Cicero Novus, de Leonardo Bruni: De consulatu Ciceronis

 Revista Sísifo. N° 13, Janeiro/Junho 2021. ISSN 2359-3121. www.revistasisifo.com

 

Cicero Novus, de Leonardo Bruni:

De consulatu Ciceronis

Tradução: Adriano Scatolin (DLCV/FFLCH/USP)

Professor de Língua e Literatura Latina da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas FFLCH/USP) desde 2003. Desde 2009 dedica-se à pesquisa da obra retórica, oratória, epistolar e filosófica de Cícero e à tradução de obras de autores vários (além do próprio Cícero, Salústio, Horácio, Plínio, o Jovem, Quintiliano, Floro, Eutrópio, Gabriele de' Mussis, o anônimo autor da Crônica da Primeira Cruzada e Isaac Casaubon).



 

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Nota introdutória

O Cicero novus, de Leonardo Bruni (c.1370–1444),1 completado em 18 de outubro de 1415,2 é uma tentativa de emulação da Vida de Cícero, de Plutarco.3 Embora siga de perto o texto plutarquiano em boa parte de sua biografia, Bruni prima por uma criteriosa independência (observada tanto do ponto de vista retórico de sua escrita como do histórico), pelo cotejo com outras fontes e o uso judicioso e equilibrado destas. De fato, o autor faz uso direto de fontes primárias, como as cartas, os discursos e os diálogos de Cícero, bem como de obras históricas, que confronta com a narrativa de Plutarco, e ao mesmo tempo faz um uso seletivo de tais fontes, coerente com o teor laudatório de sua biografia.4 No caso do recorte de nossa tradução, que consiste no relato do consulado de Cícero, Bruni enriquece a descrição de sua campanha eleitoral com a citação de uma carta a Ático datada de 65, ausente em Plutarco, em que o Arpinate cogita defender seu futuro adversário Catilina, a fim de atraí-lo para uma eventual aliança (13.3). Em seu conciso relato do debate senatorial que decidiu a sorte dos líderes da conjuração de Catilina, Bruni diverge tanto de Salústio, sua fonte principal sobre a conjura, ao inserir a menção ao discurso de Cícero (24.4), correspondente à segunda parte da quarta Catilinária5, entre o discurso de César e o de Catão,6 como da interpretação que Plutarco dá do posicionamento de Cícero.7 Ao abordar o incidente ocorrido no último dia de seu mandato (Cícero deveria fazer o usual discurso de despedida, na assembleia popular, mas fora impedido de fazê-lo pelo tribuno da plebe Quinto Metelo Nepos, em represália pela execução dos líderes da conjuração, em 5 de dezembro), Bruni segue quase à letra as palavras de Cícero, em carta datada de cerca de 12 de janeiro de 62 (ou seja, escrita poucos dias depois do incidente), ao irmão de Nepos, Quinto Metelo Céler (27.3). Para exemplificar a gratidão demonstrada por Pompeu a Cícero pela salvação de Roma, Bruni, em 28.2, parafraseia um trecho do livro 1 do De officiis. O Aretino corrige, ademais, minúcias históricas, como a grafia e a identidade de alguns conspiradores mais obscuros (19.1; 20.1). Isso não o impede, porém, de ser mais impreciso do que sua fonte, como quando relata que foi por proposta de Catão que se conferiu o título de “Pai da Pátria" a Cícero, sem precisar que isso se dera na assembleia popular, não no Senado, como fizera Plutarco (13.6).

Em paralelo com esse rigor histórico, Bruni atenta também à função retórico-persuasiva de seu recorte e das informações que seleciona, adequando-os ao caráter laudatório de sua biografia. Nesse sentido, o autor assinala e endossa as justificativas e as descrições do próprio Cícero para suas ações, ou, como diríamos modernamente, aceita a versão ciceroniana dos fatos. Assim, em 13.1, atribui à auctoritas cada vez maior do Arpinate a sua candidatura ao consulado, pautando-se, pode-se conjecturar, em passos como o exórdio do discurso De lege Manilia (1–3), em que Cícero busca amplificar justamente sua auctoritas perante o povo, reunido na assembleia popular, imediatamente após sua eleição para pretor, o último degrau da carreira política antes da magistratura suprema. Endossa a justificativa de Cícero para sua oposição à restituição dos direitos políticos dos filhos dos proscritos de Sula (14.2) e à lei agrária do tribuno da plebe Servílio Rulo (15.5). Ao mencionar o consulado pela primeira vez, o biógrafo usa o superlativo gloriosissimus (13.5), em sintonia tanto com o pensamento como com a elocução ciceroniana (cf. também 16.1: gloriosius). Bruni enfatiza a perspicácia e a sagacidade de Cícero na investigação dos rumores sobre a conjuração (17.3: sagaciter; comperit, verbo que se tornara chacota já entre os contemporâneos de Cícero, por sua insistência na descoberta da conjura;8 17.4: custodie rei publice vigilantius incumbebat; diligentia; 17.5: non minori astu; 18.2: presentiens). Menciona duas vezes o episódio do título de Pater Patrie (13.6 e 26.3), mas omite o insulto de Catilina ao cônsul no Senado (20.4), que conhecia da Conjuração de Catilina, de Salústio, apenas aludindo ao episódio. Observa que, ao agir por iniciativa própria, atraiu todos os perigos sobre si mesmo, exatamente como Cícero fizera, ao (tentar) reescrever a história de seu exílio (17.4). O viés pró-Cícero também fica evidente na seleção e no recorte da matéria. Assim, em 27.1, Bruni atribui toda a repercussão negativa sofrida por Cícero em virtude da repressão da conjura e da execução de seus líderes ao caráter de seus inimigos, mais precisamente, à inveja (decorrente da autoridade e influência atingida pelo Arpinate) e à ambição. Com isso, ignora o fato crucial de que, tecnicamente, o cônsul, único responsável pelas medidas, a despeito da recomendação do Senado, executara cidadãos romanos sem oferecer-lhes a possibilidade de um processo legal — o que poderia muito bem, como de fato aconteceu, dar margem à acusação de conduta autoritária e tirânica.9 Em 28.2, descrevendo a relação de amicitia entre Cícero e Pompeu, Bruni dá crédito à versão pública propalada por Cícero, minimizando o distanciamento e a negligência de Pompeu no momento em que o Arpinate mais corria perigo de ser exilado, e ignorando a contrariedade que o ex-cônsul sentira pela recepção gélida do general a uma carta aberta que lhe enviara, com o relato de seus feitos, logo depois do consulado.

O resultado, de que o leitor de língua portuguesa tem aqui uma amostra, é uma biografia mais precisa do que a de Plutarco no que tange a minúcias factuais e detalhes prosopográficos, e, ao mesmo tempo, verdadeiramente ciceroniana, em vários sentidos do termo: pela escrita, com a apropriação de trechos das obras do Arpinate; pelo endosso das justificativas de suas ações; pelas qualidades de estadista que lhe atribui; pela versão dos acontecimentos e, sobretudo, pela tomada de posição inteiramente favorável ao biografado e, intimamente ligado a esta, o teor laudatório de toda a obra.

A tradução

Para a tradução, servimo-nos do texto estabelecido por Viti 2013 para a editora utet,10 aqui reproduzido. Seguimos a numeração dos parágrafos da edição de Bernard-Pradelle 2008,11 à qual acrescentamos subdivisões, para facilitar as citações e referências. As abreviaturas das obras antigas seguem as convenções do Oxford Latin Dictionary e do Greek-English Lexicon, de Liddell & Scott; as das obras de referência modernas são discriminadas na bibliografia. Todas as traduções citadas nas notas são de nossa própria autoria, à exceção das citações da Vida de Cícero, tomadas à excelente tradução de Várzeas 2012. O título De consulatu Ciceronis é uma inserção nossa.


