Todas as eras foram da pós-verdade: um passeio pelo doublethink nosso de cada dia

Arthur Aroha Kaminski da Silva*

Resumo: Este artigo visa se contrapor à algumas afirmações que surgiram no início dos anos 2000, mas que se proliferaram em meios midiáticos quando do anúncio do termo post-truth como palavra do ano de 2016 pelo grupo Oxford dictionaries. Tais afirmações dão conta de que viveríamos, hoje, no século XXI, a “era da pós-verdade”. A proposta de contraposição a estas alegações se dá, aqui, pelo enfileiramento de alguns exemplos contidos em narrativas ficcionais que demonstrarão que a prática das políticas da pós-verdade preexistem, em muito, o século XXI. A exposição se baseará no cruzamento de informações e conceitos contidos em obras como 1984 (de George Orwell), Matrix (das irmãs Wachowski), e Contos Amazônicos (de Inglês de Sousa), com as proposições teóricas sobre a relação entre verdade, ficção e política como elaboradas por autores como Pierre Bourdieu, Jacques Rancière, Juan José Saer, Umberto Eco, entre outros. 
Palavras-chave: Pós-verdade, doublethink, ficção, realidade.
1. Introdução: da ideia de pós-verdade

Antes de mais nada é preciso que eu admita que o passeio a que invito você hoje, leitor, tem um objetivo. É uma proposta de contraposição à afirmações que se proliferaram em meios midiáticos na passagem do ano de 2016 para 2017, no sentido de alegar que vivemos, hoje, a “era da pós verdade”.[1] Estes textos retomam a abordagem da questão como proposta por Ralph Keyes, em seu livro The post-truth era, publicado em 2004. E são impulsionados pela declaração do Oxford dictionary de que o termo post-truth foi eleito a palavra do ano de 2016.[2] E pelos contextos do Brexit, (como foi apelidada a saída do Reino Unido da União Europeia), e da eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos da América. Eventos ocorridos no mesmo ano e que se mostraram ricas fontes de exemplos da política cultural que hoje chamamos políticas da pós-verdade.

A pós-verdade, como nos explica o dicionário Oxford é um adjetivo que “se relaciona ou denota circunstâncias em que fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.[3] Ele não se refere necessariamente à falsificação da verdade (embora possa também passar por isso), mas mais especificamente à situações em que a “verdade” ou o “fato” é tido como pouco relevante. Ou seja, algo a que todos estamos habituados, certo? Vemos (e fazemos) isso diariamente, tanto no plano político quanto no pessoal. É uma prática humana atemporal. Daí a minha contraposição à ideia de que vivemos na “era da pós verdade”, como propõe os textos que citei no primeiro parágrafo.

Por contraposição, caro leitor, não pretendo dizer que discordo do fato de vivermos numa era de pós-verdade. Mas discordo, sim, de que este momento da história humana seja o ápice desta política cultural. Minha contraposição se baseará na defesa de que, em fato, esta é uma política cultural que existiu e se manteve em uso constante e corrente em toda a história humana. Que ela é parte da nossa própria capacidade de construir conhecimento. Em suma que, para bem ou para mal, todas as eras foram da pós-verdade. E que este “novo termo” - visto que data do final do século XX -,[4] é apenas uma nova roupagem para uma questão que sempre foi importante para a Filosofia, a História, a Literatura, e diversas outras áreas enquanto disciplinas.

Para defender este posicionamento é que o convido a me acompanhar neste passeio. Que se trata de uma caminhada em forma reflexiva e textual por algumas narrativas ficcionais que tocam, de alguma maneira, na questão da política da pós-verdade. Admito também que a seleção das narrativas ficcionais que aqui abordaremos se deu de maneira arbitrária – leia-se, elas estão aqui presentes porque eu quis assim -, e poderiam ter sido facilmente outras a servirem de exemplos para esta discussão. Desta forma, citarei aqui algumas obras literárias que me apetecem, levando você leitor a comigo margear os rios amazônicos e conviver com alguns dos medos da população ribeirinha paraense do fim do século XIX, através do conto Voluntário, de Inglês de Sousa. A se rebelar e sofrer junto com Winston ao descobrir a extensão e poder da prática do doublethink no romance distópico 1984, de George Orwell. E a refletir sobre a decisão de Cypher, que no filme Matrix das irmãs Wachowski levanta a questão: é preferível encarar a dureza da realidade, ou viver confortavelmente nas ilusões da caverna do mito platônico, como o personagem conscientemente escolheu? Ademais, para nos acompanhar em nossas trajetórias ficcionais ao longo deste artigo, irei propor o cruzamento destas narrativas com questões teóricas sobre a relação entre realidade, ficção e política conforme propostas por autores como Pierre Bourdieu, Jacques Rancière, Juan José Saer, Umberto Eco, entre outros. Agora, feitos estes esclarecimentos e introdução, comecemos nossa caminhada.

