Desejo, apetite e humores em Maquiavel

 Revista Sísifo. N° 13, Janeiro/Junho 2021. ISSN 2359-3121. www.revistasisifo.com

 

Luiz Carlos Montans Braga

Professor de filosofia do DCHF da UEFS.



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Desconfio de todos os sistematizadores e os evito. A vontade de sistema é uma falta de retidão.” (Nietzsche, 2006, Aforismo 26, p. 13)



Resumo: O artigo pretende tratar do tema dos humores em Maquiavel, alinhavando-o aos conceitos de desejo e apetites. Intenta, igualmente, trabalhar a hipótese de que é passional e dinâmico o fundamento da divisão civil entre grandes e povo na cidade. Quanto aos humores, há simples apropriação especular da tradição médica antiga ou o florentino a reconceitualiza à sua maneira? Nas diferenças entre os humores do povo e dos grandes, existe apenas negatividade no humor do povo ou se lhe pode atribuir positividade? O artigo, além de tratar das questões acima, pretende mostrar que tais conceitos - desejo, apetite, humores - possuem alguma variância semântica e são substituídos uns pelos outros no correr da obra, e até mesmo nos mesmos livros e capítulos de algumas delas. O mesmo ocorre com os termos grandes/povo e correlatos. Em outra chave, trata-se de mostrar que, mesmo com tal variância semântica, tais conceitos são fundamentais para a compreensão da filosofia política do autor, além de darem fundamentação e clareza às interpretações acerca da divisão civil na cidade. Uma hipótese que se analisa acerca deste último ponto é a de que apenas se compreende bem a tese da divisão civil sob a luz de seu fundamento eminentemente dinâmico e passional. O giro interpretativo, portanto, passa pelo reconhecimento da divisão civil não como constatação sociológica de esferas estáticas contrapostas, mas como resultante da dinâmica afetiva.

Palavras-chave: desejo, humores, apetites, divisão civil, cidade.



Abstract: The article intends to deal with the theme of humours in Machiavelli, aligning it with the concepts of desire and appetites. It also intends to work on the hypothesis that the foundation of the civil division between large and people in the city is passional and dynamic. As for humours, is there a simple specular appropriation of the ancient medical tradition or does the florentine reconceptualize this tradition in his own way? In the differences between the humours of the people and the great ones, is there only negativity in the humour of the people? Or, is there any positivity in the humour of the people? The article, in addition, intends to show that such concepts - desire, appetite, humours - have some semantic variance and are replaced by each other in the course of the work, and even in the same books and chapters of some of them. The same is true with the terms large / people and related. In another key, it is about showing that, even with such semantic variance, such concepts are fundamental for the understanding of the author's political philosophy, in addition to providing a basis and clarity to the interpretations about the civil division in the city. One hypothesis that is analyzed about this last point is that the thesis of civil division is only well understood in the light of its eminently dynamic and passional foundation. The interpretive turn, therefore, passes through the recognition of civil division not as a sociological observation of opposing static spheres, but as a result of affective dynamics.

Keywords: desire, humours, appetites, civil division, city.



O enigma Maquiavel

Maquiavel é autor de obra vasta e labiríntica, não obstante sua escrita se apresentar na mais sofisticada e exemplar prosa renascentista. A fortuna crítica, densa, que atravessou os séculos produziu espanto, correntes divergentes e névoas hermenêuticas1. Daí que comentadores tenham se referido ao autor e à obra como o enigma Maquiavel (BIGNOTTO, 2003, p. 114)2. Isaiah Berlin afirma, sobre o tema, que “há algo de surpreendente sobre o número de interpretações das opiniões políticas de Maquiavel. Existem, mesmo agora [1953]3, mais de vinte teorias principais de como interpretar O príncipe e os Discursos - à parte a enorme quantidade de visões e explicações subsidiárias” (BERLIN, 2002, p. 299).

Sobre o tema do desejo e dos humores a questão é igualmente intranquila. As águas são turvas. Indicarei, neste momento, antes de passar às fontes primárias e adotar uma interpretação, duas ou três teses acerca do tema dos desejos e humores no autor. Tudo isso para mostrar que Maquiavel, mesmo em recorte temático menos frequentado pelos comentadores, continua a fazer jus ao epíteto enigma.

Um ponto é consensual, ainda que pouco estudado, comparativamente aos demais temas maquiavelianos4. O autor usa, a todo momento, os afetos, as paixões, para tratar dos temas próprios à política. Qualifica os homens como portadores de apetites insaciáveis ao afirmar: “Além disso, visto que os apetites humanos são insaciáveis, porque, tendo os homens sido dotados pela natureza do poder e da vontade de desejar todas as coisas e pela fortuna de poder conseguir poucas, o resultado é o contínuo descontentamento nas mentes humanas e o fastio das coisas possuídas” [...] (D II Proêmio, p. 180)5. Apresenta-os como invejosos (D I, Proêmio, p. 05; D II Proêmio, p. 177), vingativos (D I 16, p. 67), gananciosos, ambiciosos (D I 2, p. 16). Afirma em algumas passagens que o governante deve ter ao seu lado o povo, pois aquele que gera o ódio do povo perde estabilidade, e pode, por consequência, perder o poder (D I 5, pp. 23-26; D I 16, p. 66; P IX, p. 107). Propõe a questão seguinte ao príncipe: se deve ser mais amado que temido, ou ao contrário (P XVII, pp. 161-167). Descreve os homens com suas “intrínsecas inimizades” e procura compreender e expor os motivos dos ódios e divisões das cidades (HF Proêmio, p. 31). Ou seja, a questão das paixões está espraiada pela obra política do florentino, a constituir fundamento, em muitos dos casos, de suas análises e conclusões acerca da política.