Texto Latino

[De consulatu Ciceronis]

15. 1. Sed cum iam auctoritatis in eo tantum esset, ut ad petendum consulatum idoneus videretur, omni diligentia adhibita, ad petitionem amplissimi honoris descendit. 2. Ardebat tunc maxime ambitio, petentibus simul nobilissimis viris P. Galba, L. Catilina, C. Antonio, Q. Cornificio. 3. Ciceroni vero in ea petitione varie spes variaque consilia fuerunt. Nonnunquam enim Catiline magis adhesit, eumque tunc iudicio impeditum defendere statuerat. Verba eius in epistola quadam ad Atticum ista sunt: “Ego de meis detractoribus scripsi antea diligenter. Hoc tempore Catilinam competitorem nostrum defendere cogitamus. Iudices habemus quos volumus, summa accusatoris voluntate. Spero, si absolutus erit, coniunctiorem illum nobis fore in ratione petitionis.” 4. Credo, nondum orta erat coniurationis suspicio, que paulo post intellecta vel precipue suffragata Ciceroni putatur, quod eius prudentiam sufficere credebant ad omnia que imminere videbantur pericula propellenda. 5. Creatur itaque consul una cum C. Antonio, M. Antonii oratoris filio. Hic est ille gloriosissimus consulatus, per quem Cicero pater patrie primus omnium Romanorum appellatus est, quam appellationem romani imperatores postea usurparunt. 6. Sed Ciceroni libera adhuc civitate, et non ab hoc vel illo adulatore sed ex sententia M. Catonis, hic tantus honor accessit.

16. 1. Prima eius industria circa depulsionem legis agrarie conspecta. Nam res quidem Catiline ab initio consulatus in occulto adhuc manebant. Ceterum magni dehinc motus in re publica parabantur. 2. Etenim proscriptorum dudum a Sylla filli ad honores restitui postulabant, non tam iniuste quam alieno tempore: et tribuni plebis ob hec et alia legem promulgarant de decem viris cum imperio creandis. 3. His quidquid publici erat agri per Italiam, Syriam, Asiam dividendi, delectus habendi, stipendia solvendi, in exilium eiciendi potestas per legem dabatur. 4. Huic legi non solum plebs in spem novarum rerum erecta, verum etiam quidam amplissimi favebant viri, et in primis C. Antonius consul, sperans, si lex ferretur, facile se unum ex decem viris futurum. Videbatur etiam de coniuratione que circunferebantur non invitus audire propter magnitudinem eris alieni.

17. 1. Igitur ad comprimendam hanc rei publice turbationem conversus Cicero, ante omnia collegam a cupiditate rerum novarum retrahendum et sibi ac rei publice vindicandum ratus, repudiata Gallia provincia que sibi ultro delata fuerat, ut Macedonia Antonio decerneretur effecit. 2. Sanato per hunc modum college animo et in suam voluntatem traducto, iam posthac fortius rem aggressus tribunos plebis ferende legis auctores in senatum vocatos sic fregit, ut vieti obmutescerent, nec respondere quicquam auderent. 3. Sed cum iidem tribuni paulo post eum apud populum accusassent, et irritatis multitudinis animis in contionem vocassent, nihilo magis deterritus, secutis patribus in contionem descendit. 4. Ibi quanta fuerit in eo eloquentie vis manifeste apparuit. Habita siquidem gravi oratione sic mentes hominum mutavit, ut plebs ipsa, deposita cupiditate, legem improbaret, et auctores omnino ferende desereret. 5. Per hunc modum lex agraria, que primum a T. Graccho introducta, et per singulos fere annos tribunitiis furoribus et summis contentionibus agitata, patres et plebem assidue collidebat, per Ciceronis prudentiam et eloquentiam facile sopita.

18. 1. Huic egregio ac memorabili facto aliud longe gloriosius et memorabilius adiunxit, pulso ex urbe Catilina et sociis deprehensis atque necatis. Qua de re quia vulgaris historia est et ab optimis auctoribus diligentissime scripta, non erit mihi cure nisi pauca, et ea ipsa que singulari aliqua notatione digna videbuntur, repetere. 2. Coniuraverant contra rem publicam corruptissimi cives et sue amentie ducem Catilinam habebant. Is enim cupiditate dominandi post L. Syllam incensus et iampridem quemadmodum rem publicam invadere posset meditatus, omnes cuiusque generis homines, qui vel publice vel privatim fortune infensi res novas optabant, in suam amicitiam familiaritatemque pellexerat. 3. Itaque omnes qui damnati iudiciis, qui ordinibus amoti, qui pro commissis iudicia formidabant, qui patrimonia absumpserant, postremo omnes perditos, infames, egentes, audaces, facinorosos ad se traxerat. 4. Inter hos erant senatorii et equestris ordinis complures et in primis P. Lentulus Sura, vir patricius ex gente Cornelia, qui post consulatum probri causa senatu amotus fuerat. Preterea multi ex Syllanis militibus, qui, olim circa Fesulas in colonias deducti, consumptis divitiis, pro novarum spe rapinarum bellum optabant. 5. Horum singulis Catilina et tandem universis in unum coactis animum suum aperuit, eosque cohortatus et premia pollicitus, statuerat una cum illis rem publicam occupare, et trucidatis bonis et locupletibus, quorum auctoritas in re publica valebat, sibi dominationem, illis magistratus, provincias, dignitates arripere. Sed quo facilius ea patrare posset, consulatum petebat.

19. 1. Fama iam quedam licet obscura vulgarat coniurationem magnam contra rem publicam esse initam, cedem ingentem parari: sed neque auctores certos ea fama habebat, neque per quos homines ea pararentur aperiebat. 2. Ceterum ea suspicio, ut supra diximus, petitioni Ciceronis maxime profuit, quod eius prudentiam facile resistere posse tantis periculis arbitrabantur. 3. Igitur ab initio consulatus sui famam coniurationis sagaciter obsecutus, ubi ex Fulvia muliere nobili ortam comperit, per eam ad se clam accitam multa pollicendo effecit ut Q. Curius Fulvie amator, qui unus ex coniuratis erat, totam sibi coniurationis seriem et omnia Catiline consilia proderet. 4. Quibus per hunc modum cognitis, custodie rei publice vigilantius incumbebat. Tempus autem referendi ad senatum nondum idoneum existimabat; sed privato consilio et diligentia illius conatus ubique frustrabatur: quo quidem facto omnia pene urbis pericula in se unum convertit. 5. Nam Catilina, quoniam ipsum valde officere suis consiliis et ubique obstare sentiebat, nec eo incolumi se quicquam perficere posse, ante omnia ipsum occidere statuit, et insidias die noctuque ei tendere non cessavit, quas tamen Cicero non minori astu semper vitabat.

20. 1. Postremo cum occulte insidie sepius temptate nequaquam procederent, proximis comitiis, quibus consulatum petebat, aperta iam vi et magna armatorum manu in ipsa comitiorum turba Ciceronem occidere statuit. 2. Que presentiens Cicero, et simul existimans, si ille consul designaretur, omnia haud dubie peritura, in ipsa comitiorum die armatus in campum descendit: data etiam opera ut subtracta parumper ab humeris veste thorax conspicuus esset, quo periculum imminens civibus ostentaret. Cives ea re perculsi et de salute consulis solliciti eum circunstant. 3. Ita clarorum virorum et robustissimorum adolescentium caterva stipatus comitiis presidens effecit ut, iterum Catilina repulso, Murena et Silanus consules crearentur.

21. 1. Hac itaque spe destitutus Catilina, cum bellum facere ac extrema omnia experiri decrevisset, Manlium quendam in Etruriam ad movenda arma premisit: ipse in urbe remansit ad cetera obeunda. 2. Ibi, cum in dies plura moliretur, urbi incendia, consuli necem maturaret, Cicero, quod privato consilio longius rem publicam substinere non poterat, et quod motus iam ex Etruria nuntiabatur, non amplius cunctandum ratus, totam rem ut cognoverat in senatu patefecit. 3. Senatus magnitudine periculi commotus decrevit ut consules providerent, ne quid res publica detrimenti caperet. Hec erat summa potestas et nonnisi extremis periculis dari consueta. 4. Quam tunc nactus Cicero tanta multitudine armatorum stipatus incedebat, ut magnam fori partem, quotiens eo descenderet, occuparet. Formidans tamen invidiam nobilitatis Catilinam occidere differebat, donec manifestioribus inditiis coniuratio teneretur.