2. Do mito das identidades nacionais, e das utilidades e efeitos destas ficções

O primeiro texto que eu gostaria de abordar é o conto Voluntário, texto presente no livro Contos Amazônicos, de Inglês de Sousa.[5] Este conto é ambientado na província do Grão-Pará, Amazônia brasileira, e ronda a questão do alistamento militar forçado praticado pelo Império Brasileiro à sua população durante o período dos conflitos da Questão Platina, mais especificamente na Guerra do Paraguai. O texto inicialmente foca na descrição da rotina de uma tapuia,[6] dona Rosa, uma viúva que vive com seu único filho vivo, Pedro, em uma casa muito simples na beira do rio Amazonas. Eles vivem como a grande maioria dos tapuios “colonizados”: em condição de pobreza, e sobrevivem à custa do trabalho do filho, que é pescador, e do próprio trabalho de Rosa como tecelã. Sendo estas as fontes de alimento e renda da família, que é descrita como feliz em sua vida bucólica e contemplativa.

As primeiras menções ao Império vêm de maneira banal nesta parte: primeiro que o filho da tapuia é xará do Imperador. E depois conta-nos o narrador que dona Rosa dormia numa rede ornamentada com a coroa brasileira, obra de “ingênuo gosto” (SOUSA, 2005, p.24) da própria tapuia. É de um simbolismo muito forte a imagem da velha índia “dormindo ingenuamente nos braços do império”, visto o que (como veremos) se sucede no conto, e pela relação com a imagem produzida no fim, da índia cantarolando uma ode a D. Pedro II, anestesiada já após sua tragédia pessoal.[7] Pois após a pacata introdução nos é apresentado o contexto da guerra (SOUSA, 2005, p. 26-27), e são descritos os efeitos iniciais da deflagração do conflito na sociedade amazonense: a empolgação das classes mais favorecidas, e o medo do “povo miúdo”.

É-nos narrada brevemente, então, a campanha nacional operada pela monarquia brasileira em busca de voluntários para lutar na Guerra do Paraguai. E a ironia do uso do termo “voluntário” que intitula o conto, e que o Império dizia buscar, logo se faz muito visível. Já que, em fato, o que ocorria era um alistamento forçado, ou mesmo uma campanha de rapto de jovens de famílias pobres, que eram enviados para o Rio de Janeiro e posteriormente para o front paraguaio à força. Grande parte destes jovens morria ainda no caminho, pela má alimentação e doenças, e outros morriam no front, de forma que muito poucos acabavam por voltar. Daí se pode entender o terrível medo da população pobre amazonense em relação à imagem criada pela imprensa e pelo boca a boca da época para a figura de Solano López, governante paraguaio, que faziam com que os tapuios amazonenses, segundo o narrador do conto, imaginassem o presidente como um “monstro devorador de carne humana” (SOUSA, 2005, p. 26).

Na sequência da narrativa, Pedro, filho de dona Rosa, acaba sendo “voluntariado” para a guerra. E é aí que o narrador do conto se apresenta ao leitor, se identificando como o advogado ao qual a tapuia Rosa implorou ajuda para libertar o filho da prisão a que fora submetido, enquanto aguardava o transporte dos ditos “voluntários” até o Rio de Janeiro (SOUSA, 2005, p.32).  É pela voz dele que ouvimos a narrativa dos horrores do recrutamento e do que proponho como relacionável com a política da pós-verdade: segundo ele, a ignorância dos “rústicos patrícios” (elite dominante, de origem portuguesa) era agravada pelas “fábulas ridículas editadas pela imprensa oficiosa, dando ao nosso governo o papel de libertador do Paraguai (embora contra a vontade do libertando o libertasse a tiro)” (SOUSA, 2005, p. 26-27). E faziam com que esta elite extravasasse seus preconceitos e privilégio social e operasse o alistamento forçado à população tapuia de forma violenta.

Estas “fábulas ridículas” a que o narrador do Voluntário se refere foram os discursos que o Império brasileiro utilizava para justificar sua política intervencionista. Como todo praticante de políticas imperialistas, o governo brasileiro justificava suas ações como necessárias para o bem não só da própria população, mas como uma ação necessária para o invadido. Creio que enquanto testemunhas de diversos conflitos militares ao longo dos séculos XX e XXI, todos sabemos como isso funciona.[8] No contexto específico da Questão Platina (do qual a guerra do Paraguai foi só um dos conflitos), o que ocorreu foi um confronto entre três nações de ambições imperialistas (Brasil – Argentina – Paraguai) que, por serem vizinhas, viram seus projetos expansionistas se chocarem.[9]

