Cartas entre um admirador de Pascal e um leitor da Monadologia


Isabela Mendes

Prezado amigo,

Remeto-te esta carta por vários motivos. O primeiro deles (mais nobre) é continuar incentivando seus estudos. O segundo (e leviano, talvez) é tentar desviar a tua linha de pensamento do sonho, despertando-te, meu ingênuo amigo, para o enfrentamento da realidade das coisas.
Soube que permaneces fiel seguidor de Leibniz e, confesso, mal pude acreditar que tal fidelidade tenha sido mantida mesmo após teres feito a leitura que te sugeri no último inverno: os pensamentos de Blaise Pascal. Fico curioso e pergunto: não terá Pascal te convencido?
Trata-se, como pudestes perceber, de um pensador lúcido. Livre do devaneio dos que usam, de modo exacerbado, a razão, bem como afastado do exagero imaginativo, instância em que Leibniz se encaixaria muito confortavelmente...
Como te conheço bem, por certo adormeceste enquanto lia Pascal, e findou por deixar de analisar, dentre muitos pontos, o art. II, §72, da obra. Para “relembrar-te” – uma vez que dirás ter lido sem jamais admitir o cochilo –, transcrevo pequeno, porém profundo, trecho da obra:
“Pois afinal que é o homem na natureza? Um nada com relação ao infinito, um tudo com relação ao nada, um meio entre o nada e o tudo, infinitamente afastado de compreender os extremos; o fim das coisas e seus princípios estão para ele invencivelmente escondidos num segredo impenetrável.
(...)
Que fará ele então senão perceber alguma aparência do meio das coisas um desespero eterno de conhecer quer o seu princípio, quer o seu fim. Todas as coisas saíram do nada e foram levadas até o infinito. Quem acompanhará esses espantosos movimentos? O autor dessas maravilhas as compreende. Nenhum outro pode fazê-lo”.
É importante analisar essa passagem atento ao fato de que, para Pascal, o homem é um ser cheio de erro, um miserável que foge de si mesmo por não suportar sua condição contraditória. É um sujeito que não aguenta se ater aos seus próprios pensamentos e gasta toda a vida A entorpeceR-se, fugindo da verdade e buscando a felicidade em coisas que não pode ter, permanecendo infeliz, caso venha a tê-las.
Como ousa um “caniço pensante” compreender o nada, o infinito, e ainda supor que a ordenação do mundo é a melhor possível? Como pode um ser contraditório em si mesmo afirmar ser capaz de compreender a magnitude e a perfeição das obras de Deus?
Pergunto mais: como um ser finito pode gabar-se de conhecer o infinito? Tu me responderás: observando a natureza. Mas o que é a natureza senão um simples traço ante o infinito? Um erro ambulante que observa um pedaço do infinito jamais poderá compreendê-lo!
Em suas contradições, o homem é minúsculo diante do infinito (quando olha o firmamento), enorme em sua insignificância (quando descobre universos em cada um dos seus fios de cabelo), e tomado de misérias no seu coração (jamais encontrará no mundo a felicidade!).
Pelo que leste, não vês claramente que a única grandeza do homem é reconhecer sua miséria? Que essa grandeza se resume ao conhecimento do seu abandono neste universo assombrosamente silencioso?
Eis que, diante desses abismos, um filósofo de imaginação fértil escreve páginas e páginas sobre “harmonia preestabelecida” ... Penso que, talvez, Leibniz tenha escrito a monadologia para o divertimento dos homens (este, o único objetivo perseguido com afinco pela humanidade na sua incansável fuga de si).
Proponho ao parceiro de estudos que saia pelas ruas e observe as pessoas... Desafio-te a encontrar a “harmonia” dos escritos de Leibniz. Não é difícil concluir, pela lei das probabilidades (uma especialidade de Pascal) que verás somente disfarce, mentira e hipocrisia. Oh, se os argumentos de Blaise Pascal ainda não te convenceram, tenho certeza que meia hora de passeio meditativo pelas vias que cercam tua casa te convencerá!
Agora olhe para mim, que sou seu amigo. O que faço nessas breves linhas? Estou presunçosamente a escrever-te no intento de fazê-lo enxergar a própria miséria, fazendo-o pensar sobre sua finitude e insignificância, afastando-te do que consideras a felicidade: o melhor dos mundos possíveis. Não é muita vilania de minha parte?
Ah, bem certo está Pascal quando diz: “como é oco e cheio de baixeza o coração do homem”!
Mantenho-me, pois, submisso a Deus como única saída. Não espero encontrar entre nós qualquer outro caminho. Mas, como ser contraditório que sou, espero ansiosamente pela tua análise das ideias de Pascal. De vez em quando é bom conversar com mentes sonhadoras e criativas, uma vez que não sabemos até quando se manterão assim...