22. 1. At Catilina quoniam magna circa consulem presidia cernebat, alia via agendum ratus, C. Cornelio et L. Vargunteio equitibus romanis negotium dat, ut mane veluti salutatum ad Ciceronem ingressi, ex improviso eum domi confodiant. 2. Quo per Fulviam propere cognito, eos paulo post ad se venientes Cicero ianua prohibuit. Sed eo periculo maiorem in modum excitatus, postridie in edem Iovis Statoris senatum vocavit. 3. Eo cum ipse quoque Catilina sive dissimulandi sive sui purgandi causa venisset, presentia eius commotus Cicero gravissima oratione corripuit et in exilium ire iussit. 4. Ipse autem Catilina cum respondere nesciret, sed in maledicta adversus consulem prorumperet, iurgio senatorum incensus demum veluti furens e curia domum minabundus evasit. 5. Ibi multa secum agitans, tandem optimum factu ratus exercitum adire, Lentulo, Cethego et aliis quorum promptam audaciam cognoverat, mandat ut opes coniurationis quantum possent confirment, insidias consuli maturent, cedes et incendia diligenter parent, se propediem cum exercitu affuturum promittit. 6. Hec mandata cum dedisset, intempesta nocte porta Flaminia egressus in castra ad Manlium contendit.

23. 1. At Lentulus et ceteri coniurationis principes, uti Catilina preceperat, quoscumque moribus aut fortuna novis rebus idoneos credebant, sibi adsciscere conabantur; paratisque magnis, ut putabant, viribus, constituerant, ubi primum cum exercitu Catilina appropinquare nuntiaretur, ut L. Bestia tribunus plebis contione advocata quereretur de Ciceronis actionibus, in eumque causam belli totam refunderet, quo magis animi plebis adversus illum incenderentur; 2. inde quasi signo dato proxima nocte Statilius et Gabinius cum magna manu duodecim opportuna urbis loca incenderent, Cethegus ianuam Ciceronis obsideret eumque aggrederetur: alii item alios quos ad cedem destinaverant.

24. 1. Erant per id tempus in urbe legati Allobrogum, quos, quia publice privatimque magno ere alieno oppressos sciebant, ad societatem belli requirunt. Liberationem et premia insuper amplissima civitati eorum pollicentur: victoriam in manibus esse ostendunt, participes consilii nominant, et, quo facilius inducantur12 legati, quosdam falso adiungunt. 2. Illi diu secum volventes tandem per Fabium Sangam, cuius patrocinio utebantur, rem totam Ciceroni pandunt. 3. Ille tempus manifeste deprehendendi venisse ratus, legatis imperat ut studium coniurationis vehementer simulent, dentque operam ut illos quam manifestissimos habeant. Igitur ex precepto consulis operam promittunt, litteras a singulis postulant, quas ad cives suos perferant: non enim de tantis rebus temere credituros affirmant. 4. Tandem a Lentulo, Cethego et Statilio litteras obsignatas accipiunt. Mittit preterea cum illis Lentulus Titum Vulturcium, qui, antequam domum pergant, ad Catilinam eos perducat; ipsi Vulturcio litteras et mandata ad Catilinam dat, in urbe parata esse omnia, ne cunectetur propius cum exercitu accedere.

25. 1. His rebus ita paratis, constituta nocte qua proficiscerentur, Cicero per legatos cuncta edoctus, apud pontem Milvium dispositis insidiis, eos capi et ad se cum litteris duci iussit. 2. Ipse ubi captos intellexit, statim Lentulum, Cethegum, Statilium, Gabinium et Q. Ceparium ad se vocat: Lentulum, quia erat pretor, manu tenens secum duxit, reliquos cum custodibus in edem Concordie venire iubet; eo senatum convocat: signis, litteris, indiciis etiam Gallorum et T. Vulturcii, nam ei fides publica data erat, convincuntur. 3. Senatus decrevit ut P. Lentulus, pretura abdicatus, itemque ceteri in liberis custodiis alius apud alium haberentur. Quare deposita in senatu purpura, Lentulus P. Lentulo Spintheri, Cethegus Cornificio, Statilius Cesari, Gabinius Crasso, Ceparius Cn. Terentio senatori traduntur.

26. 1. Postridie convocatus senatus supplicationem Diis immortalibus pro servata re publica Ciceronis nomine decrevit; item legatorum et T. Vulturcii inditia comprobavit iisque premia danda censuit. 2. Sed cum Lentulus et Cethegus per libertos et clientes suos plebem concitare et direptionem moliri dicerentur, Cicero dispositis per urbem presidiis ne quis movere se posset, convocato iterum senatu ad patres retulit quid de his qui in custodiis traditi essent, item de L. Cassio, P. Umbreno, P. Furio, Q. Annio (hos legati nominaverant) si deprehensi forent, fieri placeret. 3. Omnes consulares, itemque pretorii deinceps rogati sententiam usque ad C. Cesarem supplicium de iis sumendum censuerant. At Cesar, ubi locus dicendi ad eum pervenit, vitam quidem servabat, tantum publicanda eorum bona, et ipsos perpetuis vinculis per municipia dispartiendos censebat. 4. Inter hec Cicero assurgens cum utramque sententiam ad arbitrium senatus retulisset, primam sibi placere magis ostendit. Sed Cesaris oratio plerosque commoverat; denique prevalitura videbatur, nisi M. Cato longa et splendida oratione priorem sententiam confirmasset. 5. Ob hoc senatus decretum factum est in Catonis sententiam, non quod alii fere omnes non idem censuissent, sed quod eam sententiam iam labentem ipse magna constantia et auctoritate firmasset.

27. 1. Ad supplicium per hunc modum ductos fuisse tradunt. Cum post longam consultationem in senatu habitam tandem ex Catonis sententia supplicium de reis sumendum senatus statuisset, consul curia egressus comitante senatu et iuventute nobilium armata ad sedes eorum, quibus in custodiam dati erant, profectus, primo Lentulum, qui apud Spintherem custodiebatur, ex Palatio per viam sacram ac per medium forum ad carcerem duxit, et publico vindici tradidit iubens ut statim eum necaret. 2. Eodem modo de aliis factum est. Nam et itum ad edes, in quibus servabantur, et inde in carcerem ducti, spectante cum silentio plebe et summo timore perculsa, quod in potestate consulis et senatus positam rem publicam sine ulla contradictione intuebatur. 3. Postquam omnes necati, consul ut spem eorum, qui per noctem aliquid moliri cogitabant, precideret, ad multitudinem conversus magna voce inquit: “Vixerunt”. Hoc verbum lenius est prolatu et tamen idem significat quod “Mortui sunt”.

28. 1. Nox iam erat cum per medium forum in palatium reductus est, non amplius pavore ac silentio uti nuper in traducendis reis, sed permiste undique turbe summa letitia et applausu quacumque iter faceret Ciceroni gratulabantur: illum servatorem patrie, illum conditorem urbis, illum optimum consulem vocitantes, quod viverent, quod filios, quod uxores, quod libertatem, quod civitatem haberent, virtuti eius acceptum ferentes. 2. Per vias ignis et faces lucebant: matresfamilias nuper pavide pro depulsis periculis gaudio exultantes ad tam egregium reductionis spectaculum e fenestris tectisque catervatim pendebant. 3. Denique tanti existimate sunt he res ab eo geste, ut M. Cato, vir severus et summe gravitatis, earum gratia patrem patrie putaverit appellandum: quod, ut supra diximus, primo omnium Ciceroni contigit, et quidem in libera civitate, ut inquit poeta quidam imperatores deridens qui ab adulatoribus hoc nomen sumebant:

Roma patrem patrie Ciceronem libera dixit’.

29. 1. Cum itaque ex his rebus tantum auctoritatis et gratie Ciceroni accessisset, ut facile appareret illum etiam post consulatum principem in civitate futurum, commune malum invidia et ambitio mentes quorundam adversus eum incendit. C. Cesar, qui per id tempus pretor erat, item L. Bestia et Metellus tribuni plebis res gestas Ciceronis carpere et insectari potentiam ceperunt. 2. Denique abeuntem consulatu habere contionem et apud populum loqui de rebus suis, ut mos erat, Metellus prohibuit. Tantum ut iuraret illi permissum. 3. Ille autem magna voce iuravit non solitum iusiurandum sed aliud pulcherrimum, quod populus postea magna voce ipsum vere iurasse iuravit.

30. 1. Ex hoc adversarii magis irritati et de voluntate populi diffisi legem promulgarunt de Cn. Pompeio cum exercitu ad urbem vocando ut potentiam Ciceronis deponeret. Non tamen ea lex ferri potuit intercedente Catone, neque Pompeius tunc rediit, neque, postquam reversus est, Ciceroni infensus fuit. 2. Quin immo illi gratias egit, affirmans se frustra triumphum reportaturum fuisse, nisi urbs a Cicerone servata esset, in qua triumphare posset. Hinc secuta est inter Pompeium et Ciceronem amicitia, et in multis rebus non parva coniunctio, a qua tamen Cesar et Crassus sic Pompeium nonnunquam averterunt, ut intermitteret eam potius quam desereret.