Agora pergunto a você, leitor: é possível imaginar os tipos de discursos oficiais que foram produzidos no período, não? Quantas “fábulas” - como diz o narrador do Voluntário -, foram elaboradas para justificar os conflitos e para fortalecer (ou mesmo criar) um sentimento de identidade nacional nestas nações recém-fundadas. Não é à toa que em seu livro A identidade cultural na pós-modernidade, Stuart Hall tenha escolhido nomear um capítulo como As culturas nacionais como comunidades imaginadas. Nele, Hall explica que uma “(...) nação não é apenas uma entidade política mas algo que produz sentidos – um sistema de representação cultural”. Um sistema do qual as pessoas fazem parte não só como cidadãos, mas pela participação na ideia de nação. Concluindo que “uma nação é uma comunidade simbólica e é isso que explica seu poder para gerar um sentimento de identidade e lealdade” (HALL, 2011, p. 49) A ideia de nação, então, é um discurso que se constitui por uma narrativa que vincula a percepção de identidade do indivíduo às histórias, literatura e cultura popular. A própria ideia de nação, se vê, perpassa uma política cultural baseada no apelo à emoção, a crenças religiosas, e a preconceitos em detrimento da objetividade factual. Bem como a necessidade da guerra sempre perpassa esta prática. A política da pós verdade definitivamente não é um fenômeno característico do século XXI.

No caso do conto Voluntário acho interessante atentar, entretanto, não à construção do discurso. Mas sim à “utilidade” que muitos encontram no discurso construído. Relata o narrador que, durante o período de recrutamento forçado, um fenômeno social ocorreu:
Foi então que se mostrou em toda a sua hediondez a tirania dos mandões de aldeia. Os graúdos não perderam a ocasião de satisfazer ódios e caprichos, oprimindo os adversários políticos que não sabiam procurar, a serviço de abastados e poderosos fazendeiros, proteção e amparo contra o recrutamento, à custa do sacrifício da própria liberdade e da honra das mulheres, filhas e das irmãs (SOUSA, 2005, p.27).
Ou seja, “comprar” o discurso nacionalista, a empolgação da guerra e da necessidade de intervenção, em fato servia aos “graúdos” (mas não só a eles) como a justificativa que necessitavam para pôr em prática ações que, comumente, não lhes seriam possíveis por questões legais: se você cometesse um assassinato, você seria, em teoria, preso. Mas se você, utilizando influência política ou monetária (como se as duas coisas pudessem ser dissociadas), ou mesmo uma denúncia ou o que quer que seja, levasse um rival a ser recrutado (e muito provavelmente morto na guerra), não haveria crime. Situações como a da campanha de recrutamento citada no Voluntário permitiam uma limpeza étnica autorizada pelo Estado. Algo que se ilustra em outra fala do narrador:
Corri à praia, onde era imensa a aglomeração de povo à espera do vapor que vinha entrando a boca do largo Tapajos, em busca dos futuros defensores da pátria. Eram vinte rapazes tapuios os que a autoridade obrigava representar a comédia do voluntariado (SOUSA, 2005, p. 33).
Claro, a longo prazo situações como esta levaram a levantes armados por parte das incontáveis populações e povos generalizados pelos portugueses sob o termo de “tapuios”.[10] Mas como explicita o narrador – e neste caso acho possível considerar, para além do caráter ficcional, o Voluntário como um relato fiável historicamente, já que o autor imprime em seus textos um período que vivenciou[11] –, entre os tapuios, inicialmente, o efeito foi a criação de um temor gigantesco em relação a um nome: Solano López, o bode expiatório das elites e do império para todas estas práticas opressoras e de exploração. E aqui creio que encontramos um bom ponto para erigir uma ponte entre as margens do Amazonas e o distópico mundo de 1984, de Orwell.

3. Do poder sobre a verdade, e da satisfação pela opressão

1984, livro de George Orwell publicado em 1949, é ambientado numa sociedade distópica governada por um regime autoritário que faz uso de um complexo sistema de política da pós-verdade e controle midiático. A construção do ódio pelo outro é o atalho que sugiro tomarmos entre os dois textos: assim como em Voluntário o narrador cita Solano López como a entidade que o discurso imperial brasileiro e o imaginário popular construíram para expiar as mazelas de sua sociedade e digo entidade porque o que esse imaginário construiu é obviamente outro ser que não o mesmo que o Solano López “real”. A distopia de Orwell também tinha seus bodes expiatórios, ilustrados por um perseguido político taxado de traidor (Emmanuel Goldstein), e também pelas nações vizinhas inimigas que seriam culpadas pela “necessidade da guerra”. E meu convite agora, leitor, é para que acompanhemos Winston, o protagonista desta obra de Orwell, em suas descobertas sobre uma das técnicas utilizadas pelo governo de sua nação para manter o controle sobre sua população. Método que Orwell chamou doublethink. E que, como veremos, é menos uma imposição, e mais um incentivo à capacidade que nós enquanto humanos temos de defender/acreditar em duas coisas opostas ao mesmo tempo. E à possibilidade de conscientemente optarmos por aprofundar esta capacidade de modo tão intenso que a contradição se torna inconsciente. Algo que, creio, seja relacionável e ilustre bem a política cultural que discutimos neste artigo.