Neste quadro amplo, ao menos duas grandes correntes interpretativas sobre a questão dos humores podem ser desenhadas. Como primeira corrente, a dos comentadores que afirmam existir, de um lado, o humor dos grandes, positivo, que é o desejo de bens e de poder, bem como de mando. E, de outro, o humor do povo, que seria apenas o desejo de não ser oprimido - desejo de leis (que sejam obstáculo ao humor dos grandes) e de liberdade. O humor do povo seria negativo na medida em que não teria objeto próprio, isto é, seria meramente um desejo de não ser oprimido. A tese da divisão civil e da dinâmica entre os dois humores, interdependentes, duas faces em equilíbrio de um mesmo todo, a produzir a estabilidade, sempre precária, da própria cidade, tem Claude Lefort como um dos principais elaboradores (LEFORT, 1972; 1978; 1999)6. Há, entretanto, corrente diversa, que defende a tese de que o humor do povo não é puramente negativo, isto é, não se fixa apenas no desejo de não ser oprimido, não é um desejo sem objeto, e, portanto, deveria ser qualificado igualmente como positivo, ao menos em certo sentido (ADVERSE, 2007, p. 33)7. Avança argumentos neste sentido Sérgio Cardoso, levando águas para o moinho da possibilidade da positividade do humor do povo. Escreve:

Se Maquiavel rompe com a velha tradição da atribuição de um caráter passivo, passional e anárquico, ao humor popu­lar, identificando nele um princípio de ação e o fundamento da ordem política, talvez seja, portanto, possível avançar mais nesta direção, reconhecendo a pulsão negativa não só como uma potên­cia (crítica) de esvaziamento contínuo do lugar do poder (exerci­da através de seu antagonismo permanente, constitutivo, em rela­ção aos grandes), mas também como o princípio imediato (sem a mediação da inteligência de um sábio – seja ele coletivo – ou da prudência dos excelentes ou competentes) da produção das leis, dos universais histórico-políticos. (CARDOSO, 2015, p. 245) 8.

Na mesma chave se situa Marie Gaille-Nikodimov, ao escrever:

De sua parte, o desejo do povo parece, em uma primeira abordagem, uma reação em face do desejo dos grandes: o povo não quer ser nem comandado, nem oprimido, nem dominado. Entretanto, esta descrição é incompleta. Com efeito, Maquiavel talvez dê um conteúdo positivo ao desejo do povo. Ele não aparece então como uma reação a um outro desejo, mas como um meio de realizar um desejo mais fundamental: viver em segurança (GAILLE-NIKODIMOV, 2017, p. 23)9.

Volto a Lefort para pontuar a suma da sua tese: "O que importa ao nosso autor não é então a natureza humana, tomada em si mesma, é a divisão de um desejo que se forma apenas na sociedade ou, mais justamente, no estado político (lá onde há a Cidade): oprimir, não ser oprimido." (LEFORT, 1978, p. 222). Essa citação resume a posição do comentador. Em campo oposto, como acima indicado, Helton Adverse defende a tese da possibilidade da positividade do desejo do povo, argumento, segundo o comentador, plenamente sustentável pelos textos do florentino (ADVERSE, 2007, p. 49), no que é acompanhado por Gaille-Nikodimov (2017) e Sérgio Cardoso, ao menos, para este, quanto ao seguinte ponto: a pulsão do povo poderia ser compreendida como princípio imediato da produção de leis, por ele chamadas de universais histórico-políticos (CARDOSO, 2015, p. 245).

Em posição próxima à de Claude Lefort quanto a este tema, ao explicitar a importância da divisão para a liberdade política, está Antonio Valverde, cuja argumentação pode ser resumida no excerto seguinte:

Se a política para Maquiavel é entendida como guerra por alguns comentadores, [...] para outros como técnica, [...] para que a reflexão institucional coerente se dê ao caso, com sua consequente ruptura com o passado medieval e humanista cívico florentino, é necessário [...] colocar o problema da violência na nova república. E esta força é pensada no universo do governo misto, este tomado não como uma síntese, como queriam os antigos, Platão sobretudo, [...] mas como lugar de tensão entre pobres e ricos. Para Maquiavel, [...] a tensão exemplar é a que se dá entre o povo e o Senado romanos. [...] Afinal, Maquiavel parece sugerir que os homens só se juntam no não. E ao captar o universal negativo, identifica a população das cidades livres, as repúblicas e, em alguns casos também das monarquias, como sendo exatamente esta negação. Uma das novidades de Maquiavel é constatar que esta negação está em movimento todo o tempo e em todas as cidades. (VALVERDE, 1999, p. 05)

É preciso salientar que o final do excerto citado aponta uma nuance talvez não presente na tese lefortiana. Trata-se de argumento que movimenta a tese de Valverde em parte ao campo oposto, no momento em que afirma, sobre a junção dos homens no não, que “esta negação está em movimento todo o tempo e em todas as cidades.” (VALVERDE, 1999, p. 05)

Cito uma última passagem de Marie Gaille-Nikodimov, que lança argumentos a favor da hipótese que em parte compõe as inquietações que fundamentam o presente artigo. A comentadora trata da questão da divisão da cidade dando especial atenção ao tema dos afetos, o que aumenta a complexidade da questão, enriquecendo-a. Afirma:

Pode-se, em primeira análise, julgar simplista a oposição entre um desejo de comandar e um desejo de não ser comandado. Não nos esqueçamos, entretanto, que através dela, Maquiavel intenta identificar o motor de uma dinâmica e não descrever, à maneira de um sociólogo, os atributos de tal ou qual classe social. Por outra, em comparação com uma abordagem em termos estritamente socioeconômicos, ela [a oposição] tem justamente uma riqueza própria que é a de dar todo seu lugar à análise da matéria de qualquer política: as paixões e sentimentos coletivos - ódio, medo, ambição, inveja, raiva, descontentamento. (GAILLE-NIKODIMOV, 2017, p. 06) 10

Por outros termos, Nikodimov lança luz na questão dos afetos como sendo o fundamento mais profundo da divisão presente na cidade. É como se Maquiavel levantasse a questão da divisão para tratar de algo que a fundamenta, que lhe dá vida e dinâmica, a saber, as paixões e sentimentos coletivos. Não que os demais estudiosos não tenham atentado ao tema. O que deve ser salientado na pesquisa da comentadora é o fato de lançar luz no fundamento da divisão, isto é, as paixões. Por conseguinte, a divisão não seria simplista precisamente pela razão de que ela aponta para o fundamento afetivo, passional, do político, sua matéria-prima.

Dado este quadro e voltando ao início desta seção, pode-se concluir que é preciso levar a sério o enigma Maquiavel caso se queira avançar interpretações e teses sobre o florentino. Se é certo que Maquiavel proporcionou, até 1972, segundo Berlin (2002, p. 299), uma miríade de teorias principais sobre como interpretar O Príncipe e os Discorsi, o cenário apenas se tornou mais complexo e repleto de nuances. As teorias principais sobre Maquiavel tratam bem mais - em número de comentários e ensaios - da revolução por ele proposta na ética da política, e demais temas correlatos, e menos da importância dos afetos para as construções teóricas da filosofia política. Esta, ao menos, é a posição de Marie Gaille-Nikodimov (2017, pp. 33-34, nota 112), a justificar o resgate do enigma para as paragens mais estreitas que coincidem, em parte, com o tema deste artigo.

