Mãe Valéria de Logun Éde: o intenso devir do futuro

Emanoel Luís Roque Soares*
O príncipe guerreiro, por Nilcley Santos Rocha. 
RESUMO
O artigo tem pretensões de contar a história de vida de Valeria Pessoa Romero que se transformou em Ialorixá Valéria ty Logum Edé e para, além disso, mostrar que observar, examinar e analisar um outro ser humano e registrar testemunhos de sua vida, falados por aqueles de sua época,  ressaltando que  esse ato descritivo sempre vai ser algo mais do que o fazer de uma simples biografia, é um fazer da história, é uma das diversificações do campo historiográfico. Evidenciando que esta característica se amplia, principalmente,  se essa pessoa for uma Ialorixá, pois, sendo ela uma sacerdotisa do culto iorubano, uma liderança religiosa  traz consigo a história do seu terreiro, sua maneira de educar e formar novos discípulos, sua política de manutenção do culto aos orixás, sua forma de resistir à intolerância religiosa, homofobias, machismos e a preconceitos raciais. Mostra também, que não se pode falar de uma mãe de santo sem a menção de seu santo, principalmente, do seu orixá de frente, seu orixá de cabeça, aquele que arquetípica e filosoficamente determina seu pensar e agir e para mostrarmos essas evidencias partiremos do mito e da filosofia afrodescendente que o cerca.
Palavras chave: mito, bibliografia, filosofia afrodescendente, intolerância religiosa, racismo. 
ABSTRACT
The article intends to tell the life story of Valeria Pessoa Romero who became Ialorixá Valéria ty Logum Edé and, in addition, to show that observing, examining and analyzing another human being and recording testimonies of his life, spoken by those of his time, emphasizing that this descriptive act will always be something more than the making of a simple biography, it is a making of history, it is one of the diversifications of the historiographic field. Evidencing that this characteristic expands, mainly, if that person is an Ialorixá, because, being a priestess of the Yoruban cult, a religious leadership brings with it the history of its terreiro, its way of educating and training new disciples, its maintenance policy from the cult of orixás, their way of resisting religious intolerance, homophobia, machismo and racial prejudice. It also shows that it is not possible to speak of a saint's mother without mention of her saint, mainly, her orixá from the front, her orixá from the head, the one who archetypally and philosophically determines her thinking and acting and to show these evidences we will start from the myth and Afro-descendant philosophy that surrounds it. 
Keywords: myth, bibliography, Afro-descendant philosophy, religious intolerance, racism.

Contar e descrever a vida de uma pessoa, observar, examinar e analisar um outro ser humano e registrar testemunhos de sua vida falados por aqueles de sua época, sempre vai para além do fazer de uma simples biografia, é um fazer da história, é uma das diversificações do campo historiográfico.
Tal característica se amplia, principalmente, se essa pessoa for uma Ialorixá, uma vez que, sendo uma sacerdotisa do culto iorubano, uma liderança religiosa traz consigo a história do seu terreiro, sua maneira de educar e formar novos discípulos, sua política de manutenção do culto aos orixás, sua forma de resistir à intolerância religiosa, homofobias, machismos e a preconceitos raciais, além das características do seu ancestral que está engendrado em seu ser e determina um significado primordial na sua vida e condução do terreiro.
Adquire profundidade ainda maior quando quem faz a história de vida é comprometido com a pesquisa africana e afrobrasileira, e além de tudo, é “filho de santo” engajado e compromissado com a religião ancestralidade e a filosofia afrodescendente o que o faz compreender logo de saída, que não se pode falar de uma mãe de santo sem a menção de seu santo, principalmente, do seu orixá de frente, seu orixá de cabeça, aquele que arquetípica e filosoficamente determina seu pensar e agir.
Mas, porque escolhemos um mito para falar de uma bibliografia, do arquétipo e, consequentemente, de uma filosofia afrodescendente? É por que nele podemos encontrar as primeiras formas da arte poética, e essa poesia mítica não é uma invenção e sim a condutora da imaginação a serviço de uma descrição da realidade e, é a narrativa mítica primordial a primeira grande verdade científica que conhecemos, pois tal como a física e ciências modernas  a mitologia é carregada de crenças, descobertas, conceitos e imaginações.
O mito é a metáfora sobre o universal organizada em forma de poesia, pois como a física moderna que tem a imaginação e a utopia dos pesquisadores como ponto de partida, o fundamento do mitológico está na certeza da existência da realidade do qual ele fala e é também o ponto de partida de uma filosofia afrodescendente ou qualquer outra, uma vez que, por mais fabuloso e incrível que seja esta fala, ela é realidade. Desta  forma, tanto o sábio contador de histórias arcaico (griô), como o cientista físico moderno, resgatam  no seu espiritual, esfera onde estão imersas as utopias e as metáforas, e que, quando estas são desveladas, o homem ganha uma imensa capacidade criadora capaz de descobertas e sabedorias, antes impossíveis e, desta maneira, é o mito a base do conhecimento filosófico tanto como a imaginação e a utopia são a bases do conhecimento cientifico.
[...] o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “principio”. Em outros termos; o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”; ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. (ELIADE, 1994, p.11)