O 1984 é protagonizado por Winston, um funcionário qualquer do Ministério da Verdade, cujo trabalho era editar dados e notícias passadas e presente em função do interesse do chamado Partido (grupo dominante). Winston, conforme vamos percebendo ao longo da leitura, parece ser um pouco mais consciente e/ou problematizador do que a maioria de seus colegas em relação à condição em que vivem. E ele faz algumas análises interessantes sobre como as pessoas lidam com a realidade em que se inserem, enquanto nos explica a conduta do doublethink. Prática que é por ele definida como:
É saber e não saber, é ser consciente da completa verdade enquanto conta mentiras cuidadosamente construídas, é manter simultaneamente duas opiniões que se cancelam, sabendo-as contraditórias e efetivamente acreditando em ambas, é usar a lógica contra a lógica, é repudiar a moralidade ao mesmo tempo em que clama por ela, (...) é esquecer qualquer fato que tenha se tornado inconveniente e, quando for necessário, trazê-lo de volta à mente pelo tempo necessário, para em seguida esquecê-lo outra vez. É, acima de tudo, aplicar o mesmo processo ao próprio processo – esta é a suprema sutileza: conscientemente induzir a inconsciência e depois, mais uma vez, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que você acabara de realizar (ORWELL, 1961, p. 35).[12]
Claro, em princípio Orwell se referia a seu universo distópico. Mas agora pergunto a você leitor: já praticaste ou conhece alguém que pratica ou praticou algo similar ao doublethink? Você, como eu, vê similaridades entre o termo cunhado por Orwell e o termo eleito pelo Orxford dictionaries o mais popular de 2016? Entre o doublethink e a prática da política da pós-verdade? Sei que a pós-verdade não necessariamente se refere à falsificação direta de fatos históricos, algo que Winston ajudava a fazer, mas o próprio narrador de 1984 nos relata que Winston não era o único que tinha consciência do que ocorria. Se parte dos membros do partido “comprava” inconscientemente as verdades fabricadas, outra boa parcela tinha plena consciência da falsidade de determinadas notícias e discursos. Estes, porém, forçavam a própria inconsciência: se auto infligiam um processo de naturalização e aceitação destas verdades fabricadas. Conscientemente relegavam os fatos ao segundo plano, se deixando moldar pelo discurso baseado no apelo à emoção. Ou seja, se tornavam praticantes da política da pós-verdade.

Um exemplo pontual é o personagem chamado Syme, empregado do mesmo ministério em que Winston trabalhava. Ele é descrito como um intelectual, mais especificamente um filólogo, parte de um grupo responsável pela reelaboração do idioma falado na nação distópica criada por Orwell. E segundo o narrador, era um exemplo complexo da potencialidade do doublethink: era visível que Syme era plenamente consciente de todas as atrocidades cometidas pelo regime que apoiava, mas, adepto e praticante do doublethink, naturalizava o processo do qual fazia parte. Convencia a si mesmo de que os fatos eram pouco relevantes frente ao potencial de coisas que aquele contexto permitia a ele: financiamento às suas pesquisas e perseguição aos proles (ORWELL, 1961, p. 48-63).

Os Proles,[13] como também descobrimos através da convivência com Winston, consistiam em todos aqueles que não eram membros oficiais do Partido. Eram as classes sociais menos abastadas, que viviam em situação de extrema pobreza, e que eram vistas sob um filtro de preconceito pelos membros do Partido. Syme, por exemplo, chega a se referir aos proles como “não humanos” (ORWELL, 1961, p. 52). E aqui, leitor, proponho que ampliemos nossa ponte construindo no sentido inverso. Para voltarmos rapidamente ao conto Voluntário, e relembrarmos o quanto a política da pós-verdade é útil para grupos extravasarem seus preconceitos. Poderíamos falar novamente também da atualíssima eleição de Donald Trump, evento bastante real carregado de possíveis exemplos relacionáveis. Mas tais reflexões deixarei que faças sem minha companhia, visto que meu foco neste artigo se manterá em obras de cunho ficcional. Ainda que, como bem saibamos, por vezes a ficção e a realidade se entrelacem em nós que não se permitem desamarrar. Laço este que pode nos servir de convite, caro leitor, a passearmos também por um dos bosques ficcionais de Umberto Eco, em seu livro Seis passeios pelos bosques da ficção.