Sendo este o quadro de algumas teses acerca dos humores e da divisão do desejo, encaminho a argumentação para as fontes primárias, objetivando extrair as definições e usos dos conceitos pelo autor. Procurarei responder, ou ensaiar responder, as questões a seguir formuladas. Por que o uso do termo humores? Em que sentido Maquiavel faz uso do termo médico ou, mais precisamente, que espécie de uso faz deste termo? Trata-se de apropriação precisa do conceito ou o florentino o reformula? Por que há a divisão entre os humores dos grandes e o do povo? Faz sentido a tese da mera negatividade do desejo do povo versus a positividade do desejo dos grandes? Maquiavel de fato exclui qualquer positividade ao desejo do povo? Desejo é sinônimo de humores? Maquiavel usa indistintamente os termos humores, apetites, desejos?



O uso maquiaveliano dos termos

As metáforas da medicina são usadas por Maquiavel em várias passagens de sua obra. N`O Príncipe, por exemplo, escreve: “E ocorre aqui, aquilo que diz o físico [médico físico11] do tísico, que no princípio de sua doença é fácil curar e difícil reconhecer, mas com o passar do tempo, não sendo reconhecida no princípio nem medicada a tempo, torna-se fácil reconhecê-la e difícil curá-la. Assim ocorre nas coisas do Estado [stato]: [...]” (P III, p. 45). Em muitos outros momentos metáforas médicas são trazidas à argumentação (D III 1, p. 306; D III 49, pp. 454-456, entre outros).

Não é casual, portanto, que Maquiavel faça uso do termo umori (humores), que vem da medicina grega, a qual chega e opera em seu tempo. Assinalo, apenas, antes de analisar o sentido textual do termo - bem como sua relação de sinonímia, ou não, com desejo e apetite -, a maneira como Maquiavel se apropria do termo da medicina de seu tempo para dele fazer uso próprio.

Cabe ressaltar que há, na vastíssima literatura sobre Maquiavel, comparativamente, pouca análise acerca da questão, tanto na chave de um aprofundamento do conceito na medicina que chega ao florentino, como na chave da procura do sentido do conceito em seus textos. Nikodimov afirma que poucos autores citaram o tema, e se o fizeram, não o aprofundaram nem mesmo a partir dos textos do florentino. É o caso, segundo a autora, de Pocock, que não toca no assunto, ou Skinner, que o toma como axioma12.

Não realizarei, neste ensaio, uma prospecção do tema na história e como ele chega ao período do autor. Gaille-Nikodimov o faz com brilhantismo (2017)13, e a conclusão a que a autora chega é o que basta para o tema. Gerbier (1999), igualmente, se aprofunda na questão. Não que o tema não seja relevante. Ele o é, e vigorosamente. Por ter sido pouco estudado, especialmente neste recorte da prospecção histórica, é tema a ser investigado. Afirmo, entretanto, que interessa mais aos objetivos da presente investigação a conclusão da autora uma vez que o recorte proposto neste artigo propõe avaliar antes o uso do termo pelo florentino e sua relação com os demais termos (apetite, desejo, divisão) no texto da obra do que fazer uma prospecção histórica do conceito. Prospecção esta que seria tema à parte, dada a profundidade das investigações demandadas, a qual foi bem realizada tanto por Nikodimov (2017) quanto por Gerbier (1999).

A pesquisa de Gaille-Nikodimov, prospectiva (quanto à história do conceito que chega ao florentino) e textual (quanto ao uso na obra de Maquiavel), chega às seguintes conclusões, que assinalo a seguir nas palavras da autora: “Também nos parece essencial, depois desta pesquisa, reconhecer a extrema liberdade que caracteriza o uso maquiaveliano das fontes médicas.” (GAILLE-NIKODIMOV, 2017, pp. 13-14). No mesmo sentido: “Um processo duplo está aqui em ação: o pensamento institucional de Maquiavel se apoia sobre o modelo médico, o qual ele ajusta de acordo com suas necessidades.” (GAILLE-NIKODIMOV, 2017, pp. 13-14).

De fato, a conclusão de Nikodimov, após o estudo do corpus Hipocrático e das demais teses médicas que usavam o conceito de humores e que circulavam no tempo de Maquiavel (corpus Hipocrático, Galeno, Alcmeão de Crotona etc.), é a de que as teorias médicas eram, por um lado, mais complexas que o uso que o florentino fazia do conceito. E, por outro, o uso maquiaveliano está mais próximo da metáfora ou da apropriação (e reconceitualização à sua maneira) que da fidelidade às correntes médicas então circulantes (GAILLE-NIKODIMOV, 2017, p. 36). Com efeito, o uso maquiaveliano indica apenas dois humores (dos grandes e do povo), os quais são desequilibrados entre si, uma vez que o dos grandes é de mando, ao passo que o do povo é o de não ser oprimido - questão controversa, que tem suas nuances, como já analisei no item acima, ao tratar das linhas de força interpretativas sobre a positividade ou mera negatividade do desejo do povo. Isto é, o desejo do povo não teria objeto específico, pois se constituiria em mera resistência em face do desejo de mando dos grandes. Analisarei, ainda, esta questão nas fontes primárias, a seguir. Volto ao ponto. As teorias médicas da época, em suma, apontavam para o equilíbrio entre quatro humores, cada um referente a um par de opostos, a saber, sanguíneo (quente e úmido), colérico ou bile amarela (quente e seco), melancólico ou bile negra (seco e frio) e fleumático (frio e úmido). A doença seria decorrente ou do excesso ou da falta de um dos humores, com vistas a um equilíbrio do corpo (REZENDE, 2009, pp. 49-53). E caberia à medicina levar o corpo ao equilíbrio original, utilizando técnicas que, na verdade, levavam a natureza a reequilibrar os humores. Em Maquiavel - para indicar a distância entre o conceito médico e a apropriação feita -, o humor dos grandes é muito mais nocivo que o do povo, como mostrarei. Ou seja, a conclusão de Gaille-Nikodimov é precisa: Maquiavel faz uso bastante livre dos conceitos da medicina de sua época, adotando-os e reconceitualizando-os. Isso implica dizer que a pesquisa do sentido que o autor dá aos termos, para os fins deste ensaio, é a tarefa a ser realizada, ou seja, adotar, pela via dos textos de Maquiavel, o sentido que o autor dá aos termos da medicina de sua época e como utiliza os conceitos retrabalhados na economia dos seus próprios textos.



Os conceitos nos textos de Maquiavel

Em O Príncipe (P IX, pp. 103- 111), Maquiavel faz uso dos termos humores, desejo e apetites para tratar do que fora apenas apontado no capítulo VIII, apontamento cujo desenvolvimento se dá no capítulo IX.