Principalmente, no tempo arcaico dos sábios, antes do nascer de uma filosofia, a humanidade encontrava-se nessa fase preliminar, mergulhada nos pensamentos de natureza mítica no qual a oralidade, o contar e narrar dos fatos impera e as descobertas e criações afloram, pois a oralidade, a narrativa falada confere aos mitos um poder mágico contido somente na dialogia, nas conversações, tendo em vista que a fala liberta as ideias, sem perder a essência dessas, mito é pedagógico contado na exposição do seu princípio dinâmico, tem por sua principal característica trazer à tona o drama existencial, daí o motivo de sempre retornamos a ele quando quisermos filosoficamente entender a realidade.
Logum Edé é salvo das águas
Logum Edé era filho de Oxóssi e Oxum.
Oxóssi e Oxum eram dois orixás muito vaidosos.
Orgulhosos eles viviam às turras.
A vida do casal estava insuportável.
e resolveram que era melhor se separar.
O filho ficaria metade do ano nas matas com Oxóssi
e outra metade com Oxum no rio.
Com isso, Logum se tornou uma criança de personalidade dupla:
cresceu metade homem metade mulher.
Oxum proibiu Logum Edé de brincar nas águas profundas,
pois os rios eram traiçoeiros para uma criança de sua idade.
Mas Logum era curioso e vaidoso como os pais.
Logum não obedecia à mãe.
Um dia Logum nadou rio a dentro, para bem longe da margem.
Óba dona do rio, para vingar-se de Oxum,
com quem mantinha antigas querelas,
começou a afogar Logum.
Oxum ficou desesperada
e pediu a Orunmilá que salvasse o filho,
que a amparasse no seu desespero de mãe.
Orunmilá, que sempre atendia a filha de Oxalá,
retirou o príncipe das águas traiçoeiras e o trouxe salvo a terra.
Então deu-lhe a missão de proteger os pescadores
e todos os que vivessem das águas doces.
Dizem que foi Oiá quem retirou Logum Edé da água
e terminou de criá-lo juntamente com Ogum. (PRANDI, 2001, p.137)