Tradução

[O consulado de Cícero]

15. 1. Ora, quando [Cícero] já gozava de tamanha autoridade13 que se considerava apto a pleitear o consulado, lançou mão de todos os seus esforços para pleitear o cargo mais importante. 2. A disputa eleitoral fervia naquele momento, com a candidatura simultânea dos mais eminentes membros da nobreza: Públio Galba, Lúcio Catilina, Gaio Antônio, Quinto Cornifício.14 3. Quanto a Cícero, diversas revelaram-se as suas expectativas naquele pleito, diversos os desígnios. Em determinado momento, chegara a se aproximar de Catilina e decidira defendê-lo, num processo em que estava envolvido.15 Eis suas palavras, numa carta a Ático: “Já lhe escrevi em detalhe, anteriormente, sobre os meus detratores. No momento, penso em defender Catilina, meu concorrente. Dispomos dos jurados que desejamos, com pleno acordo do acusador. Minha expectativa é que, em caso de absolvição, ele fique mais alinhado com minha estratégia de campanha."16 4. Creio que ainda não nascera a suspeita de conjuração,17 que, segundo se pensa, foi descoberta pouco depois e talvez tenha sido o principal fator na eleição de Cícero, por se acreditar que sua prudência bastaria para afastar todos os perigos que pareciam iminentes.18 5. Assim, é eleito cônsul junto com Gaio Antônio, filho do orador Marco Antônio.19 Esse é o tão glorioso consulado de Cícero, que lhe rendeu, por primeiro entre todos os romanos, o título de “Pai da Pátria", posteriormente utilizado pelos imperadores de Roma. 6. Cícero, porém, foi agraciado com tamanha honraria quando Roma ainda era uma cidade livre, e não por obra deste ou daquele adulador, mas por proposta de Marco Catão.20

16. 1. Inicialmente, foi no rechaço da lei agrária que se pôde observar o seu empenho, pois os planos de Catilina, no começo do consulado, ainda permaneciam secretos. Ademais, importantes manobras políticas começaram a ser tramadas em seguida. 2. De fato, já havia muito os filhos dos proscritos de Sula demandavam a restituição de seus direitos políticos, o que em si mesmo não era injusto, mas inoportuno.21 Além disso, os tribunos da plebe, por esse e outros motivos, haviam proposto uma lei sobre a instituição de um decenvirato dotado de comando militar. 3. Essa lei conferia aos decênviros a autoridade para distribuir terras públicas22 de qualquer natureza na Itália, na Síria, na Ásia, fazer recrutamentos, pagar soldos,23 mandar para o exílio, 4. e contava com o apoio não apenas da plebe, ouriçada com a perspectiva de insurreição, mas também de gente muito importante, e sobretudo do cônsul Gaio Antônio, que contava com uma participação certa no decenvirato, caso a lei fosse aprovada.24 Ademais, não parecia contrariado ao ouvir os rumores que circulavam sobre a conjuração, em razão de suas enormes dívidas.

17. 1. Assim, concentrando-se na repressão dessa agitação política e considerando necessário, antes de tudo, demover seu colega de suas aspirações à insurreição e trazê-lo para o seu lado e para o da República, renunciou à província da Gália, que lhe fora designada, e cuidou para que a Macedônia fosse conferida a Antônio.25 2. Resolvido, dessa maneira, o problema da disposição de seu colega, agora alinhada a seus propósitos, passou a enfrentar a situação com mais bravura ainda: convocando ao Senado os tribunos da plebe responsáveis pela proposta de lei, castigou-os tanto, que se dobraram e calaram, sem ousar responder o que quer que fosse. 3. Porém, quando esses mesmos tribunos, pouco tempo depois, o acusaram perante o povo e, depois de acirrar os ânimos da multidão, o convocaram para a assembleia, não se deixou minimamente abalar e seguiu para a assembleia acompanhado dos senadores. 4. Ali ficou claro como era grande o poder de sua eloquência: depois que proferiu aquele discurso tão grave, de tal forma mudou a maneira de pensar das pessoas, que a própria plebe deixou sua ganância de lado e passou a desaprovar a lei, e os seus proponentes desistiram de sequer submetê-la a votação.26 5. Dessa maneira, a lei agrária que, apresentada pela primeira vez por Tibério Graco e promovida praticamente todo ano pela loucura e absoluta obstinação dos tribunos, colocava os senadores e a plebe em constante conflito, foi facilmente anulada pela prudência e eloquência de Cícero.

18. 1. A esse feito notável e digno de memória, acrescentou outro ainda mais glorioso e memorável, expulsando Catilina da cidade e capturando e executando seus cúmplices. A respeito desse assunto, uma vez que a história é bem conhecida e foi registrada nos mínimos detalhes pelas melhores autoridades, minha preocupação consistirá apenas em retomar uns poucos fatos, e particularmente os que parecerem dignos de nota.27 2. Haviam conjurado contra a República os mais depravados cidadãos, tendo Catilina como comandante de sua loucura. De fato, ele, inflamado pela sede de poder depois [da ditadura] de Lúcio Sula, e já havia muito tramando uma maneira de tomar a República de assalto, atraíra para o seu círculo de amigos íntimos gente de toda e qualquer espécie, desejosa de insurreição por conta de seus infortúnios em âmbito público ou privado. 3. Assim, aliciara todo aquele que fora condenado em tribunal, que fora demovido de sua Ordem, que temia processos por seus crimes, que perdera seu patrimônio, toda sorte, enfim, de gente arruinada, desonrada, destituída, temerária, criminosa.28 4. Entre eles havia inúmeros membros da ordem senatorial e da equestre, e acima de tudo Públio Lêntulo Sura, um patrício do clã dos Cornélios que fora expulso do Senado por improbidade, depois de seu consulado.29 Havia ainda boa parte dos soldados de Sula que, assentados outrora em colônias na região de Fésulas,30 haviam dissipado seus recursos e ansiavam por uma guerra, na expectativa de novas pilhagens. 5. Reunindo-se com cada um individualmente e, por fim, com todos eles, [Catilina] revelou suas intenções e, exortando-os e prometendo-lhes recompensas, decidira tomar a República junto com eles, trucidando os homens de bem e os ricos, que gozavam de grande autoridade política, e tomar, para si, o poder, para eles, magistraturas, províncias, honrarias. Porém, para que pudesse levar o plano a cabo com mais facilidade, pleiteava o consulado.

19. 1. Já correra o rumor, ainda que vago, do início de uma grande conjuração contra a República, de preparativos para um enorme massacre, mas não havia informantes de confiança que pudessem confirmá-lo, nem ficava claro quem eram os responsáveis por tais preparativos. 2. Ademais, tal suspeita, como observamos acima, revelou-se extremamente vantajosa para a candidatura de Cícero, por acreditar-se que sua prudência não teria dificuldade em resistir a tão grandes perigos. 3. Assim, acompanhando habilmente, desde o início de seu consulado, o rumor sobre a conjuração, quando descobriu que ele tivera início com Fúlvia, uma nobre, [Cícero], que a convocara em segredo e lhe fizera várias promessas, conseguiu que ela arrancasse de Quinto Cúrio, seu amante e um dos conjurados, toda a sequência da conjuração e todos os planos de Catilina. 4. Inteirando-se deles dessa maneira, começou a se aplicar com mais empenho ainda à defesa da República. Embora ainda não considerasse o momento oportuno para submeter a questão ao Senado, lançava mão de sua iniciativa particular e de seu zelo para assegurar que os planos de Catilina fossem inexoravelmente frustrados — e ao fazê-lo, por sinal, ele atraiu praticamente todos os perigos que a cidade corria sobre si mesmo.31 5. De fato, Catilina, percebendo que ele era um grande empecilho a seus planos e que os atrapalhava de maneira inexorável, bem como que não obteria nenhum resultado se ele continuasse incólume, decidiu assassiná-lo antes de qualquer outra ação, armando-lhe ciladas dia e noite, sem trégua — mas Cícero, que não ficava atrás em astúcia, sempre as conseguia evitar.