De fato, no capítulo VIII de O Príncipe (p. 93), dissera que trataria do tema seguinte: um homem privado que, com o favor de outros cidadãos, torna-se príncipe da sua pátria. E o faz no capítulo IX, ao dizer: “Mas, voltando à outra parte, quando um cidadão particular, não por meio de crimes [...], mas com o favor dos outros cidadãos torna-se príncipe da sua pátria - o qual se pode chamar principado civil: [...].” (P IX, p. 103). Logo a seguir escreve que para que isso ocorra é necessário que haja uma “astúcia afortunada”, e esta ascensão se dá ou com o favor do povo ou com o favor dos grandes.

Esse é o pano de fundo conceitual em que o tema dos humores é introduzido no opúsculo. Na sequência, vem a famosa passagem:

Porque em toda cidade se encontram estes dois humores diversos [dua umori diversi]: e nasce, disto, que o povo deseja não ser nem comandado nem oprimido pelos grandes e os grandes desejam comandar e oprimir o povo; e desses dois apetites [dua appetiti] diversos nasce na cidade um desses três efeitos: ou o principado, ou a liberdade, ou a licença. (P IX, p. 103).

O que é o quê? Maquiavel utiliza o termo humores [umori], bem como desejo e, logo após, apetite. A tradução acima utilizada, bem como a de Diogo Pires Aurélio14, trata do original com o cuidado necessário. Com efeito, Maquiavel afirma, num primeiro movimento, que em todas as cidades se encontram esses dois humores diversos. Após, escreve que nasce disto o desejo do povo [populo] de não ser comandado e oprimido, e o desejo dos grandes [grandi] de comandar e oprimir o povo. Para concluir, trata do efeito desses dois apetites diversos. Portanto, aqui os termos desejo e apetite estão em sinonímia. Ademais, ao que indica o texto, ambos decorrem dos humores. Pois bem, o efeito desses dois apetites diversos é um entre três possíveis, a saber, o principado, a liberdade (que parece apontar para o conceito de república, cujo exemplo paradigmático é Roma) e a licença (que indica um estado de desagregação, como parece ser o caso de Florença em momentos de sua história (HF)).

Por este momento do texto de Maquiavel, há de fato uma divisão entre dois humores diversos, dos quais derivam desejos-apetites também diversos. Há, pois, uma divisão de cuja dinâmica três efeitos são possíveis, a depender da combinação de fatores que ocorra, das conjunturas de cada cidade. Entretanto, um ponto é certo: em toda cidade existem dois humores - ao menos dois, pois ele não diz que há apenas dois -, e deles decorrem dois apetites ou desejos diversos. Isso é o que afirma este momento do texto, esta a tese geral.

Maquiavel trabalha com categorias algo fluidas, dentro das quais cabem várias espécies de sentidos, de termos, ao falar em grandes e povo, como ficará claro no momento em que outras passagens forem trabalhadas.

É interessante atentar, de outro lado, para a precisão temática de Maquiavel. Trata em O Príncipe apenas de um dos efeitos da divisão dos apetites entre grandes e povo, a saber, o principado, sendo o tema da república e, em parte, o da licença, algo a ser analisado nos Discorsi e na História de Florença. De fato, após explicitar a tese geral e seus efeitos, somente os principados são objeto do referido capítulo. Outro ponto que deve chamar a atenção do leitor, e que depõe em face das teses de um Maquiavel que escreve para os poucos, é a defesa, já neste capítulo, e que será ainda mais explícita nos Discorsi, do povo. De fato, Maquiavel escreve que “não venha ninguém retorquir a esta minha opinião [de que o príncipe deve ter o povo ao seu lado, sob pena de flertar com o fracasso] com aquele provérbio já gasto: “quem funda sobre povo funda sobre lodo”” (P IX, p. 151 da tradução de Aurélio)15. Na sequência, defenderá a tese de que o governo fundado no povo tem boas fundações (P IX, p. 109).

Há outro momento do opúsculo que trata do tema dos humores. Nele, pode-se constatar a elasticidade semântica do conceito. Na primeira passagem, Maquiavel sublinhou a divisão de toda cidade em dois humores, dos quais decorrem dois desejos ou apetites diversos. Pois no capítulo XIX de O Príncipe, o autor trata da divisão entre dois humores, mas não dos grandes e do povo, e sim dos soldados e do povo. Pouco antes de introduzir este sentido ao termo, Maquiavel analisa como em Roma, já no período do império, aos príncipes cabia, além da dificuldade de equilibrar os dois humores (grandes e povo), a de trazer ao cálculo político os humores dos soldados. Afirma o florentino que “é notável, primeiramente, que enquanto nos outros principados se deve combater apenas a ambição dos grandes e a insolência do povo, os imperadores romanos tinham uma terceira dificuldade: ter de suportar a crueldade e avareza dos soldados.” (P XIX, p. 185). A passagem diz precisamente, na sequência: “E muitos deles [imperadores], mais ainda aqueles que como homens novos chegavam ao principado, quando percebiam a dificuldade destas duas diversidades de humores [dua diversi umori], se ocupavam em satisfazer os soldados, pouco se preocupando em injuriar [no sentido de atacar os direitos] o povo.” (P XIX, p. 185).

Noves fora o terceiro sentido do termo, é fato que todo o capítulo XIX do opúsculo explicita, a todo momento, a necessidade do equilíbrio de forças entre instâncias diversas, sejam os grandes, seja o povo, sejam os soldados. E, ainda mais, transparece no capítulo, além do equilíbrio de forças em dinâmica, a ser administrado e levado em conta pelo governante, o uso, quase linha a linha, de um vocabulário de fundo que é todo ele afetivo - ódio, ambição, crueldade, avareza, amor. Outra tese de fundo que se apresenta no capítulo, em linha com o capítulo IX, antes analisado em parte, é a de que o povo, o humor do povo, sempre deve ser levado em conta pelo governante que busca a estabilidade política. Ações que levam o povo ao afeto ódio em face do príncipe (do governante) são sempre nefastas à manutenção do poder e da estabilidade do estado. Esta mesma tese está presente nos Discorsi (D I 5, p. 24; D I 16, p. 66).

Pode-se concluir, da análise dessas duas passagens de O Príncipe, que há um deslizar semântico do conceito de humores. A divisão pode não ser apenas entre dois polos, mas entre três, ao menos nesta obra. Porém, a divisão principal parece ser mesmo aquela entre grandes e povo, o que fica claro pelo modo como Maquiavel introduz o humor dos soldados na argumentação. De fato, ele é um humor que se soma aos dois principais e que deve ser levado em conta - teve que ser levado em conta - pelos imperadores romanos citados no capítulo XIX da obra. O que não muda na argumentação do florentino é o fato de que os afetos fundamentam as ações das instâncias - soldados, grandes, povo -, bem como não muda a tese de que o afeto do povo deve sempre ser levado em conta. Ou seja, ao príncipe é imperativo não ser odiado pelo povo. Mesma conclusão de P XVII, ao final (p. 167). O príncipe deve ser temido, antes que amado, mas não deve ser odiado. O campo afetivo está presente linha a linha, implícita ou explicitamente, n’O Príncipe, bem como o campo de forças entre instâncias diversas, as quais são construções históricas, como outras passagens da obra podem atestar.