Assim é Logum Edé, constante mudança, sempre recomeçando nunca igual, sempre diferente, pois vive a diferença em si próprio, reinventa-se, nasce, morre e renasce novamente, muda a tudo e a todos em sua volta, eterno devir, sempre na esperança de um mundo melhor. É o guardião das águas doce dos rios, missão dada a ele por Orunmilá, local onde segundo Heráclito[1] nunca se banha duas vezes no mesmo, pois as águas que fluem no rio são sempre diferentes, sempre se transformando em outras águas e, assim mudando, fazendo um futuro não igual em um constante fluxo, nunca estável.
 É dessa maneira metafórica que Logum Edé educa o outro, recria espaços lançando-se sempre a frente do seu tempo, sempre no intuito de melhorar-se uma vez que é vaidoso como sua mãe Oxum e perito e certeiro como seu pai Oxóssi e que, segundo o mito, também, mudou de paternidade tendo adquirido também as características de coragem e força de Oiá, a sua segunda mãe, disposição para guerra e de sempre chegar primeiro a frente, com força e luta, qualidades que o distingue dos outros e que herdou de Ogum, seu segundo pai.
É essa mudança contínua que vai moldar a personalidade e emoldurar a vida de Valeria Pessoa Romero que, embora tenha nascido em Fortaleza, no Ceará  em 24 de junho de 1942, vai ser foi criada em Itapipoca no interior do Ceará, mudando da vida urbana para rural. Interessante saber que Itapipoca em seu território tem sertão, praias e serras o que proporciona a mudança de temperaturas sem sair do município, o que levou a ele ser conhecido como a “cidade dos três climas” e é ai que Valeria vai passar sua infância e juventude, montando cavalo e diretamente envolvida com a vida doméstica e o dia a dia da fazenda de seus pais, onde ajudava na administração da fábrica de processamento de castanhas e na exportação de couro e, segundo seu filho de santo Norval Cruz, nessa época casou-se e dessa união veio ao mundo seus três filhos biológicos, a Inês, a Ana Luzi (falecida) e o Romero Neto.
É a própria mãe Valeria que me fala ter sido criada em lar católico, apostólico e romano, sendo que antes da iniciação nunca teve nenhuma relação com as religiões de matriz africana e que é essa mudança radical e talvez a mais importante de sua vida que, assim eu deixo que ela conte com suas próprias palavras:
[...] deparei-me com o candomblé, pela primeira vez, por meio da literatura de Jorge Amado. Um dia, acompanhei meu marido, que até então advogado, a uma visita de trabalho à casa onde morava minha futura Ialorixá. Ao me ver pela primeira vez, a Mãe de Santo profetizou que eu deveria ser iniciada. Tomei aquilo como um desafio e afirmei que me iniciaria caso uma série de problemas financeiros me fossem resolvidos (muito embora eu não soubesse nem minimamente o que seria a iniciação no candomblé). De fato, vi meus problemas serem surpreendentemente resolvidos, e fui pagar minha promessa me iniciando. Obviamente, por uma questão de Asé, não descreverei o que vivenciei na iniciação propriamente dita. Mas, posso afirmar que passei mais de um ano de resguardo pós iniciação, cumprindo todos os tabus e preceitos após minha obrigação de sete anos, que ocorreu após a morte de Mãe Iraciana, e cujo andamento foi dado por Pai Nilton de Logum Edé, tive meu Asé fundado O Ilé Asé Ómó Tifé. E passei a iniciar pessoas para o orixá. Seria difícil precisar o número de pessoas iniciadas aqui desde os anos de 1980, mas, penso que por volta de 50 pessoas. (Mãe Valeria de Logum Edé)

Aqui, novamente, evidencia-se a marca mais profunda na vida dessa importante mãe de santo para o candomblé do Ceará e do Brasil e o elemento curioso do seu primeiro contato com uma religião marcada pela oralidade, vai ser através da leitura e depois evidencia sua honradez em pagar as promessas, herança que certamente teve da criação familiar e do viés católico. Quem, também, nos descreve com detalhes esta passagem é Norval Cruz, na sua tese de doutoramento:  
A iniciação aconteceu nos anos de 1972 e 1974, em Fortaleza, através da Ialorixá Iraciana de Santana, nascida em uma casa de candomblé, iniciada no primeiro ano de idade. Era de Logum Edé, trazida pela Mãe Ilza de Oxum. Após o falecimento da Mãe Iraciana, Mãe Valeria deu obrigação de sete anos com o Babalorixá Nilton de Logum Edé, da linhagem do Ilê Axé Opo Afonjá, filho de Obagnaju, neto da Natalina de Oxum, também trazido por Mãe Ilza de Oxum. Com a morte do Pai Nilton, a Mãe Valeria fez obrigação de vinte e um anos, em São Paulo - SP com o Babalaô Leo de Logum Edé, neto do Babalorixá, Valdomiro de Xangô, do Gantois, conhecido como o Baiano. Mãe Valeria, após fundar o seu próprio terreiro, em 1976, o Ilé Asè Omo Tifé, Ketu, que está sob sua orientação até hoje, fez vários filhos e filhas de santo. (CRUZ, 2013, p. 77)