20. 1. Por fim, vendo que as ciladas tantas vezes armadas em segredo não surtiam qualquer efeito, decidiu assassinar Cícero na eleição seguinte, na qual pleitearia o consulado, apelando abertamente à violência e a um grande contingente de homens armados, bem no meio da multidão reunida para os comícios. 2. Pressentindo-o, e ao mesmo tempo considerando que, caso [Catilina] fosse eleito cônsul, tudo estaria indubitavelmente perdido, Cícero, no dia da eleição, dirigiu-se ao Campo de Marte em armas, tomando até o cuidado de deixar a veste descair um pouco dos ombros, para que a couraça ficasse visível e, com isso, mostrasse a seus concidadãos o perigo iminente. Abalados por tal visão e preocupados com a segurança do cônsul, os cidadãos o cercam. 3. Assim, circundado por um grande número de homens ilustres e jovens dos mais vigorosos, presidiu a eleição e garantiu que, com nova derrota de Catilina, Murena e Silano fossem eleitos cônsules.

21. 1. Dessa maneira, vendo suas expectativas frustradas, Catilina decidiu promover a guerra e tentar a sorte com todo tipo de medida extrema: enviou certo Mânlio32 à Etrúria para mobilizar seus homens, permanecendo ele mesmo na cidade, para os demais preparativos. 2. Ali, enquanto [Catilina] fazia mais planos a cada dia, maquinando incêndios pela cidade e o assassinato do cônsul, Cícero, não podendo mais sustentar a República por iniciativa particular e já recebendo o anúncio da mobilização proveniente da Etrúria, concluiu que não havia mais lugar para adiamentos e revelou toda a situação no Senado, tal como dela se inteirara. 3. O Senado, abalado pela enormidade do perigo, decretou que os cônsules cuidassem para que a República não sofresse nenhum dano. Esse era um poder supremo, que não se costumava conferir senão em situações de extremo perigo.33 4. Investido dele, Cícero andava cercado por tamanha multidão de homens armados, que acabava por ocupar grande parte do fórum toda vez que se dirigia para lá. Temendo, porém, a hostilidade da nobreza, adiava a execução de Catilina para o momento em que se flagrasse a conjuração com provas mais claras.

22. 1. Catilina, por sua vez, observando as grandes escoltas em torno do cônsul, considerou que era preciso apelar a um método diferente: ele encarrega Gaio Cornélio e Lúcio Vargunteio, cavaleiros romanos,34 de visitar Cícero pela manhã, a pretexto de fazer-lhe a saudação matinal, e de apunhalá-lo de surpresa, em sua casa. 2. Informado às pressas por Fúlvia, Cícero bloqueou-lhes o acesso logo em seguida, quando se aproximavam, fechando-lhes a porta.35 Porém, movido ainda mais fortemente por tal perigo, convocou o Senado, no dia seguinte, para uma sessão no Templo de Júpiter Estátor. 3. Como o próprio Catilina também comparecera, fosse para dissimular, fosse para se justificar, Cícero, perturbado com sua presença, lançou-lhe acusações num severíssimo discurso,36 ordenando-lhe que partisse para o exílio. 4. Catilina, por sua vez, incapaz de responder e irrompendo em imprecações contra o cônsul37, inflamou-se com a altercação com os senadores e, beirando a loucura, deixou a Cúria em tom ameaçador, voltando para casa. 5. Ali, absorto em muitas maquinações, acabou por decidir que o melhor a fazer era ir ao encontro de seu exército: instrui Lêntulo, Cetego e outros, ciente de poder contar com sua audácia, a consolidar o máximo possível as forças da conjuração, apressar as ciladas contra o cônsul e planejar detalhadamente os massacres e os incêndios, prometendo-lhes chegar muito em breve com o exército. 6. Depois de dar tais instruções, partiu pela Porta Flamínia38 na calada da noite, para encontrar-se com Mânlio no acampamento.

23. 1. Ora, Lêntulo e os demais líderes da conjuração, em cumprimento às instruções de Catilina, tentavam aliciar todos aqueles que, por condição ou caráter, consideravam aptos a uma insurreição. Acreditando terem reunido grandes forças, haviam decidido que, tão logo se anunciasse a aproximação de Catilina com seu exército, Lúcio Béstia, tribuno da plebe, convocaria uma assembleia e se queixaria das ações de Cícero, imputando-lhe toda a culpa pela guerra, para inflamar ainda mais os ânimos da plebe contra ele; 2. que na noite seguinte, como que dando o sinal, Estatílio e Gabínio, com um grande número de homens, incendiariam pontos estratégicos da cidade, Cetego assediaria a porta de entrada da casa de Cícero e o atacaria; e que outros fariam o mesmo contra outras pessoas, que haviam marcado para morrer.

24. 1. Encontrava-se na cidade, naquele momento, uma delegação de alóbroges39. Sabendo-os sufocados por enormes dívidas, tanto em âmbito público como privado, buscam sua aliança na guerra. Ademais, prometem-lhes que serão generosos e que haverá vastas recompensas para sua cidade: mostram-lhes que a vitória está a seu alcance, elencam os participantes da trama e, para convencer os embaixadores com mais facilidade, acrescem alguns nomes indevidamente. 2. Eles refletem por muito tempo e acabam recorrendo a Fábio Sanga, de cujo patronato gozavam, para revelar tudo a Cícero. 3. Este, considerando que era chegada a hora de prendê-los em flagrante, ordena aos embaixadores que finjam um grande interesse na conjuração e se esforcem para apanhá-los na situação mais flagrante possível. Então, atendendo às instruções do cônsul, prometem colaborar, exigem cartas de cada um [dos conjurados], para levar a seus concidadãos, alegando que não darão crédito a uma empresa tão importante às cegas. 4. Por fim, recebem cartas seladas de Lêntulo, Cetego e Estatílio. Lêntulo, ademais, envia Tito Vultúrcio com eles, para que os leve até Catilina antes de voltarem para casa; entrega a Vultúrcio uma carta e instruções para Catilina, dizendo que na cidade tudo está pronto, que não deve hesitar em se aproximar com o exército.

25. 1. Feitos tais preparativos e definida a noite em que partiriam, Cícero, informado de tudo pelos embaixadores, ordenou que preparassem uma emboscada na Ponte Mílvia e que os capturassem e trouxessem a sua presença, junto com as cartas. 2. Assim que toma conhecimento de sua captura, convoca Lêntulo, Cetego, Estatílio, Gabínio e Quinto Cepário a sua presença. Como Lêntulo era pretor, leva-o consigo, segurando-o pela mão, e ordena que os demais sejam escoltados ao Templo da Concórdia. Convoca o Senado para uma sessão naquele recinto. Os selos e as cartas, assim como as delações dos gauleses e de Tito Vultúrcio — pois este recebera garantia de imunidade —, os incriminam. 3. O Senado decretou que, depois de abdicar da pretura, Públio Lêntulo, assim como os demais, fossem mantidos sob liberdade vigiada, cada um na casa de uma pessoa. Por isso, deposta a toga púrpura no Senado, Lêntulo é confiado a Públio Lêntulo Espínter; Cetego, a Cornifício; Estatílio a César; Gabínio a Crasso e Cepário ao senador Gneu Terêncio.

26. 1. Convocado para o dia seguinte, o Senado decretou, em nome de Cícero, uma ação de graças aos Deuses imortais, pela salvação da República. Também confirmou as delações dos embaixadores e de Tito Vultúrcio, decidindo que lhes fossem oferecidas recompensas. 2. Porém, como diziam que Lêntulo e Cetego usavam seus libertos e clientes para agitar a plebe e tramar depredações, Cícero postou guardas pela cidade para impedir sua movimentação, convocou novamente o Senado e submeteu aos senadores a decisão sobre o que fazer com os que haviam sido colocados sob custódia, bem como com Lúcio Cássio, Públio Umbreno, Públio Fúrio, Quinto Ânio (eles haviam sido nomeados pelos embaixadores), se fossem presos. 3. Todos os consulares, assim como, na sequência, os pretórios, quando se solicitou seu parecer, haviam proposto a pena capital para eles, até chegar a vez de Gaio César. Ora, quando chegou o momento de César discursar, ele defendeu que se lhes poupasse a vida, propondo apenas que se confiscassem seus bens e que fossem mantidos em prisão perpétua, espalhados pelos municípios. 4. Entre tais pareceres, Cícero ergueu-se e, submetendo as duas propostas ao arbítrio do Senado, deu mostras de preferir a primeira. O discurso de César, porém, surtira efeito sobre a maioria e dava a impressão de que acabaria por prevalecer, não tivesse Marco Catão sustentado a primeira proposta num esplêndido discurso. 5. Foi por isso que se redigiu o decreto senatorial em conformidade com o parecer de Catão — não que praticamente todos os outros não fossem da mesma opinião, mas ele, com sua grande coerência e autoridade, dera novo alento à proposta, quando esta já perdia força.