O que dizer do tema dos humores nos Discorsi? Há a mesma polissemia presente em O Príncipe? Analiso este ponto a seguir.

Tomo inicialmente algumas teses dos Discorsi (D I 4, p. 21 e seguintes). O movimento inicial é de elogio aos tumultos de Roma, causa da liberdade política que lá houve. Quais instâncias eram a causa dos tumultos? Os nobres [nobili] e a plebe [plebe]. E imediatamente na sequência do texto, após o elogio dos bons efeitos de tais tumultos, vem a mesma tese presente em O Príncipe, a dos dois humores. Aos que condenavam “as assuadas e a grita”, o florentino asseverava que estes “não consideravam que em toda república há dois humores diferentes [due umori diversi], o do povo [popolo], e o dos grandes [grandi], e que todas as leis que se fazem a favor da liberdade nascem da desunião deles, como facilmente se pode ver que ocorreu em Roma; [...].” (D I 4, p. 22).

Ora, o texto deixa transparecer que os nobres são espécie do gênero grandes, ao passo que a plebe é espécie do gênero povo. Os frutos bons do tumulto entre as duas instâncias, afirma Maquiavel, foram as boas leis e ordenações benéficas à liberdade pública (D I 4, p. 22). Tais tumultos, nesta configuração dos humores das duas instâncias redundaram em pouquíssimo sangue e em poucos exílios. Mais uma vez, na sequência do texto, há um elogio ao povo e ao fato de que as instituições romanas, à sua maneira, permitiam que o povo desafogasse sua ambição. Ao fim, ocorre o elogio à criação dos tribunos, instituição levada à existência, segundo o autor, precisamente pelos tumultos (D I 4, p. 23). Pontua Maquiavel no texto que “os desejos dos povos livres raras vezes são perniciosos à liberdade, visto que nascem ou de serem oprimidos ou da suspeita de que virão a sê-lo.” (D I 4, p. 23). O que extrair destes excertos que difere da tese de O Príncipe?

Em primeiro lugar, é de chamar a atenção o fato de que no opúsculo indica-se que em toda cidade há dos dois humores, ao passo que nos Discorsi o termo usado é república. Não me parece uma contradição do florentino, visto que o tema mesmo dos Discorsi, eis uma hipótese, é um dos efeitos da divisão apontada em O Príncipe. Da oposição entre os apetites nasce um de três efeitos, a saber, principado, liberdade, licença (P IX, p. 103). Se n’O Príncipe o objeto da investigação era o principado, nesta obra é a república, local da liberdade. Ou seja, aqui Maquiavel está a tratar do segundo efeito da divisão dos apetites, daí que não se deve estranhar a troca de cidade por república. É, pode-se dizer, coerente, pois ele analisa o tema das repúblicas nos Discorsi. Outro ponto a ser notado é o campo de forças entre instâncias operando, em dinâmica, para gerar o efeito positivo, as leis e ordenações. Portanto, em vez de sangue e exílio, boas leis, benéficas à liberdade pública. De modo que também aqui a tese de fundo é a da disputa entre instâncias, a política como campo de forças em luta. A astúcia das boas instituições é canalizar a divisão entre os apetites para a confecção de boas leis e ordenações, o que Roma foi capaz de fazer, mas não Florença (HF III 1, p. 143).

Passagem do capítulo 5 dos Discorsi, em face do mesmo Discorsi, pouco antes, e de O Príncipe, mostra que Maquiavel trabalha, às vezes, com certa polissemia no correr dos textos quanto ao uso dos termos desejo e humores. Se em O Príncipe os apetites e desejos decorriam dos humores - “se encontram estes dois humores diversos: e nasce, disto, que o povo deseja...” (P IX, p. 103) -, e ele usava os termos grandi e populo, os conceitos ganham certa elasticidade, sem, contudo, que a tese de fundo, independentemente do vocábulo usado, se altere. Veja-se que, para a mesma questão, nos Discorsi I, capítulo 5, ele usa a expressão desejo: “E, sem dúvida, se considerarmos o objetivo dos nobres e o dos plebeus [ignobili], veremos naqueles grande desejo de dominar [...]” (D I 5, p. 24). Por outro lado, usara pouco antes, no capítulo anterior do mesmo livro I, a expressão humores do povo e dos grandes: “[...] e não consideram que em toda república há dois humores diferentes, o do povo, e o dos grandes, e que todas as leis que se fazem em favor da liberdade nascem da desunião deles [...]” (D I 4, p. 22). Ou seja, Maquiavel continua, não obstante a elasticidade semântica, a trabalhar com a tese de que há instâncias (grandes e povo; nobres e plebeus; povo e soldados etc.) que mantêm uma dinâmica de equilíbrio na cidade (ou na república) por meio da disputa entre seus desejos ou apetites. Maquiavel não explica, contudo, como estas instâncias se aglutinam e lutam uma em face da outra. O fato, entretanto, é que nesta divisão de apetites o que interessa é: (i) não há um sem o outro, formam um mesmo todo com partes antagônicas, instâncias de potência que mantêm a cidade graças à disputa entre si (GAILLE-NIKODIMOV, 2017, p. 33); (ii) há um campo passional que abastece a formação das instâncias, pois elas invejam, amam, odeiam, ambicionam etc., no interior delas mesmas e entre si (os indivíduos o fazem entre si e em conjunto em face do príncipe, ou mesmo em face do outro aglomerado de indivíduos, por exemplo, os grandes em face do povo e vice-versa); (iii) aquele que governa deve levar em conta este campo em disputa e as paixões que são tramadas no interior da cidade, sob pena de, não auscultando os campos, desaguar o estado em licença - um dos efeitos da disputa entre os apetites, como afirma Maquiavel (P IX, p. 103). Uma passagem que corrobora estas hipóteses de campo de forças em dinâmica e canalização de humores é a seguinte: “Por isso, nada há que torne mais estável e firme uma república do que ordená-la de tal modo que a alteração dos humores que a agitam encontre via de desafogo ordenada pelas leis.” (D I 7, p. 33).