4. Da compreensão e controle da realidade através da ficção

Proponho esta incursão porque, no capítulo Protocolos ficcionais, Eco traz algumas reflexões interessantes sobre o quanto as fronteiras entre realidade/veracidade e ficcionalidade/mentira são liquefeitas. Propondo, por exemplo, o seguinte questionamento: “se a atividade narrativa está tão intimamente ligada a nossa vida cotidiana, será que não interpretaremos a vida como ficção e, ao interpretar a realidade, não lhe acrescentamos elementos ficcionais?” (ECO, 1994, p. 137). Uma forte indagação que proponho encararmos sob a luz do termo que, conforme explica o fictício livro proibido de Goldstein (parte do imaginário universo de 1984), é “o sistema de pensamento que engloba todo o resto, e que é conhecido em Newspeak[14] como doublethink” (ORWELL, 1961, p. 212). Sistema este que “é aprendido pela maioria dos membros do Partido, e certamente por todos que são inteligentes, bem como ortodoxos. Em Oldspeak é chamado, francamente, ‘controle de realidade’” (ORWELL, 1961, p. 214). Voltamos, então, à prática do doublethink como proposta por Orwell, que a define (através do virtual livro de Goldstein) da seguinte maneira:
Doublethink significa o poder de manter duas crenças contraditórias na mente simultaneamente, e aceitar ambas. O intelectual do Partido sabe em que direção suas memórias devem ser alteradas; Ele sabe, portanto, que está praticando truques com a realidade; Mas pelo exercício do doublethink ele também se convence de que a realidade não é violada. O processo tem que ser consciente, ou não seria realizado com suficiente precisão, mas também tem de ser inconsciente, ou traria consigo um sentimento de falsidade e, consequentemente, de culpa. (...) (Doublethink é) contar mentiras deliberadas enquanto genuinamente acredita-se nelas, é esquecer qualquer fato que tenha se tornado inconveniente, e então, quando for necessário novamente, trazê-lo de volta do esquecimento pelo tempo necessário. É negar a existência da realidade objetiva e, durante todo o tempo, levar em conta a realidade que se nega – tudo isto é indispensavelmente necessário. Mesmo o uso da palavra doublethink torna necessário o exercício do doublethink. Pois, ao usar a palavra, o praticante admite que alguém está adulterando a realidade, mas, por um novo ato de doublethink, apaga esse conhecimento; E assim indefinidamente, com a mentira sempre um salto à frente da verdade (ORWELL, 1961, p. 214).
O doublethink como imaginado por Orwell é, então, o controle em máxima instância de um indivíduo sobre sua própria cognição. Em oposição à ignorância ou falta de conhecimento, é a plena consciência da existência de todos os filtros interpretativos pelos quais encaramos o mundo ao nosso redor. É a seleção consciente de quais filtros aceitaremos e colocaremos entre nós e o mundo. E um posterior processo de indução do esquecimento de que tal escolha consciente foi feita. É uma naturalização do discurso escolhido conscientemente induzida, a ponto de que o próprio indivíduo se torne inconsciente de que, inicialmente, fora consciente desta escolha. E, talvez, cruzando a descrição deste sistema de pensamento com as palavras de Umberto Eco, possamos utilizar o conceito do doublethink para compreender o comportamento humano no plano da realidade. Quiçá ele possa ser uma proposição útil para compreendermos a maneira pela qual interpretamos a realidade. O modo pelo qual, como sugere Eco, interpretamos a vida como ficção e, ao interpretar a realidade, a acrescemos de elementos ficcionais (ECO, 1994, p. 137). A fim de que a encaremos como nos convém e, por meio de uma auto indução, tornemo-nos inconscientes de nossa própria escolha. Talvez. Mas, antes que nossas mentes deslizem ainda mais fundo no mundo labiríntico do doublethink, e para que não nos percamos nestes tortuosos corredores, deixemos que Eco nos puxe daqui para uma de suas histórias.

No capítulo Protocolos ficcionais do já citado Seis passeios pelos bosques da ficção, Eco nos conta uma história que ele mesmo define como espantosa e que, mesmo sendo puramente ficcional, foi e é tida por muitos como factual. Neste capítulo, Eco relata parte de uma pesquisa temática que realizou e que posteriormente utilizou como base para a criação de um romance, o Cemitério de Praga (2010). Resumindo de maneira grosseira: Eco discorre sobre a origem do texto nomeado Protocolos dos sábios do Sião, obra de origem puramente ficcional escrita e reescrita por diversos autores, que relata um projeto de dominação mundial encabeçado por lideranças religiosas judaicas. É um “documento” ficcional onde os judeus declaram abertamente ambições de dominação e de corrompimento e destruição das instituições e nações europeias. Ocorre que este texto (em incontáveis versões adulteradas por incontáveis punhos) foi utilizado e apresentado como relatório oficial sobre investigações de seitas religiosas a diversos governos europeus durante o fim do século XIX e ajudou, sugere Eco, a fomentar o antissemitismo na Europa (ECO, 1994, p.123-148).[15]

A temática da falsificação de documentos e das relações entre realidade e ficção são temas recorrentes na obra de Eco, como bem sabemos. Mas considerei pertinente apontar este caso específico por considerá-lo um exemplo muito forte. Uma demonstração poderosa de como é uma constante histórica a política da pós-verdade: provavelmente na própria época muitos desses relatórios eram sabidos ficcionais. Mas a verdade pode ser pouco relevante quando um grupo ou sociedade procura justificar seus preconceitos, ou quando pretende um debate ou discurso moldado pelo apelo à emoção. Diz Eco que “já que a ficção parece mais confortável que a vida, tentamos ler a vida como se fosse uma obra de ficção” (ECO, 1994, p.124). Ou seja, aplicamos um doublethink sobre as situações em que nosso senso de justiça vai de encontro a um preconceito, por exemplo.