27. Eis como, segundo se relata, foram conduzidos à execução. Quando o Senado, após longa deliberação, finalmente decidiu pela pena capital para os réus, em conformidade com o parecer de Catão, o cônsul deixou a Cúria acompanhado do Senado e da juventude nobre em armas, rumo às casas dos que se haviam encarregado de sua guarda; primeiramente, escoltou Lêntulo, sob custódia na casa de Espínter, do Palatino até o cárcere, passando pela Via Sacra e pelo fórum, e entregou-o ao carrasco público, ordenando-lhe que o executasse imediatamente. 2. O mesmo se deu no caso dos demais: foram até as casas em que estavam presos e os levaram dali para o cárcere, observados em silêncio pela plebe, que estava aterrorizada, ao ver a República sob o controle do cônsul e do Senado, sem qualquer tipo de oposição. 3. Depois que todos foram executados, o cônsul, para tolher qualquer esperança aos que haviam passado a noite em uma maquinação qualquer, voltou-se para a multidão e bradou: “Viveram". Esse termo é mais brando de proferir, embora signifique o mesmo que “estão mortos".

28. 1. Já era noite quando foi acompanhado pelo fórum de volta ao Palatino, e a multidão já não estava mais tomada pelo medo e pelo silêncio, como pouco antes, ao ver a escolta dos réus, mas, numa confusão generalizada, parabenizava Cícero por onde quer que passasse, numa enorme e alegre ovação, chamando-o repetidamente “salvador da pátria”, “fundador da cidade”, “excelente cônsul”, por estarem vivos, por ainda terem filhos, esposas, a liberdade, a cidade, creditando-o a sua bravura. 2. Pelas ruas, luziam fogos e tochas; as mães de família, ainda há pouco temerosas, exultavam de alegria pelo afastamento do perigo, apinhadas nas janelas e nos telhados para assistir ao espetáculo tão célebre do retorno [do cônsul] para casa.40 3. Por fim, suas façanhas foram objeto de tamanha estima, que Marco Catão, um homem severo, de uma austeridade extrema, considerou que [Cícero] deveria, em razão delas, receber o título de “Pai da Pátria". Como dissemos acima, foi a Cícero que isso coube pela primeira vez, e numa sociedade livre, por sinal, como diz o poeta, zombando dos imperadores que recebiam tal denominação dos aduladores: “Roma chamou Cícero ‘Pai da Pátria’ quando ainda era livre”.41

29. 1. Quando tais feitos conferiram tamanha autoridade e influência a Cícero, que já se tornava claro que, depois de seu consulado, teria uma posição de proeminência na cidade, um mal comum, a inveja e a ambição, inflamou as mentes de certas pessoas contra ele. Gaio César, que naquela época era pretor, assim como os tribunos da plebe Lúcio Béstia e Metelo, começaram a criticar as ações de Cícero e condenar seu abuso de poder. 2. Metelo acabou por impedi-lo, ao término de seu consulado, de discursar sobre as suas ações na assembleia popular, como era praxe, permitindo-lhe apenas que prestasse o juramento. 3. Cícero, por sua vez, prestou em voz alta não o juramento usual, mas outro, belíssimo, que o povo, em seguida, também jurando, confirmou como verídico.42

30. 1. Foi por isso que seus adversários, mais inflamados ainda e não se fiando da vontade do povo, propuseram uma lei que convocaria Gneu Pompeu, com seu exército, de volta à cidade, a fim de diminuir o poder de Cícero. No entanto, com o veto de Catão, não foi possível aprovar tal lei, e Pompeu nem voltou naquele momento, nem, depois de voltar, foi hostil a Cícero.43 2. Chegou mesmo a agradecer-lhe, dizendo que teria obtido o triunfo em vão, se Cícero não tivesse salvado a cidade em que o poderia celebrar.44 Seguiu-se uma amizade entre Pompeu e Cícero, e, em muitos aspectos, uma aliança não sem importância. César e Crasso, porém, afastaram Pompeu de tal vínculo, levando-o a interrompê-lo, ainda que sem abandoná-lo [de todo].45

























Referências

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1 O tradutor agradece a cuidadosa leitura de Marlene Lessa Vergílio Borges e de Tiago Augusto Nápoli, lectores optimi maximi. Todas as datas relativas à Antiguidade, neste trabalho, são a.C.

2 Viti 2013: 276.

3 O impulso inicial, segundo o próprio Bruni, em carta a Niccolò Niccoli (reproduzida em Viti 2013: 278) fora a escrita de uma nova tradução da Vida de Cícero plutarquiana, mais apurada e elegante do que a de Iacopo Angeli, de 1401. Desencantado, porém, com os critérios e o recorte da apresentação de Plutarco, desiste da tradução, decidido a escrever sua própria biografia de Cícero. Sobre a evolução da escrita do Cicero Novus, cf. Fryde 1983: 39 e Ianziti 2012: 48–49.

4 Fryde 1983: 33–52 aborda o aspecto histórico do Cicero Novus, enfatizando o rigor de Bruni no uso das fontes; Ianziti 2012: 44–60 relativiza as conclusões de Fryde, dando relevo às escolhas retóricas do biógrafo. Buscamos, aqui, um meio-termo entre as duas abordagens: é inegável o rigor factual de Bruni e seu cuidado e apuro no cotejo de diferentes fontes, mas o caráter laudatório, pró-Cícero, da obra tem prioridade sobre a exatidão histórica.

5 A quarta Catilinária é um amálgama de (pelo menos) duas intervenções de Cícero no debate de 5 de dezembro: em Cat. 1–6, o cônsul abre o debate e submete a questão aos senadores; em Cat. 7–24, temos o passo correspondente à menção de Bruni: ao observar o efeito das palavras de César sobre os senadores, Cícero toma a palavra, dando a entender sua preferência pela proposta de Décimo Silano, embora se resguardando numa postura de isenção. Para Para Dyck 2008: 208, Cat. 24 corresponde a uma terceira intervenção no debate, com a chamada para votação.

6 Sobre os critérios da apresentação do debate em Salústio, leia-se Scatolin 2019. Assim como a ausência do discurso de Cícero, em Salústio, não se dá por viés anticiceroniano, também a sua breve menção, na versão de Bruni, não me pareceuma tentativa de restabelecer o lugar de Cícero como figura central(Ianziti 2012: 51), ou de valorizar a figura de Cícero, minimizando a importância de César e Catão" (Pradelle 2008: 455, n. 1). Se tal fosse o caso, o Aretino teria atenuado ou ignorado o papel de César no debate e a proposta decisiva de Catão, e/ou amplificado a contribuição do cônsul (diferenças de ênfase e viés não faltam, nas fontes elencadas por Drexler 1976: 170, e Veleio Patérculo é, nesse sentido, um caso exemplar: além de não cita o nome de César, atribuindo a um vago alii, ``outros'' (!), a sua proposta, ele dá enorme relevo ao discurso de Catão, cujo teor descreve em detalhe, e ao papel de Cícero, justamente um dos tópicos de tal intervenção). É possível, antes, defender a ideia de que, em sua descrição do debate, Bruni faz sua própria reconstrução dos fatos, com independência, a partir do confronto do discurso de Cícero com as exposições de Salústio e Plutarco.

7 Plutarco (Cic. 21.2–3) oferece uma interpretação mais matizada, atentando às ambiguidades da quarta Catilinária e observando que Cícero ponderou as posições de Décimo Silano e de Júlio César. Pode-se observar, nesse sentido, que a estratégia do Arpinate consistia em aparentar isenção, como moderador do debate, e equilíbrio, na pesagem dos pareceres e de suas potenciais consequências. Bruni, em contrapartida, mais taxativo, atém-se àquilo que, penso, via como o objetivo do orador, a despeito da pretensa postura isenta: dar a entender (24.4: ostendit), mais que explicitar, sua preferência pela proposta de Silano. Como quer que seja, ambas as interpretações são condizentes com o discurso ciceroniano. e críticos contemporâneos chegam a conclusões análogas às de Plutarco e Bruni: cf., por exemplo, Drummond 1995: 14 (“… in the Fourth Catilinarian Oration he [sc. Cicero] is careful to maintain a stance of studied neutrality in the senatorial debate itself'') e Dyck 2008: 207 (“He [sc. Cicero] indicates unmistakably his own preference for D. Silanus' proposal of the death penalty, if only on practical grounds).