Analiso a seguir uma passagem dos Discorsi que mostra o deslize semântico de alguns conceitos maquiavelianos. Isso, a meu ver, não depõe contra a precisão filosófica do florentino. Ele é, evidentemente, um arguto analista, autor que, como ele mesmo escreve acerca das inovações que propõe, frequenta caminho “não tendo sido ainda trilhado por ninguém.” (D I Proêmio, p. 05). Uma hipótese que lanço é a de que Maquiavel estava mais interessado na precisão das conclusões mais amplas, que no uso, com sentido estreito, com semântica única, de alguns conceitos do seu vocabulário político. Em outras palavras, o conjunto amplo das análises, a precisão e o alcance destas, importa mais que o uso sempre nos mesmos sentidos dos mesmos termos. Isso explica um campo de sentidos mais amplo para alguns termos, que podem ser usados um em lugar do outro, a depender do texto, às vezes um como espécie de outro mais amplo (espécie de um gênero) etc. Um exemplo, acima já analisado, é o do uso dos vocábulos nobres (para significar grandes) e plebe (para significar povo). No termo humores do povo podem caber, igualmente, desde a plebe, como usado nos Discorsi (D I 4, pp. 21-22), até “empresários, negociantes e artífices ou artesãos que gestiam [o termo é do tradutor] sua própria atividade” (HF Proêmio, p. 32 - nota de rodapé 416).

A passagem é a que segue:

O príncipe, portanto, que queira conquistar um povo que lhe seja inimigo - em se tratando dos príncipes que se tenham tornado tiranos em sua pátria -, deve examinar primeiro o que o povo [popolo] deseja; verá então que ele sempre deseja duas coisas: uma é vingar-se dos que lhe acarretam a servidão, e outra é recobrar a liberdade. O primeiro desejo pode ser satisfeito no todo; o segundo, em parte. (D I 16, p. 67).

Maquiavel dá em seguida o exemplo de Clearco para mostrar como satisfazer o povo quanto ao desejo de vingança. Este era o tirano de Heracléia e estava no exílio. Ocorreu então “um conflito entre o povo e os optimates [ottimati] de Heracléia” (D I 16. p. 67). Estes entraram em acordo com Clearco e o colocaram, por meio de uma conjuração, no governo de Heracléia - contra o desejo do povo, o qual se viu privado de liberdade. Entre a raiva do povo e a insolência dos ottimati, Clearco “decidiu de um só golpe livrar-se do incômodo causado pelos grandes [grandi] e angariar a simpatia do povo” (D I 16, p. 67). Para isso, na ocasião oportuna, dado um kairós, aniquilou todos os optimates, “para extrema satisfação do povo”. Assim, afirma o florentino, satisfez uma das vontades do povo, vingar-se. Veja-se que grandi e optimates adquirem o mesmo sentido no raciocínio de Maquiavel.

Nestas passagens, fica claro o deslize dos sentidos e dos usos dos termos. Em vez de grandes, Maquiavel usa optimates [ottimati], que tem o sentido grego de aristoi (que derivou no latim optimates), e quer significar os grandes, ou ao menos é espécie do gênero grandes, como fica claro pelo uso do termo grandi, na mesma passagem, como sinônimo de optimates.

Mesmo quanto ao sentido do termo desejo do povo, ele o é bem amplo, como o texto aponta - a seguir analisarei a passagem. Há aqui certo sinal de positividade no desejo do povo, ou ao menos uma transitividade do desejo de não ser oprimido em possibilidade de desejo de mando e vice-versa, sendo tais apetites meras convenções, dependentes de conjunturas, como uma passagem da História de Florença indica (HF III 13, p. 160). Analiso a passagem dos Discorsi e logo a seguir a da História de Florença.

Na sequência, nos Discorsi, Maquiavel faz uma afirmação que defende a tese de que parte do povo, pequena, deseja comandar. Escreve:

Por esse meio, satisfez uma das vontades que os povos têm, ou seja, vingar-se. Mas, quanto ao outro desejo popular, que é reaver a liberdade, não podendo o príncipe satisfazê-lo, deverá examinar quais são as razões que fazem tais homens desejar a liberdade; e descobrirá que uma pequena parte deles deseja ser livre para comandar, mas todos os outros, que são infinitos [infiniti], desejam a liberdade para viverem com segurança.” (D I 16, p. 67).

É interessante verificar que Maquiavel, em seguida, afirma que, desses do povo que desejarão comandar, que chegarão aos escalões de comando, serão em torno de quarenta ou cinquenta cidadãos, sejam as repúblicas em questão ordenadas como forem. Sendo este número pequeno, a segurança se obtém ou os eliminando, ou dando a eles honras. Quanto aos demais do povo, deve criar leis e ordenações que contemplem “tanto o poder do príncipe quanto a segurança de todos [universale]” (D I 16, p. 68).

Veja-se que para parte do popolo é dada uma positividade no desejo, pois desejam comandar. E continua o deslize no uso dos termos - agora povo é universale. Entretanto - e este é o ponto que interessa mais, no raciocínio geral -, sempre serão poucos, de modo que isso leva águas para o moinho seguinte: a divisão não é estática, sendo que os humores podem variar quanto ao tempo e ao local, bem como podem variar aqueles que têm o apetite de mando. Alguns do povo podem vir a tê-lo, questão de conjuntura. Um fato imutável, além da natureza humana, assunto que analisarei ainda, é a divisão entre dois apetites, um de mando, outro de resistência. Quem ocupa esses espaços é dado histórico, a depender de conjuntura, mas sempre são poucos que querem mandar e “infinitos”, isto é, muitos, os que querem apenas a segurança da liberdade, e resistem, podendo ser a consequência disso ordenações e leis que a garantem - o que ocorreu em Roma no período republicano.

Um ponto é certo: há um uso alargado dos termos (grandes/povo; nobres/plebe; Povo que quer segurança/povo que quer mandar etc.), o que não inviabiliza os raciocínios de fundo, a saber, há instâncias em disputa, com humores ou apetites desiguais, variantes no tempo e nos lugares, cujo resultado pode ser o principado, a liberdade em uma república, por meio de boas leis e ordenações que canalizem essas potências em disputa para o bem comum, ou a licença, isto é, a desagregação, que pode ser de variados tipos, como atestam as consequências das disputas em Florença - combate, morte, exílio, apagamento da virtù militar, desigualdade para igualdade (HF III 1, p. 143).

Levanta argumentos no sentido da hipótese acima - do caráter conjuntural daqueles que venham a ocupar o lugar dos grandes ou do povo - uma passagem da História de Florença, que cito e analiso a seguir.