Radicalmente vaidosa e cumpridora de suas obrigações tem o maior carinho com seu terreiro, além de fazer o papel de educadora quando se trata das lutas sociais do povo de santo contra a sociedade racista, machista, homofóbica e intolerante religiosa. Ensinou e incentivou a seus filhos a lutar, através de atos de resistência e de “cartas abertas” a toda comunidade e sociedade.
Vamos fazer referência aqui a dois eventos do terreiro que achamos importantes dos muitos que essa casa realiza e lembrando que quando se descreve a vida de uma mãe de santo, além do seu orixá de cabeça, não se pode deixar de falar do lugar de onde essa pessoa fala com a sociedade, sejam eles adeptos ou não do candomblé.

O ato de ler e escrever faz parte da vida dessa Ialorixá. Aqui aparece uma outra característica peculiar de mãe Valeria, as “cartas abertas”, sendo que, toda vez que o assunto é importante e diz respeito às relações políticas e sociais do terreiro ela lança mão deste recurso. Vejamos essa que justifica a caminhada até a Assembleia Legislativa do Ceará, para, em protesto contra intolerância religiosa, lavar suas escadarias.
Das Motivações do Ilê Axé Omó Tifé para ir à Rua
Nós, do Ile Ase Omo Tifé, viemos a público manifestar nosso repúdio aos comentários violentos e racistas que sofremos no último dia 05, após uma publicação no Facebook, na página do jornal O Povo Online. Gostaríamos de dizer, primeiramente, para todos que ali despejaram seu ódio misturado à ignorância, o porquê da nossa necessidade de lavar as escadarias da Assembleia Legislativa do Ceará, conhecida como a "casa do povo". Nossas motivações nascem, justamente, das violências vivenciadas cotidianamente pelo nosso povo nos espaços públicos e privados, nas redes sociais e nas falsas interpretações de quem somos. Este é o motivo principal que leva o Ile Axé Omo Tifé, juntamente com outros movimentos sociais, a estar na rua no dia 7 de julho deste ano.
Tal violência se revela quando somos ridicularizados, qual no caso que aconteceu na referida postagem, quando a nossa fé nos Orixás é motivo de "piadas". Estas são palavras utilizadas todos os dias para legitimar a violência que vem ocorrendo com o nosso povo: nossos corpos e espaços sagrados são constantemente violados, expostos, massacrados e publicizados. Essas são as nossas motivações, ou melhor a nossa necessidade, pois o fato de continuar existindo para o povo de santo tem sido um desafio constante, em uma sociedade onde o conservadorismo e o racismo são práticas tidas como naturais.
As palavras e referências utilizadas na postagem revela o quão presente é ódio contra as religiões de matrizes africanas, no estado do Ceará. Para os que ali proferiram as palavras que escutamos todos os dias - como feiticeiros, bruxos, macumbeiros, filhos do cão -, temos uma coisa a dizer: continuaremos de Pé em luta cotidiana contra o ódio à nossa ancestralidade negra. Estas são provocações violentas típicas que crianças, mulheres, jovens, adultos e idosos, todos do nosso Povo de Santo escutam todos os dias, ao entrar no ônibus, na escola, no trabalho e na família, são essas as palavras e mais algumas que escutamos constantemente. Não podemos deixar de denunciar o quanto isso tem sido sinal de adoecimento e baixa estima para o Povo de Candomblé, pois nossa saúde tem sido afetada diretamente, o nosso direito de existir é professar nossa fé nos Orixás são questionados e colocados a prova diariamente. As palavras ali proferidas fazem parte da linguagem dos agressores, dos que nos olhos e na língua carrega o ódio contra a cultura negra, contra a nossa herança ancestral. Essas violências praticadas contra o nosso Povo é uma anormalidade de uma sociedade extremamente racista.
A lavagem das escadarias da assembleia legislativa é um sinal de rompimento com a falsa ideia de tolerância, de estado laico, pois essas referências estão sendo utilizadas em favor de poucos, provocando, desta forma, um verdadeiro massacre do nosso povo. Estes sim são os nossos motivos, nossas angústias, nossas dores. A incompreensão de uma sociedade que se fecha nas suas predileções raciais, religiosas e estéticas têm sido, sim, sinal de morte para muitos. Essas são algumas das muitas motivações que estão nos mobilizando, que estão movimentando as comunidades tradicionais de terreiro: nossa luta é pelo direito de continuar existindo com o nosso pertencimento ancestral, essa tem sido a nossa luta todo o dia. Vamos sim continuar de PÉ em rodas de resistência, nossos passos vêm de longe, a ternura e a coragem de continuar são marcas do nosso povo. O Ile Axé Omó Tifé continuará firme na sua posição de luta contra as opressões e principalmente contra o ódio as religiões de matriz africana.(ROMERO, https://www.facebook.com/IleOmoTife)