5. Da escolha consciente pela inconsciência

Agora, para nos direcionarmos ao final de nosso passeio, leitor, – e peço desculpas se já o cansei com minhas divagações – gostaria de propor um flerte com outra narrativa de ficção, a fim de ruminarmos só um pouco mais esta questão da escolha consciente por nublar nossa própria visão da realidade com uma ficção mais confortável. No filme Matrix (1999), das irmãs Wachowski, há um personagem que toma uma decisão marcante: a de voltar para a caverna. Explico: esta franquia, segundo as próprias autoras, foi inspirada em obras de diversos filósofos,[16] dentre as quais a mais direta ligação que se pode fazer é com o Mito da caverna de Platão. No primeiro filme da trilogia acompanhamos Neo, o protagonista (interpretado por Keanu Reeves), passando pelo processo de saída da caverna. Pela descoberta da limitação da própria capacidade interpretativa frente à realidade. Por uma tomada de consciência de que vivia, como sugere Platão, num mundo de sombras (PLATÃO, 2006, p.307-344). De meias verdades ou de ficções.

Mas não pretendo me estender detalhadamente sobre isso agora, leitor, pois já existem incontáveis produções que discorrem sobre o paralelo entre Matrix e o Mito da caverna, e este não é o objetivo aqui. O que me interessa é citar o personagem Cypher (interpretado por Joe Pantoliano), que após ter sido libertado da caverna e tido contato com a realidade, toma a decisão de que prefere viver na caverna. No filme, Cypher acaba assumindo o papel de vilão: é o traidor que quase causa a morte do protagonista. Mas creio ser importante olhar para o personagem sem vilanizá-lo, e refletir racionalmente sobre a escolha dele: é uma escolha pelo conforto, por encarar o mundo através de determinados filtros, por não sentir determinadas emoções tão intensamente. É uma escolha por saber e não saber. É ter o poder de relegar a verdade ao segundo plano e se tornar inconsciente do que nos cerca. É, também, a escolha por se auto induzir à uma inconsciência sobre a própria escolha. E a consciência desta escolha, assim como a escolha pela inconsciência, ficam muito claras no diálogo entre Cypher e o agente Smith (personagem de Hugo Weaving), durante jantar em que estão negociando sua volta à Matrix:
Smith: – Temos um acordo, senhor Reagan?
Cypher: – Sabe, eu sei que este bife não existe. Eu sei que quando o coloco na minha boca a Matrix está dizendo ao meu cérebro que ele é suculento e delicioso. Depois de nove anos você sabe o que eu percebi? Ignorância é uma benção.
Smith: – Então temos um acordo?
Cypher: – Eu não quero lembrar de nada. Nada! Você entende?
(...)
Smith: – O que você quiser, senhor Reagan (MATRIX, 1999).[17]
Assim, por ser exatamente neste ponto que procurei focalizar este artigo: no ato consciente de considerar a verdade irrelevante, de torná-la secundária frente aos nossos interesses ou valores pessoais. Principalmente como forma de nós, enquanto seres humanos, extravasarmos nossos preconceitos em relação ao outro, ou nos sentirmos confortáveis com nossa própria existência e decisões. E com os olhos ainda na resolução de Cypher, é que pergunto a você leitor: quantas vezes todos nós tomamos decisões similares a esta? Quantas incontáveis vezes optamos por uma ignorância seletiva, por um apagamento metódico do conhecimento de determinadas informações e conhecimentos, em nome de nosso maior conforto? Quantas vezes induzimos nossa própria inconsciência sobre nossas ações a fim de afastar, como sugeriu Orwell, o sentimento de culpa que podem gerar? Seríamos todos nós, seres humanos, utilizadores do sistema de pensamento a que Orwell chamou doublethink?

6. Da fantasia do lugar da verdade, ou da indissociabilidade da verdade e da ficção.

A resposta para tais questões talvez esteja na maneira como lidamos com a relação entre verdade e ficção. E na reflexão sobre as políticas da pós-verdade que, reitero, definitivamente não são uma prática exclusiva do século XXI ou da popularização da internet. Mas sim um sistema de pensamento e comportamental existente há milênios. Para mim, a ideia de que o uso deste sistema se aprofundou na pós-modernidade se baseia numa premissa da qual discordo: a de que o jornalismo ou disciplinas como a História, um dia, já tiveram acesso a informações “reais”, à uma suposta real natureza das coisas. Numa concepção de dependência hierárquica entre verdade e ficção.