8 Cf. Cic. Cat. 1.10 e 3.4 (com Dyck 2008: 85–86, para demais fontes e referências).

9 Fontes em Drexler 1976: 209–214..

10 A primeira edição é de 1996.

11 Tivemos acesso a esta excelente edição quando já havíamos completado a primeira versão deste trabalho. Por restrição de tempo e em respeito ao prazo estipulado pelos editores deste dossiê, pudemos apenas acrescentar, na versão final, algumas referências a pontos de maior relevância.

12 iudicantur na edição de Viti, por erro tipográfico.

13 Cf. Man. 1–3, em que Cícero, discursando pela primeira vez perante o povo reunido em assembleia, logo após sua eleição a pretor (em 66, apenas dois anos antes da eleição ao consulado), enfatiza e amplifica a autoridade que os romanos acabavam de lhe conferir, começando a pavimentar o caminho que o levaria à magistratura suprema.

14 Ascônio, em seu comentário ao In toga candida (82.4 C = 64.7 St.), oferece uma descrição mais detalhada dos candidatos e das dificuldades enfrentadas por Cícero: “Cícero teve seis concorrentes durante sua candidatura ao consulado: dois patrícios, Públio Sulpício Galba, Lúcio Sérgio Catilina; quatro plebeus, dentre os quais dois nobres, Gaio Antônio, filho do orador Marco Antônio, Lúcio Cássio Longino, e dois que não foram os primeiros de suas famílias a conquistar tão importante magistratura, Quinto Cornifício e Gaio Licínio Sacerdote. Dentre os concorrentes, apenas Cícero era de origem equestre. Além disso, ele perdeu o pai durante a candidatura. Seus demais concorrentes comportaram-se de maneira discreta: Quinto Cornifício e Galba revelaram-se homens prudentes e honestos; não se soube de nenhuma desonestidade da parte de Sacerdote; quanto a Cássio, embora parecesse então mais estúpido do que desonesto, revelou-se, poucos meses depois, que participara da conjuração de Catilina e defendera ideias das mais sanguinárias. Dessa maneira, esses quatro estavam atrás [na disputa], próximos. Quanto a Catilina e Antônio, embora suas vidas fossem as mais desonrosas de todos [os candidatos], tinham grande poder. De fato, os dois haviam se unido para afastar Cícero do consulado, contando com a poderosa ajuda de Marco Crasso e Gaio César. Dessa maneira, este discurso [sc. In toga candida] é dirigido apenas contra Catilina e Antônio.” É de observar, de passagem, que Ascônio se equivoca sobre a data da morte do pai de Cícero, ocorrida em novembro de 68 (cf. Att. 1.6.2).

15 Para fontes e detalhes do processo contra Catilina, que seria absolvido, cf. TLRR: caso 212.

16 Cic. Att. 1.2.1. Ao contrário do que a apresentação de Bruni pode sugerir, a carta data de 65, um ano antes da candidatura ao consulado. Cícero, naquele momento, fazia um planejamento de longo prazo para sua campanha (cf, nesse sentido, Att. 1.1.1–2). No manuscrito utilizado por Bruni (MS Harl. 3426, hoje na British Library, fo. 138; ref. em Pradelle 2008: 431), consta detractoribus (“detratores”), em lugar de rationibus (aqui, “planos", “projetos”), consenso das edições críticas modernas.

17 Fryde 1983: 46 aponta esta observação de Bruni como um de vários indícios de sua independência e rigor no uso das fontes: “He […] ignored Sallust by remarking that during the early part of Cicero’s consulate Catiline’s designs still remained hidden, as most modern scholars would agree”.

18 Sal. Cat. 23.5–6: “Sobretudo tal fato [sc. a denúncia da conjuração] inflamou nos homens o desejo de conferir o consulado a Marco Túlio Cícero. De fato, antes disso a maior parte da nobreza ardia de inveja, e acreditavam que o consulado seria como que maculado se um homem novo, ainda que egrégio, o obtivesse. Porém, quando se aproximou o perigo, a inveja e a soberba ficaram em segundo plano.” Tradução: Scatolin 2018: 40.

19 Trata-se de um dos grandes oradores da geração anterior a Cícero, um de seus mentores, juntamente com Marco Crasso, e, assim como este, escolhido como personagem protagonista do primeiro diálogo de Cícero, o De oratore.

20 O termo sententia (“proposta”, “parecer”) pode sugerir, erroneamente, que Catão propusera a honraria no Senado. Plutarco (Cic. 23.6), porém, fonte de Bruni aqui, deixa claro que Catão discursava na assembleia popular (ἐν τῷ δήμῳ), quando conferiu o título ao cônsul. No Senado, a proposta foi apresentada por Quinto Lutácio Cátulo. Cf. Cic. Pis. 6: “Foi a mim que Quinto Cátulo, líder desta Ordem e promotor da política pública, denominou ‘Pai da Pátria’, num Senado absolutamente lotado”.

21 Cícero proferiu o discurso De proscriptorum liberis (“Sobre os filhos dos proscritos") em resposta à iniciativa dos tribunos da plebe. O único fragmento supérstite do discurso é citado por Quint. 11.1.85 (cf. Crawford 1994: 205–211). Mais tarde, em Pis. 4, de 55, Cícero comentaria o seu posicionamento sobre a questão: “Eu, contraindo inimizades, mas sem provocar desaprovação ao Senado, privei do direito de participar das eleições jovens honestos e corajosos, mas acostumados a uma condição de vida tal que, se conquistassem magistraturas, perturbariam, ao que tudo indica, a estabilidade da República.”

22 Tanto Bruni como Plutarco apresentam uma versão incompleta da proposta de lei do tribuno Públio Servílio Rufo. De fato, o primeiro fala em distribuição de terras públicas, o segundo, em venda de bens (ou terras) públicos (πωλεῖν τὰ δημόσια). Na verdade, trata-se de uma combinação dos dois elementos. Leia-se a recente reconstrução que Manuwald 2018: xxi faz desse aspecto da proposta de lei: “The bill proposed arrangements to settle Roman citizens as subsistence farmers on land owned or acquired by the state […]. parcels of public land still available […] and cultivable land in Italy to be bought from willing private possessors […]. To acquire the necessary public funds to purchase land for distribution, of land outside Italy acquired or inherited since 88 bce […], a sale of land designated for sale since 81 bce […], an investigation into whether land outside Italy was public or private and a potential imposition of heavier taxes on land declared as public […], a sale of areas in Italy and Sicily […], a confiscation of the booty of generals that had not been paid into the treasury or spent on memorials and delivery of future booty […] as well as a collection of money received from new vectigalia after 63 bce (grifo nosso).

23 Segundo Lintott 2013: 150, em comentário a Plut. Cic. 12.2, fonte de Bruni para estas informações, a ideia de que os decênviros teriam autoridade para recrutar e pagar um exército é fantasiosa, derivando, possivelmente, da leitura incorreta dos discursos De lege agraria, seja em passo que não chegou a nós, seja em 2.95–97 — a que convém acrescentar 2.99, em que há a menção a vestris militibus,“vossos soldados", dirigido aos apoiadores da lei, e 3.16, em que Cícero tenta incutir medo no povo romano ao mencionar o recrutamento de exercitus contra vos, “exércitos contra vós”. Cf. também Manuwald 2018: xxvii.

24 Apenas duas fontes antigas, Plutarco (Cic. 12.3) e Dião Cássio (25.3), ligam o cônsul Antônio à proposta de lei agrária (cf. Manuwald 2018: xxv–xxvi). É de notar que a afirmação de Bruni é mais categórica do que a de Plutarco, que diz apenas: “Muita gente ilustre apoiava esta lei, e, antes de todos, António, o colega de Cícero, que esperava ser um dos dez (ὡς τῶν δέκα γενήσομενος)". Segundo Dião Cássio, os tribunos receberam o apoio de Antônio, que estava totalmente alinhado com eles. Tradução de Várzeas 2012: 120.

25 A Macedônia era uma província rica, que poderia permitir a Antônio equilibrar suas contas, dispensando-o de tomar parte na conspiração. A ironia é que, ao voltar da província, Antônio seria processado e condenado (não se sabe se por incompetência em campanha militar ou por cumplicidade na conjuração de Catilina), mesmo sendo defendido por Cícero. Cf. TLRR: caso 241.