Desta forma, podemos compreender como é a ação de uma filha de Logum Edé, pois se retornarmos ao mito veremos “Logum Edé era filho de Oxóssi e Oxum. Era o príncipe do encanto e da magia.” (PRANDI, 2001, pag.137) e podemos notar que todo este encantamento e magia está diretamente ligado ao simbolismo das águas que vão lavar as escadarias símbolo do rompimento do silencio e caracteriza o protesto do povo preto descriminado em frente à assembleia legislativa.
Também observamos a exigência de mudança, de uma forma peculiar ao modo do pensamento afrodescendente, de maneira magica através de uma luta e resistência “omi Oya” ou águas de Iansã em uma tradução rápida, que se analisarmos mais profundamente prestando atenção no significado da água para o povo de santo, uma vez que não podemos nos atentar somente ao significado iorubano deixando de lado a filosofia desenvolvida nos terreiros, entenderemos  “omi” ou agua como mudança fecunda, transformação e “Oya” a deusa do rio Niger na África, mulher de Xangô que cospe fogo como ele e luta por justiça, observando que Iansã usa espada e que sua luta não é no sentido figurado, é guerra,  o que deixa claro que para o povo de santo não existe justiça sem luta e que a transformação de uma sociedade só vai se dar através desta luta que pode ser sangrenta de fato.  
Um outro artificio usado, que já mencionamos é a escrita, a carta aberta onde com total lucidez a mãe de santo narra os motivos que a levaram a aquela atitude, também de maneira magica podemos ver o uso das mídias sociais, devido ao seu longo alcance de divulgação. 
Nessa época mãe Valeria, além de toda esta mobilização, foi entrevistada pelo jornal O Dia.
Mãe Valéria de Logun Edé, de 73 anos, dirige há 40 anos a casa que é uma das mais antigas da Cidade e diz que problemas com a vizinhança são novidades. Só recentemente começaram as visitas de agentes da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma). Denúncias de violação da lei do silêncio e de sacrifício de animais são as justificativas mais comuns para as fiscalizações. “Aqui era tudo maravilhoso, mas quando venderam o terreno pra construir aí”, ela aponta para o condomínio erguido vizinho ao seu terreiro, “as coisas mudaram”.
“Perguntaram se a gente bebia sangue, se comia carne crua”, diz, se referindo a algumas das perguntas que ouviu de agentes da Seuma. “Aí eu perguntei: ora, e você não come galinha à cabidela? Não come carpaccio? Que tem de crime nisso?”, completa, sobre como tratou a abordagem dos fiscais. A confusão foi ainda maior porque a visita teria ocorrido antes das 22 horas e, para acabar com o barulho, quiseram levar os atabaques, instrumentos sagrados do culto. (SOARES, https://www20.opovo.com.br/app/opovo/dom/2015/07/25/noticiasjornaldom,3474735/religiao-discriminacao-como-rotina.shtml)
Fig. 2 https://www.facebook.com/IleOmoTife