Com meus melhores cumprimentos,
Amigo “Y”.


Querido Amigo “Y”,

Não fiquei surpreso com a carta que me enviaste, pois já imaginava que, por tua curiosidade habitual, interessaria-te conhecer a opinião de um admirador de Leibniz sobre as ideias de Blaise Pascal acerca do infinito.
Li por várias vezes o trecho transcrito em tua carta, extraído do art. II, §72, da obra “Pensamentos”, de Pascal, e pude constatar que Leibniz está muitos passos à frente daquele pensador (e não estou aqui falando da calculadora, mas de filosofia).
Chamou-me a atenção a pergunta: “que é um homem diante do infinito?” Pascal, por um lado, afirma que somos um corpo em meio ao universo, e que este corpo pode ser dividido em muitas partes, sendo cada parte desta um universo, também subdividido entre tantas outras. Coloca, assim, o homem, numa posição paradoxal entre miséria (nada) e magnitude (infinito), e então se assombra, conceituando o homem como “um ponto intermediário entre o tudo e o nada”.
Ora, a monadologia de Leibniz responde à pergunta de Pascal sem assombros, apenas usando, como método, os princípios lógicos de razão suficiente e de contradição. Explico.
Primeiramente, relembremos que, segundo Leibniz, não podemos encontrar nenhum fato verdadeiro ou existente sem que haja uma razão suficiente pela qual ele seja assim, e não de outra maneira.
De outro lado, pelo princípio da contradição, para que tais fatos (contingentes) existam, é preciso que algo necessário e eterno seja a sua causa. Essa seria a mônada necessária e eterna, Deus. Dito em outras palavras, Leibniz demonstra, através de princípios lógicos e racionais, que é impossível que Deus não exista.
Partindo dessa base, relembremos ainda que, segundo Leibniz, o que chamamos de corpo (no mundo dos fenômenos) é um composto de substâncias simples (mônadas), e que todo composto é amplamente divisível, apesar da aparente unidade. Estas substâncias simples, sim, são indivisíveis, incorpóreas, diferentes umas das outras, sujeitas à mudança por princípios internos (força), e com percepção (enteléquia). As mônadas, são, portanto, como as mentes.
Leibniz vai além, e conclui que as mônadas representam todo o universo em si, mas demonstram, à semelhança de um espelho, apenas parte do universo, assim como vemos uma cidade diferente a depender do ponto a partir do qual a observamos.
O homem seria uma mônada com apercepção (alma) que, assim como as demais mônadas, reflete todo o universo. Contudo, se diferencia das demais porque também reflete o entendimento de Deus (razão, consciência). Essa alma se hamorniza com várias outras mônadas (simples) formando um composto, e algo dentro delas, uma força, é que as compele a esta harmonia prestabelecida.
Diante disso, creio que perde em relevância o “nada” apontado por Pascal. Afinal, se Deus (a substância necessária, cuja inexistência é impossível) é causa de si mesmo e razão suficiente para a existência de todas as mônadas, não há lugar para o nada… e o assombro se dissolve. O Homem de Leibniz é o universo. Prefiro este ao homem insuficiente de Pascal.
O homem de Leibniz é conhecedor das verdades necessárias e capaz de fazer abstrações, sendo levado a atos de reflexão, que nos fazem pensar no que se chama o Eu. “E assim, ao pensar em nós mesmos, pensamos no Ser, na Substância, no simples e no composto, no imaterial e mesmo em Deus, concebendo como aquilo que em nós é limitado, n'Ele é sem limites. E tais atos de reflexão nos dão os objetos principais de nossos raciocínios” (T. prefácio 27 4 a).
Eu sei que você vai chamar tudo isso de platonismo ou aristotelismo, e decerto há algo de Aristóteles ou Platão nisso tudo sim, já que Leibniz bebeu na fonte dos antigos, e criou uma filosofia que harmoniza o pensamento antiga ao moderno.