Afirma Maquiavel, por meio da voz de um desconhecido, num discurso de incitação à revolta,

Que não vos desconcerte aquela antiguidade do sangue de que nos cobram a falta, porque todos os homens, tendo tido a mesma origem, são igualmente antigos e pela natureza foram criados de um só modo. Fiquemos todos nus, e nos vereis semelhantes; vistamo-nos com as roupas deles e eles com as nossas: nós sem dúvida nobres e eles não nobres pareceremos; porque só a pobreza e as riquezas nos desigualam. (HF III 13, 160)

Ora, o florentino afirma algo que complementa teses presentes nos Discorsi e nos Escritos Políticos quanto ao fato de a natureza humana ser a mesma.

Veja-se que a tese de uma natureza humana que é a mesma não exclui a tese da aglutinação de apetites em torno de polos opostos cuja dinâmica de enfrentamento pode garantir a liberdade do povo, como foi o caso, por muitos séculos, da república em Roma. Os homens que ocupam os polos aglutinadores mudam de tempos em tempos e de lugar a lugar. A passagem acima analisada dos Discorsi assim o atesta, pois ali se disse que parte do povo pode vir a desejar comandar (D I 16, p 67). E Maquiavel não explica a formação de tais polos - grandes e povo - por meio de teses ontológicas minuciosamente construídas, ainda que pressuponha ou indique certa ontologia fraca17, bem como extraia a tese da formação dos polos de exemplos históricos.

Nos Discorsi, por exemplo, no Proêmio do livro I, defende alguns exemplos do passado como virtuosos para ações do presente. E quanto aos que dizem ser isso inútil, ser tal imitação difícil e impossível, responde: “como se o céu, o sol, os elementos, os homens tivessem mudado de movimento, ordem e poder, distinguindo-se do que eram antigamente.” (D I Proêmio, p. 07). Tal tese aparece ainda em outro momento dos Discorsi: “pois os homens [...] nasceram, viveram e morreram, sempre, segundo uma mesma ordenação [con uno medesimo ordine].” (D I 11, p. 52). Em outra passagem, afirma que “quem considere as coisas presentes e as antigas verá facilmente que são sempre os mesmos os desejos e os humores em todas as cidades e em todos os povos, e que eles sempre existiram.” (D I 39, 121). Igualmente, escreve que “o mundo sempre foi de um mesmo modo, que nele sempre houve o bom e o mau, mas que há variações entre este mau e este bom, de uma província para outra, [...], embora o mundo permanecesse sempre o mesmo.” (D II Proêmio, pp. 178-179). Por fim, diz, quase ao final do livro III: “porque todas as coisas do mundo, em todos os tempos, encontram correspondência nos tempos antigos. Isso ocorre porque, tendo sido feitas pelos homens, que têm e sempre tiveram as mesmas paixões, tais coisas só poderão, necessariamente, produzir os mesmos efeitos.” (D III 43, p. 445).

Ora, tais passagens encontram identidade com ao menos um excerto dos Escritos Políticos, a saber, Os modos de tratar os povos rebelados do Valdichiana (1503). Eis a fina tese: “Ouvi dizer que a história é mestra das nossas ações e, sobretudo, das ações dos príncipes, e o mundo foi sempre habitado por homens que sempre tiveram as mesmas paixões; e sempre houve quem serve e quem manda; quem serve de má vontade e quem serve de boa vontade, e quem se rebela e é reprimido.” (MAQUIAVEL, 1971, p. 14; 2010, p. 46 - grifos meus).


Apontamentos finais


Ao menos desde 1503, portanto antes de escrever sua obra eminentemente teórica, na qual abre novos caminhos à filosofia política, o florentino apresenta a mesma tese de fundo, acima analisada. A natureza humana é a mesma, as paixões são as mesmas, e a divisão entre grandes e povo sempre existiu.

A precisão das teses de Maquiavel às vezes parece ser sobreposta pela inundação de refinamento analítico típica do autor, ao desenhar cenários que vão se desdobrando em vários outros, o que leva o leitor a uma espécie de vertigem. Porém, aqui e ali as teses de fundo são postas e repostas - ainda que sem o fundamento de um terreno ontológico forte, formulado e desdobrado, mas certamente existente -, sem que tenham sido analisadas, refinadas no plano da minúcia. O fundamento é exposto aqui e ali, como pressuposto ontológico e como mecanismo de análise dos exemplos históricos, assim como é extraído dos vários exemplos históricos, antigos e presentes, pois as paixões e a natureza passional dos homens sempre foram as mesmas - isso o que está nos Escritos Políticos, em O Príncipe, nos Discorsi. Igualmente a mesma tese, da divisão entre apetites de mando e de obediência e da natureza humana como sendo idêntica, passional, se apresenta na História de Florença, ressaltando-se neste texto as “intrínsecas inimizades” (HF Proêmio, pp. 31-33; HF III 13, p. 160, entre outras).

Outra conclusão a que os argumentos acima movimentados levam é a de que Maquiavel extrai das paixões humanas a matéria-prima de qualquer construção política. Tenha a divisão grandes/povo, cujo deslizar semântico e mudança de termos acima se analisou, um caráter positivo (grandes) ou negativo (povo), ou não o tenha, o fato é que os humores de tais instâncias, dinamicamente em conflito, estão na base das ações dos homens. Importa frisar, novamente, pois é ponto fundamental, que esta divisão não se dá entre instâncias estáticas, mas dinâmicas, e é fundada no campo passional - medo, amor, ambição, inveja, raiva, ódio etc. Este é um tema a ser mais frequentado pelos estudiosos para que se explicite, para além da tese da simples divisão, seu fundamento afetivo e seu caráter dinâmico.

Por fim, não menos importante, como afirmam ao menos dois comentadores citados no correr deste artigo, a saber, Marie Gaille-Nikodimov e Laurent Gerbier, Maquiavel se apropria da tradição médica de seu tempo, cujos fundamentos vão ainda longe na história, pois são gregos inicialmente, e a reconceitualiza. Desse modo, as teses médicas dos humores adquirem, no texto maquiaveliano, cores próprias, nuances que apenas têm sentido e função na teoria política proposta pelo florentino. São usadas, para dizer de modo breve, como metáforas.



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1 Para as apropriações da obra de Maquiavel, as leituras e correntes do maquiavelismo, as leituras exemplares, bem como questões afins, ver: LEFORT, 1972, pp. 07-309.

2 Escreve Bignotto: “Maquiavel [...] nunca foi objeto de uma veneração tranquila.” (p. 114).

3 Data do primeiro rascunho do ensaio, lido na reunião do grupo britânico da Associação de Estudos Políticos (BERLIN, 2002, p. 21).