Buscando a conscientização e organização do povo preto e de terreiro na luta contra a intolerância e justiça  o terreiro de mãe Valeria mobiliza a todos os filhos e simpatizantes para o II Ijexá da Democracia que ocorrerá no dia 26 de agosto de 2016, como ijexá um ritmo, um toque de atabaques principalmente executado para Oxum, hoje já incorporado à musicalidade popular brasileira, que chegou até nós, devido ao grande número de escravos africanos de Ilesa, cidade nigeriana para a Bahia. Podemos ver que aqui temos um encontro de características acadêmicas em busca da democracia, em um ritmo peculiar da mãe de Logum Edé, Oxum, a deusa da beleza do encantamento, que dança com estrema leveza e formosura deslizando pelo salão ao som dos atabaques e é aqui vem a sutileza da chamada, ao tocar os atabaques no terreiro os filhos de santo convocam os orixás para essa reunião, pois é o som dos atabaques o transporte dos ancestrais.
Ao ver estas chamadas para encontros e caminhadas perguntei a mãe Valeria como era a relação do terreiro e a academia e como ela via a intolerância religiosa, e ela respondeu:
A intolerância religiosa, no que pese nossa religião, precisa ter sua nomenclatura repensada, pois, dadas as origens afro diaspóricas de nossa religião, penso que o fenômeno desta violência está mais para racismo religioso que se expressa no plano do ódio.
O Terreiro do Omo Tifé mantém uma relação bastante salutar com a academia, uma vez que vários de meus filhos e de minhas filhas são intelectuais orgânicos, iniciados e iniciadas e ocupam estes espaços de modo bastante reflexivo e conscientes de seu papel ético como pesquisadores e iniciadas e iniciados na religião do orixá. (Mãe Valeria de Logum Edé)

Mãe Valeria havia transformado seu terreiro não só no templo religioso no sentido teológico, mais em um lugar de ações de resistência estreitamente ligado a toda sociedade e suas lutas históricas pela inclusão das diferenças, com um vínculo de maneira estreita com a academia, no caso em questão a Universidade Federal do Ceará. Veja o que seu filho Norval pensa sobre seu comportamento e postura à frente do terreiro:
O pensamento da YALORIXÁ a respeito dos filhos em relação ao comportamento na religião e na sociedade: “Honestidade consiste principalmente em expressar um pensamento exatamente como ele é percebido sem hipocrisia ou qualquer motivo vulgar para prejudicar os outros, onde naturalmente só um fraco não tem coragem nem moral para expressar o que honestamente sente. Essa disparidade entre palavras e pensamentos, cria no Ori (cabeça) um enfraquecimento e dificuldade em resolver problemas nossos e dos outros. Isso empobrece a capacidade mental do indivíduo e o dinamismo da determinação. Um caráter duvidoso (fraco) tem dificuldade no progresso da peregrinação da vida. De fato, a verdade no seu sentido essencial é a expressão dos sentidos honestos, mas a verdade no seu sentido profundo com harmonia dos pensamentos é a convicção da honestidade. Portanto, temos que estar prontos para disciplinar e comandar nossa força mental, podendo assim ser respeitados, para poder ser aceito a nossa autoridade”. Outra reflexão da YALORIXÁ: “Um eco em mãos dignas vale mais do que um quadrúpede em mãos adversas”. São trinta e cinco anos de batalhas, sob o comando da nossa Mãe Valéria de Logun Ede, para manter o Terreiro Ilé Axé Omo Tifé. Convivendo diuturnamente com a intolerância religiosa, com as finanças para fazer as obrigações que a Casa exige. Grande articulista junto à sociedade cearense e possuidora de uma argumentação forte e sutil, usando sua oralidade para convencer e conseguir materializar os seus desejos. (CRUZ, 2013, p. 77)
Fig. 3 Ialorixá Valéria ty Logum Edé (acervo pessoal da Ialorixá)