Em seu texto Reflexões sobre a pesquisa histórica, a ficção e as artes (presente no livro História e Arte: encontros disciplinares), Rosane Kaminski nos explica, citando Hayden White e Michel de Certeau, que a separação entre ficção e verdade vem de uma linha de pensamento construída no século XIX entre os próprios historiadores. Que passaram a “(...) identificar a verdade com o fato e considerar a ficção o oposto da verdade, portanto um obstáculo ao entendimento da realidade e não um meio de apreendê-la” (WHITE apud KAMINSKI, 2013, p. 68). Num processo de desenvolvimento, por parte da História enquanto disciplina, de práticas e convenções “(...) para que o discurso histórico fosse percebido como o lugar da verdade do passado” (CERTEAU apud KAMINSKI, 2013, p. 68). Algo similar, talvez, ao que fez/faz o jornalismo no sentido de produzir um discurso de lugar da verdade do presente. Estas são convenções que Kaminski questiona, propondo que “a ficção não é necessariamente incompatível com a ideia de verdade” (KAMINSKI, 2013, p.66). E tendo, leitor, a concordar com esta pesquisadora sobre tal questão. Bem como me inclino a consentir com algumas proposições que Juan José Saer faz em seu livro El concepto de ficción. Asserções que, se sob um primeiro olhar podem parecer fortes, creio que podem se somar positivamente às reflexões propostas em nosso passeio. Saer resume, por exemplo, o embate valorativo existente no seio das non-fictions (fidelidade à realidade versus ficcionalidade) da seguinte maneira:
Podemos portanto afirmar que a verdade não é necessariamente o contrário da ficção, e que quando optamos pela prática da ficção não o fazemos com o propósito obscuro de perverter a verdade. E a dependência hierárquica entre verdade e ficção, segundo a qual a primeira possuiria uma positividade maior que a segunda, é certamente, no plano que nos interessa, uma mera fantasia moral (SAER, 2014, p.10-11).[18]
Tal consideração de Saer se dá porque, embora enquanto produção literária “a ficção se mantenha à distância tanto dos profetas do verdadeiro como dos eufóricos do falso” (SAER, 2014, p.12). Ela é um tratamento específico do mundo, inseparável do que trata. Ficção e realidade são indissociáveis, pois uma se ancora na outra. As ficções, os “enunciados políticos e literários” – e aqui cito Rancière – são, afinal, construções intencionais que fazem parte de um “saber cultural”, são produtores de sentido que interferem em nossa percepção do mundo, que fazem efeito no real (RANCIÈRE, 2009, p. 59). Por isto Saer (falando em primeira instância do gênero biográfico, mas depois também de todos os gêneros que se autodenominam non-fiction),[19] também afirma que:
(...) A veracidade, atributo supostamente científico, nada mais é que a retórica de um gênero literário, não menos convencional do que as três unidades da tragédia clássica, ou o desmascaramento do assassino nas últimas páginas do romance policial. A rejeição escrupulosa de todo elemento ficcional não é um critério de verdade. Posto que o próprio conceito de verdade é incerto e sua definição integra elementos díspares e até mesmo contraditórios, é a verdade como objetivo unívoco do texto e não apenas a presença de elementos ficcionais que merece (...) uma discussão minuciosa (SAER, 2014, p. 10).
Assumindo assim um tom crítico ao que considera uma pretensão “científica” inalcançável por parte de obras que se propõe a contar a “verdade” sobre a vida de uma pessoa ou sobre eventos já ocorridos. E propondo que as non-fictions são, em fato, gêneros literários que não diferem necessariamente de uma obra de ficção. Uma teoria que se mostra interessante no contexto deste artigo, pois propõe retirar tais gêneros do pedestal regido por um discurso de detentor da verdade, de caráter documental, e aproximá-los de outros gêneros literários. Apontando que não é possível garantir a veracidade crua de qualquer informação, mesmo nestes gêneros tidos como “mais fiáveis”. De jornais a documentários, de relatos históricos e biográficos a textos acadêmicos, é impossível afirmar com segurança que qualquer texto é imune à ficcionalidade.[20]

É importante esclarecer, entretanto, que este tom crítico de Saer se dá não em relação ao gênero da não ficção em si, mas sim ao discurso que propõe ele como oposto à ficção. O pensamento de Saer se alinha ao do já citado Jacques Rancière, que no livro A partilha do Sensível: estética e política aborda, entre outros tópicos, a relação entre a racionalidade ficcional ou “razão das ficções” – já que a ficção possui formas e regras de ordenamento e composição próprias –, e os modos existentes de explicação da realidade histórica e social, que ele nomeou “razão dos fatos”. Discussão presente principalmente no quarto capítulo, nomeado Se é preciso concluir que a história é ficção, em que Rancière cutuca uma das questões mais polêmicas da disciplina de História: a relação entre literatura e história, entre ficção e realidade. E procura questionar ou mesmo revogar a linha de divisão aristotélica entre a história do historiador e do poeta. Para Rancière, a “realidade” dos fatos é algo desordenado. É o discurso historiográfico que, fazendo uso de elementos convencionados pela racionalidade formal da ficção, confere uma aparência de ordem ao narrar fatos.
Dito de outro modo – e isso é evidentemente algo que os historiadores não gostam muito de olhar de perto –, a nítida separação entre realidade e ficção representa também a impossibilidade de uma racionalidade da história e de sua ciência. A revolução estética redistribui o jogo tornando solidárias duas coisas: a indefinição das fronteiras entre a razão dos fatos e a razão das ficções e o novo modo de racionalidade da ciência histórica (RANCIÈRE, 2009, p.54).
Ou seja, para Rancière a própria existência da História enquanto disciplina só é possível através da aceitação da não existência de uma separação clara do literário. Pois a própria escrita da história se faz pela linguagem. E sendo a linguagem uma convenção, ela está sempre sujeita a filtros de interpretação subjetiva e variável. Filtros estes que talvez escolhamos – ainda que “não recordemos” –, através de um sistema que Orwell escolheu nomear doublethink. Adaptando a fala de outro teórico: é bem provável que a definição de [verdade][21] seja dependente da maneira pela qual alguém resolve ler, e não da natureza daquilo que é lido (EAGLETON, 2003, p. 11). Afirmação que podemos utilizar para fazer uma última costura teórica, e assim encerrarmos nossos passeios pelos campos de construção da verdade.