4 Sobre o tema dos humores como fundamentação do político e a pouca dedicação dos comentadores a ele, ver: GAILLE-NIKODIMOV, 2017, pp. 33-34, nota 112. Afirma, por exemplo, que Skinner, em seu livro Machiavelli (SKINNER, Quentin. Machiavelli. New York: Hill and Wang, 1981, p. 65), dedica apenas uma linha a afirmar a existência do conflito entre grandes e povo, sem sequer analisar o tema dos humores.

5 Maquiavel será citado da seguinte forma, para facilitar a consulta a qualquer edição da obra: usa-se D para os Discorsi, P para O Príncipe, HF para História de Florença. Os demais textos serão indicados de modo normal, autor/data, como os Escritos Políticos, a Correspondência etc. – estes últimos serão menos focados que os dois primeiros acima apontados (D e P, com menos ênfase HF). Em D, logo após, em numerais romanos, tem-se o Livro, e, a seguir, em arábico, o Capítulo, com exceção do Proêmio, e das Introduções, que serão anunciados como tal. Logo depois, o número da página da edição consultada. A paginação é a da edição da Martins Fontes, indicada nas Referências. Em P, cita-se o capítulo em romanos e a seguir o número da página da edição bilíngue consultada (da ed. Hedra, com tradução e notas de José Antônio Martins). Quando citada a edição de Diogo Pires Aurélio (ed. 34), também bilíngue, isto será indicado. Quanto à HF, em romano o Livro e em arábico o capítulo. Página em arábico da edição da ed. Musa. As edições consultadas estão ao final, nas Referências, e foram cotejadas, sempre que houve dúvida ou necessidade de mais precisão no uso de algum termo, com a obra completa em italiano citada nas Referências (Tutte le Opere, a cura de Mario Martelli).

6 Afirma: "Não quer dizer, por outro lado, que nós desconsideremos este desejo, quando o reduzimos ao apetite por poder. O essencial é essa divisão, na qual se constituem duas classes antagônicas." (LEFORT, 1978, p. 222). Afirma Lefort, igualmente, que o que pode levar os grandes à prudência é a pressão dos universali, pois aqueles não a alcançam por si mesmos (LEFORT, 1999, p. 168).

7 Tal tese poderia ser sustentada, afirma Adverse, pelas seguintes passagens: D I 37; D I 4; D I 5; e, citando Macherey, indica o início de HF, III (p. 41). Conclui o autor que o desejo do povo não pode ser, ao que indicam os textos de Maquiavel, apenas o contrário do desejo dos grandes. Há nele uma positividade (p. 49). Outro ponto que interessa, e que será desdobrado a posteriori, é a sinonímia, para o autor, entre os conceitos de desejo e humor. Maquiavel os usaria indistintamente, sendo, portanto, sinônimos (p. 34, nota 2). Sobre este tema - humor como sinônimo, ou não, de desejo -, Antonio Valverde levantou hipótese que a seguir indico: VALVERDE, Antonio. Discórdias civis, naturalidade dos conflitos políticos, multidão e classes socais - em movimento. São Paulo: PUC SP, 2° Semestre de 2017. Manifestação oral em aula de 26.10.2017. Na ocasião, Valverde teceu o seguinte raciocínio, em forma de hipótese, que transcrevo com minhas palavras, quanto à diferença, em Maquiavel, entre Humores e Apetites/desejos: ao que indicam os textos, humores são estabelecidos historicamente - humor dos grandes, de mando, e o do povo, de não perder a liberdade. Isso é histórico, conjuntural. Quanto aos apetites, são universais, são da natureza humana, valem para todos, grandes e plebe. O mesmo quanto ao desejo, que seria da natureza humana, sinônimo de apetite. Humores se constituem historicamente, portanto. Desejo e apetite decorrem da natureza humana.

8 Cardoso faz um minucioso inventário das posições em disputa em boa parte do seu artigo (Lefort, Skinner, Gaille-Nikodimov, Adverse, Ames, entre outros).

9 Tradução minha, como nos demais textos desta autora.

10 O tema da pesquisa da autora pode ser resumido na seguinte passagem: “É necessária uma nova leitura da obra de Maquiavel, centrada sobre estas três dimensões, a saber, a descrição do corpo político, a natureza do conflito civil e as condições da liberdade.” (p. 07). A razão disso, de acordo com a autora, seria o fato de que as questões que a obra de Maquiavel traz permitem pensar o político para além das tipologias clássicas das formas do Estado, que não teriam poder explicativo, bem como permitem pensar a lei como resultado da confrontação dos dois desejos, e não algo que resultaria ou da regulação natural, ou de uma instância racional. Daí a urgência de se estudar Maquiavel com foco nas três questões propostas, segundo Nikodimov (pp. 06-07).

11 Médico físico em contraposição ao médico cirurgião - nota 18 da edição da Hedra, ora utilizada. Diogo Pires Aurélio, em sua tradução, usa apenas médicos (P III, p. 103).

12 GAILLE-NIKODIMOV, 2003, p. 02. Anthony Parel seria o primeiro a dar importância ao tema em seu: The Machiavellian Cosmos (p. 2). Antes dele, L. Sanzi - mas não aprofunda a noção de humor. Para Lefort, por seu turno, segundo Nikodimov, a divisão proposta entre Povo e Grandes é que constitui a política. Para ela, Lefort não dá a devida atenção à noção de humor (p. 2).

13 Sobre o tema, há também a tese de: GERBIER, Laurent. Histoire, médecine et politique. Les figures du temps dans Prince et les Discours de Machiavel. Tese de doutorado. Tours: Centre d`Études Supérieures de la Renaissance - UFR de Philosophie/Université François-Rabelais de Tours, 1999. O autor enviou-me, gentilmente, um exemplar por e-mail. O texto não foi publicado até o momento.

14 MAQUIAVEL, 2017. Propõe Aurélio que é mais lógica e fiel ao texto a interpretação, na contracorrente do que é comumente afirmado, de que os desejos é que decorrem dos humores - nesta passagem (p. 147, nota 36).


15 Afirma a nota 37 de Aurélio: “Giorgio Inglese anota que o cronista Piero Valenti põe na boca de Giorgio Scali, citado no final do parágrafo, uma versão bem mais crua do provérbio. Assim: “quem se funda no lodo, com vossa licença, funda-se na merda.”” (p. 151).

16 Nota do tradutor Nelson Canabarro, para afirmar que em Florença o sentido de il popolo se refere só aos “empresários, negociantes e artífices ou artesãos que gestiam [o termo é de Canabarro] sua própria atividade.” E, para confirmar sua tese, cita a referência a seguir: TENENTI, 1973.


17 O termo é meu. Ver, para a tese de uma ontologia em Maquiavel e sua possível influência na ontologia espinosana: BOVE, 2015, pp. 228-229; LUCCHESE, 2009, p. 04; MORFINO, 2012, p. 65.

 

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