Por fim perguntei a mãe Valeria qual a sua mensagem para todos neste momento de pandemia? E ela apresentou a carta aberta que já havia escrito sobre o assunto.
Carta aberta pela manutenção da vida dentro e fora do terreiro
Venho, por meio desta carta, explicitar meus posicionamentos sobre o necessário isolamento social no período da pandemia do vírus COVID-19, enquanto Ialorixá regente de um Terreiro de Candomblé de Matriz Ketu no estado do Ceará - o Ilé Asé Ómó Tifé.
Um terreiro de candomblé em nenhum aspecto pode ser confundido com uma iniciativa privada que visa, por meio do mercado de bens e serviços religiosos, o enriquecimento daquelas e daqueles que o regem. Muito antes, um terreiro, geralmente, tem por seu principal objetivo atender a comunidade que o compõe, transmitindo saberes e práticas ancestrais, advindas do continente africano, e trazidos ao Brasil no movimento histórico da diáspora forçada.
Assim, frente a enorme calamidade que nos acomete em nosso tempo - uma doença pouco conhecida, mas de comportamento bastante volátil - é missão das Ialorixás e Babalorixás guardarem-se em suas casas, suspendendo suas atividades que possam aglomerar adeptos e adeptas, colaborando assim com a rápida proliferação da doença.
Uma Mãe-de-Santo é alguém que tem como principal atividade e caráter identificatório básico o primeiro nome que compõe o termo composto de sua prática: ser Mãe. Deste modo, sou mãe de meus filhos e de minhas filhas e os interpelo a ficarem em seus lares, uma vez que nossa fé começa em nossos corações. E reitero: a prática religiosa deve sempre privilegiar a vida e sua manutenção, em detrimento do lucro acumulado ou dos projetos expansionistas que angariam fiéis sem refletir nos impactos desta prática em tempos onde o mundo tal qual conhecemos se encontra em estado momentâneo de medo.
Termino esta carta-posicionamento-pela-vida-de-todas-e-todos rogando a todos os Orixás, para que estas forças antigas da natureza nos deem força e entendimento para verdadeiramente compreender aquilo que vivenciamos hoje, e que cada lar seja poupado desta doença, na esperança de que logo retomemos o fluxo de nossas atividades, mas não identicamente a antes desta pandemia: retomemos mais irmanados enquanto comunidade imbuída do desejo de manter a vida. Com amor por cada ser desta terra. (Mãe Valeria de Logum Edé)

Essa é Valeria Pessoa Romero que se transformou em Ialorixá Valéria ty Logum Edé, de uma mulher branca classe média alta, empresaria, surgiu a zeladora de orixás e defensora dos direitos dos afrodescendentes, sempre contra a intolerância religiosa que a mesma chama de “racismo religioso”, sempre contra a homofobia uma vez que seu orixá tem as duas partes em um só (metade Oxum, metade Oxóssi) e defensora dos direitos da mulher, uma mulher à frente do seu tempo.
Carrega consigo as características de Logum Edé parte da vida uma coisa e logo a seguir transforma-se em outra, em um constante, eterno e incessante devir, no respeito inalterável as diferenças, uma vez que as diferenças são coisas que carrega no interior do seu ser, sempre buscando melhorar a si e aos outros e desta maneira estendendo o devir a tudo e a todos como condição de viver.

 AUTOR
*Prof. associado II, da UFRB/CFP, prof. do mestrado profissional em História da África UFRB. Ph.D. em educação UFC/FACED/2019, Ph.D. em Educação UFPB/FACED/2012, doutorado UFC/FACED/2008, mestrado UFBA/FACED/2004, especialização UFBA/FACED/2001. Bel em Filosofia UCSAL/1999. emares@ufrb.edu.br  http://lattes.cnpq.br/3011122221

Referências
CRUZ, Norval Batista, Corpo, ancestralidade, oralidade e educação no Ilê Asè Omo Tifé: o corpo de Xangô. Fortaleza: tese de doutorado UFC/FACED, 2007.
ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. Tradução: Paola Civelli,4ª ed., São Paulo: Editora Perspectiva,1994.
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
ROMERO, Valeria Pessoa. Das Motivações do Ilê Axé Omó Tifé para ir à Rua, disponível em https://www.facebook.com/IleOmoTife  acessado em 31 de maio de 2020 às 06:30 horas
SOARES, Edmar. Religião. Discriminação como rotina, disponível em https://www20.opovo.com.br/app/opovo/dom/2015/07/25/noticiasjornaldom,3474735/religiao-discriminacao-como-rotina.shtml acessado 13 junho de 2020 às 06:40 horas.


[1] Filosofo pré-socrático que nasceu em Éfeso na Jônia, Ásia menor, local onde hoje é Turquia e havia viajado toda costa da África.

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