belo, aspiração apresentado como centro da atividade filosófica no Banquete, não era objeto do amor das mulheres, cridas como incapaz de ascender filosoficamente a este nível de aspiração.

Nossa ideia é aceitar em parte essa regra do amor grego. Parece-nos que pode-se admitir que a mulher grega não faça Filosofia naquele contexto mas entender o que é um amor que desprende-se do corpo pode ser uma alternativa para entendermos porque Platão usa de uma mulher para dizer o que é o verdadeiro conceito de amor. A existência de Diotima não é um problema para nossa questão, o fato é que se Platão a coloca no diálogo é porque talvez queira ou pelo menos pensava que a mulher pudesse fazer parte da escala erótica, obviamente, se chega às últimas etapas isso não é evidente, mas que ela compreende o processo de dessexualização do amor, parece-nos que pode ser uma aposta de Platão sobre o assunto. Vale ressaltar que apesar de concluir o conceito do amor como contemplação do Belo e restringir aos homens essa tarefa, o próprio diálogo nos mostra que não há garantia alguma da realização desse projeto, veja-se a cena seguinte à fala de Sócrates no diálogo, a de Alcibíades (Symp 212d).


DIOTIMA, DESSEXUALIZADA?

A mulher pode ensinar o que é o amor talvez por amar sem reciprocidade. Platão fala do amor entre homens, por ora crítica o amor de homens por mulheres, mas silencia quando o amor das mulheres pelos homens. Diotima pode representar a necessária dessexualização que a mulher é obrigada a praticar visto que o amor do homem era direcionado a outros homens na pederastia, a mulher devia apenas servir de receptáculo e gerar os filhos: por isso uma sacerdotisa dessexualizada fala tão bem do amor. Ora, a concepção de amor em Platão é um caminho de esforço individual do homem que consiste em superar o amor pelo corpo e atinge por essa via de dessexualização a visão do que há de mais Belo, tornando-se assim um amor espiritual. Deixar o corpo é ascender espiritualmente pela via do amor, e esta será a expressão mais clara e evidente da natureza do desejo filosófico. Diotima, apesar de não ser um homem, mas uma figura feminina, parece ter conseguido, percorrido o caminho de aprendizado do amor.

Apesar das mulheres gregas não participarem do processo educativo da mesma maneira dos homens, parece-nos que a inclusão de Diotima revela como um ser dessexualizado é então capaz de falar o que é o amor. Essa compreensão do conceito de amor só é possível para quem conseguir desprender-se do que é corporal. Obviamente, se considerarmos a cultura grega em torno da mulher podemos deduzir a existência meramente fictícia de Diotima, todavia, se crermos que no silêncio em torno da experiência amorosa da mulher, apenas ligada ao amor pelo corporal, existe uma possibilidade de vivência de um amor dessexualizado, pode-se então justificar a inclusão de Diotima como mestra de Sócrates.


REFERÊNCIAS
BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário Mítico-etimológico da Mitologia grega. São Paulo, Vozes, 2014.
CAPRIGLIONE, Jolanda C.  La passione amorosa nella città «senta» donne. — Ética e Prassi Politica, Nápoles, Nuove Edizioni. Tempi Moderni, 1990.
DA SILVA, F.G.S O que é o amor Platônico? Uma resposta a partir da relação erótica entre Sócrates e Alcibíades no Simpósio de Platão. In. Hélade. Dossiê: homoerotismo na antiguidade. Vol.2. n. 3, 2016.  P. 42-48.
JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. 5ª edição. São Paulo: Martins fontes. 2011.
OLIVEIRA, Richard Romeiro. Éros, natureza humana e Filosofia no Banquete de Platão. HYPNOS, São Paulo, v. 36, 1º sem., 2016, p. 25-64.
PLATÃO. Simpósio. Tradução de Carlos Alberto Nunes. – 3ª ed. – Belém: ed. UFPA 2011.
_______. A República: [ou sobre a justiça, diálogo político]. Tradução: Anna Lia Amaral de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
PRIETO, Maria Helena Urenã. Breves interrogações sobre a condição feminina na obra de Platão. HVMANITAS — Vol. XLVII, 1995.  P. 343-356.
REEVE, C.D.C. Eros e amizade em Platão. In Platão. Hugh e Benson e colaboradores. Tradução Marco Zingano – Porto Alegre, Artmed, 2011.


AUTOR
*Prof. Ms. Felipe Gustavo Soares da Silva. Doutorando em Filosofia (UFPE-UFPB-UFRN), Mestre em Filosofia (UFPE).




[1] Escolhemos a tradução seguinte: PLATÃO. Simpósio. Tradução de Carlos Alberto Nunes. – 3ª ed. – Belém: ed. UFPA 2011. Para citá-la, abreviamos como Symp.
[2] Sobre esta questão especificamente, recomendamos a leitura de PRIETO, Maria Helena Urenã. Breves interrogações sobre a condição feminina na obra de Platão. HVMANITAS — Vol. XLVII, 1995  P. 343-356. A autora mostra como é problemático a postura de Platão diante da relação homem-mulher em sua obra. Dentre as quetões que a autora investiga, está o fato de que a mulher é ou não objeto de Philia na concepção platônica.
[3] CAPRIGLIONE, Jolanda C.  La passione amorosa nella città «senta» donne. — Ética e Prassi Politica, Nápoles, Nuove Edizioni Tempi Moderni, 1990.
[4] Ἀφροδίτη – Afrodite, deusa do amor, nascida da espuma (ἀφρός) do mar e de Urano.
[5] Sobre o assunto do amor Platônico pode-se consultar o recente trabalho: O que é o amor Platônico? Uma resposta a partir da relação erótica entre Sócrates e Alcibíades no Simpósio de Platão. In. Hélade. Dossiê: homoerotismo na antiguidade. Vol.2. n. 3, 2016 P.42-48 disponível em: http://www.helade.uff.br/volume2_numero3_2016.html
[6] NUSSBAUM. Martha C. A fragilidade da bondade. Fortuna e ética na filosofia grega. São Paulo, Martins fontes. 2009, p.155
[7] OLIVEIRA, Richard Romeiro. Éros, natureza humana e Filosofia no Banquete de Platão. HYPNOS, São Paulo, v. 36, 1º sem., 2016.
[8] Grifos nossos.
[9] REEVE, C.D.C. Eros e amizade em Platão. In Platão. Hugh e Benson e colaboradores. Tradução Marco Zingano – Porto Alegre, Artmed, 2011. P. 282

FEIRA DE SANTANA-BA | nº 6 | vol. 1 | Ano 2017


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