Mas voltando a Pascal, noto a descrença dele no papel da investigação da natureza como meio para conhecer o infinito. Ora, o homem sendo uma mônada que possui em si todo o universo, e sendo capaz de conhecer as verdades necessárias, descobre, investigando a natureza, todo o conhecimento que já possuía dentro de si. Veja a matemática, a geometria, que nos permite conhecer a soma dos ângulos de um triângulo como verdades irrefutáveis.
É pela harmonia preestabelecida que lidamos com a natureza, sendo o conhecimento algo ínsito à alma, que se desvela pela investigação do que nos rodeia. Citando Leibniz, “esta harmonia faz com que as coisas sejam conduzidas à graça pelos próprios caminhos da natureza e que este globo, por exemplo, deva ser destruído e reparado pelas vias naturais nos momentos requeridos pelo governo dos Espíritos, para o castigo de uns e a recompensa de outros” (T. §§ 18 ss; 110; 244-245; 340).
O que eu quero dizer, caro amigo, é que foi observando e estudando a natureza que Leibniz chegou ao infinito, este mesmo que existe dentro de nós. E foi exatamente a noção de infinito que o levou a elaborar o conceito de mônadas. Lembre-se que foi Leibniz quem primeiro descobriu o cálculo infinitesimal (newtonianos, aceitem), e esta descoberta fez com que ele observasse que a natureza “não dá saltos”.
Segundo Leibniz, o problema filosófico da contingência e o problema matemático do contínuo têm origem no infinito. As substâncias se aproximam umas das outras devido a este infinito presente em cada uma delas. Chegamos do “0,99999...” ao 1 por aproximação. Não é fantástico, isto? Saber que o infinito está em tudo, inclusive em nós mesmos, e que isto pode ser comprovado matematicamente, e não temido, simplesmente?
Leibniz não nega que, lidando com a natureza, por vezes erramos, pois perfeito, só Deus. Nossas imperfeições nos permitem conhecimentos obscuros e confusos também, principalmente quando não conseguimos expressar nossas ideias da melhor maneira possível, sendo esta uma das grandes razões para que ele valorizasse a tal ponto o uso preciso da linguagem, da semiologia, como premissa ao avanço do conhecimento.
A razão, como disse linhas atrás, é atributo concedido às almas, atributo este que nos permite conhecer estas verdades, numa espécie de despertar para algo que sempre esteve dentro de nós. Não é curioso, depois de ler Leibniz, que Pascal ache “estranho” querer compreender o princípio das coisas pela observação da natureza?
Mas o certo é que, para Leibniz, este é o melhor dos mundos possíveis, e sei que você considera tudo isso muito ingênuo. Mas se pensarmos na possibilidade de um Deus perfeito, poderemos compreender o que Leibniz quer dizer. Se pensarmos, ainda, que o que chamamos de “mal” é resultado da nossa imperfeição, aí então toda a metafísica de Leibniz fará sentido. Entretanto, acima de tudo, se concordarmos como ele na imortalidade da alma, veremos que os nadas e abismos de Pascal perdem completamente a razão de ser.
A filosofia de Leibniz, portanto, meu caro, demonstra através da lógica, que vivemos numa harmonia preestabelecida, ainda que, por nossa sensível  imperfeição, não gostemos desta ideia. O tão buscado bem comum, por acaso, significa a extinção de todo e qualquer inconveniente? Não seria mais platônico (no mau e vulgar sentido) esperar que o bem comum seja um mundo perfeito? O mais racional não seria imaginar que o bem comum pode ser simplesmente o melhor dos mundos possíveis?
Espero ter satisfeito à sua curiosidade, e aguardo sua réplica para que desenvolvamos cada vez mais as ideias que, como diria Leibniz, já encontram resposta no universo dentro de nós.
Saudações,
Amigo “X”.


AUTORA
Isabela Mendes estuda Filosofia por prazer. Bacharel e pós-graduada em Direito, é analista judiciária na Justiça Federal de Feira de Santana.

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