26 Cf. Cf. Manuwald 2018: xxiii–xxiv (com bibliografia na n. 62).

27 As fontes, aqui, consistirão sobretudo nas Catilinárias, de Cícero, e na Conjuração de Catilina, de Salústio, que Bruni confronta com Plutarco.

28 A versão de Bruni é mais contida do que a de Salústio, em passo análogo (Cat. 14.1–3): “Numa cidade tão grande e tão corrompida, Catilina mantinha a seu redor, como guardas — o que era extremamente fácil de fazer — bandos de escândalos e delitos de toda espécie. De fato, todo aquele que, devasso, adúltero, glutão, dilacerara os bens paternos com os dados, o ventre, o pênis, bem como os que contraíram enormes dívidas para obter a absolvição de um escândalo ou delito; demais, os assassinos todos de toda parte, sacrílegos, condenados em julgamento ou no temor deste por seus atos; além disso, aqueles a quem a mão e a língua alimentavam com perjúrio ou sangue civil, todos, por fim, a quem atormentavam a desonra, a pobreza, a culpa — esses eram íntimos e familiares de Catilina.” Tradução: Scatolin 2018: 29–30.

29 Públio Cornélio Lêntulo Sura, cônsul, juntamente com Gneu Aufídio Orestes, em 71, fora expulso do Senado em 70, junto com outros 63 membros daquela Ordem (dentre os quais Gaio Antônio Híbrida, o futuro colega de Cícero no consulado), pelos censores Gneu Cornélio Lêntulo Clodiano e Lúcio Gélio Publícola (para fontes e detalhes, cf. MRR 2: 126–127). Lêntulo retomara o cursus honorum, sendo eleito para a pretura de 63 e, com isso, reconquistando seu posto no Senado.

30 Fésulas, cidade da Etrúria (atual Fiesole, na Toscana, situada a poucos quilômetros de Florença).

31 Bruni usa um argumento várias vezes utilizado pelo próprio Cícero para descrever as represálias que sofrera por sua atuação contra a conjuração de Catilina. Cf., por exemplo, de Orat. 1.3: “Efetivamente, quando jovem, deparei-me com a perturbação da antiga ordem, e, em meu consulado, cheguei ao centro da dissensão e da crise reinantes em toda a conjuntura; e, durante todo esse tempo após o consulado, lancei-me contra os vagalhões que, desviados por mim do que seria a ruína geral, recaíram sobre mim mesmo.” e Pis. 4 (“contraindo inimizades, mas sem provocar desaprovação ao Senado”; citação completa acima).

32 Bruni corrige a grafia equivocada do nome, em Plutarco (Cic. 27.4: Mallios).

33 Referência ao senatus consultum ultimum (“senátus-consulto último”). Cf. Sall. Cat. 29.2–3: “Assim, como é uso na maioria das situações de perigo, o Senado decretou que os cônsules cuidassem para que a República não sofresse detrimento. Esse é o maior poder conferido a um magistrado pelo Senado, segundo a tradição romana — aprestar um exército, promover a guerra, por todos os meios coagir aliados e cidadãos, ter máxima autoridade e arbítrio na paz como na guerra. De outro modo, sem o mando do Povo, o cônsul não tem direito a nenhum desses poderes." Tradução de Scatolin 2018: 44–45 (modificada). Para a problematização da medida, cujo estatuto é mais vago do que o passo salustiano dá a entender, cf. o artigo de Lundgreen em EAH: s.v. Senatus consultum ultimum, com bibliografia; para as fontes sobre o SCV em questão, cf. Drexler 1976: 129–131.

34 Bruni corrige Plutarco, que cita Márcio (desconhecido) e Cetego como os dois conspiradores escolhidos para assassinar Cícero. Segundo Fryde 1983: 46, Bruni teve o cuidado de confrontar os testemunhos de Cícero e Salústio sobre o status de Vargunteio (cavaleiro para o primeiro, senador para o segundo), optando pela versão de Cícero. Segundo a hipótese de Linderski 1963: 511512 (citado por Fryde), Vargunteio teria sido expulso do Senado, depois de sua condenação por crime eleitoral. A divergência das fontes se explicaria pelo fato de Cícero aludir, na primeira Catilinária (1.9), ao status de Vargunteio naquele momento (ou seja, 63, data do proferimento), enquanto a referência de Salústio seria a seu status original. Acrescentemos que Cícero tinha um zelo extremo com detalhes factuais em seus escritos, como se depreende da correspondência com Ático. Cf. Att. 13.20.2 e 13.44.3, para dois exemplos de minúcia factual na versão escrita de um discurso (o Pro Ligario), e Rawson 1972, para a sistematização da questão em Cícero.

35 Segundo o costume da salutatio (“saudação matinal”), os romanos eminentes recebiam, em suas casas, grande número de clientes. Estes aguardavam o patrono no átrio da casa, espécie de “espaço público” dentro do ambiente privado da domus romana. Depois de atendidos, eles acompanhavam o patrono até o fórum. Quanto mais numeroso o séquito, mais prestígio se conferia ao patrono. No caso dos conspiradores, o plano era se misturar aos clientes e, quando surgisse a oportunidade, atacar Cícero de surpresa. Quando se fala, portanto, em “fechar a porta", o que se tem em mente é algo bem diverso do equivalente moderno: trata-se do bloqueio do acesso ao átrio da casa do cônsul.

36 Trata-se da Primeira Catilinária.

37 Embora aluda ao episódio, Bruni se resguarda de citar o insulto de Catilina a Cícero, que certamente conhecia da monografia salustiana. Cf. Sall. Cat. 31.7: “que não julgassem que ele [sc. Catilina], um patrício, de quem, tal como de seus antepassados, provieram inúmeros benefícios à plebe romana, carecia da ruína da República, enquanto esta era salva por um Marco Túlio, cidadão inquilino da cidade de Roma.” Tradução de Scatolin 2018: 47.

38 A Porta Flamínia, ao norte da antiga Roma, situava-se no lugar onde hoje se encontra a Porta del Popolo.

39 Tribo celta da Gália Narbonense, submetida a Roma em 120.

40 Como bem observa Pradelle 2008: 455, n. 1, Bruni diverge, aqui, dos relatos de Salústio, Plutarco, Apiano e Dião Cássio, ao simplesmente eliminar de sua narrativa a figura de Catilina e o relato de sua derrocada e morte em combate. O motivo, claro está, é a seletividade programática de Bruni (cf. 18.1) no confronto da conjuração de Catilina, válida, em ampla medida, também para a obra como um todo (cf. 3 (da carta a Niccolò Niccoli): pro nostro arbitrio voluntateque [segundo nosso arbítrio e vontade], descrição do critério para o uso das fontes gregas e latinas na biografia).

41 Juv. 8.244.

42 Cf. Cic. Fam. 5.2.7 (carta a Quinto Metelo Céler, irmão do tribuno Metelo Nepos): “Ele [sc. Quinto Metelo Nepos], porém (tenho certeza de que você ouviu falar), no último dia do ano, infligiu-me um ultraje de que mesmo o mais desonesto cidadão jamais foi vítima, no exercício de alguma magistratura: depois de eu salvar a República, ele me privou da possibilidade de discursar na assembleia, no encerramento de minha magistratura. No entanto, esse ultraje que ele cometeu contra mim proporcionou-me uma enorme honra. De fato, como ele não me permitia senão prestar o juramento, prestei, em voz alta, um juramento verídico e belíssimo, que o povo, também jurando, confirmou como verídico." Cf. ainda Cic. Pis. 6.

43 Pompeu pode não ter sido hostil a Cícero ao voltar a Roma, mas certamente recebeu de maneira gélida a carta aberta (não supérstite) que o Arpinate lhe escrevera, como se depreende das queixas feitas diretamente ao comandante, em Fam. 5.7 (sobre esse episódio, leiam-se também também Sul. 67; Planc. 85 e Schol. Bob. 148.9–20 Hildebrandt).

44 Cf. Cic. Off. 1.78: “Posso muito bem, Marco, meu filho, vangloriar-me para você, a quem cabe herdar esta glória e imitar minhas ações. Foi a mim, de toda forma, que um homem coberto de louvores bélicos, Gneu Pompeu, concedeu [a honra] de afirmar que teria obtido seu terceiro triunfo em vão, se não tivesse, pelo serviço que eu prestara à República, um local para o celebrar.”

45 Sobre as oscilações da amicitia de Cícero e Pompeu, cf. Pradelle 2008: 459, n. 3.

 

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