7. Considerações finais: sobre as pretensões à universalidade.

Se, como sugere a adaptação da afirmação de Eagleton, a concepção de verdade seja dependente da maneira pela qual o indivíduo lê ou olha para determinada informação, o que impele ou auxilia o indivíduo a definir de que maneira irá olhar? Pierre Bourdieu nos traz uma sugestão no livro O poder simbólico: “Se há uma verdade é que a verdade está em jogo nas lutas” por uma “(...) pretensão à universalidade, ao juízo absoluto, que é a própria negação da relatividade dos pontos de vista” (BOURDIEU, 2003, p. 293-294). Estas lutas, como nos explica o sociólogo francês, ocorrem dentro de todos os campos que estruturam o universo social, e também pelas relações entre os campos e os agentes atuantes neste universo. São embates pelo poder que advém do direito à enunciação de um discurso legitimado. Tido como crível, confiável ou “oficial” em função dos protocolos de hierarquia e legitimação que um determinado campo ou sociedade possuem, e pelos quais outorgam um enunciador com o poder simbólico de determinar o que é verdade.

Este outorgamento de poder simbólico, entretanto, só se efetiva em autoridade através do reconhecimento que os agentes conferem a ele. Daí Bourdieu defender com tanto afinco que não se pode tratar o resultado das relações de forças do campo social como efeitos de uma dominação e vontade única central, pois assim:
Ficamos impossibilitados de apreender a contribuição própria que os agentes (incluindo os dominados) dão, quer queiram quer não, quer saibam quer não, para o exercício da dominação por meio da relação que se estabelece entre as suas atitudes, ligadas às suas condições sociais de produção, e as expectativas e interesses inscritos nas suas posições no seio desses campos de luta, designados de Estado, Igreja ou Partido. A submissão a certos fins, significações, ou interesses transcendentes, quer dizer, superiores e exteriores aos interesses individuais, raramente é efeito de uma imposição imperativa e de submissão consciente (BOURDIEU, 2003, p. 86).
Ou seja, para Bourdieu os fins objetivos nunca são postos como tais, nem mesmo pelos agentes mais interessados em seus resultados. E a subordinação do conjunto de uma sociedade a uma mesma intenção objetiva, numa “espécie de orquestração sem maestro” (BOURDIEU, 2003, p. 86-87), só pode se instituir através de uma concordância instaurada entre os agentes daquele conjunto. Por uma assimilação destes de seu papel dentro daquele corpo social: o que sentem que são, o que a história fez deles e o que deles se espera. Em suma, pelo processo de incorporação que o indivíduo faz do habitus[22] a ele destinado. Apropriação esta que pode gerar, como sugere Bourdieu, inclusive bem estar, no sentido de pertencimento àquele lugar, de estar a fazer o que tem de fazer, de ser destinado àquilo, e até de o fazer com gosto (BOURDIEU, 2003, p. 87).

Vê-se que a concordância do indivíduo-agente (agente porque é atuante: age no meio em que está inserido) com determinada atividade ou crença pode, então, muitas vezes partir de pressupostos que não os oficialmente declarados. Mas também por interesses particulares, credos e opiniões pessoais que não necessariamente estão diretamente ligados à atividade geral a que se submetem. Associar isto individualmente aos exemplos dados ao longo deste artigo –  seja pelas atitudes de parte da população ribeirinha paraense contra outra parcela dela no Voluntário, seja pela prática de falsificação de documentos históricos como exposta por Umberto Eco em Seis passeios pelos bosques da ficção ou como trabalhada por Winston em 1984, seja pela relação de Syme com os proles no mesmo livro, ou seja ainda pela escolha de Cypher por um favorecimento de seu bem estar individual através de um Doublethink forçado em Matrix –, entretanto, nos faria alongar este passeio demasiadamente. Talvez um novo estudo e artigo se mostrasse necessário só para isto. De forma que proponho encararmos estas proposições de Bourdieu como uma possível conclusão à defesa do posicionamento que aqui propus: a política cultural da pós-verdade não está vivendo seu auge na atualidade, ela sempre existiu e atuou com intensidade. Pois esta prática cultural é parte de nossa própria prática de construção de conhecimento e organização social. De nossa capacidade de interpretar e nomear aquilo que nos rodeia. Que, para bem ou para mal, todas as eras humanas foram da pós-verdade. E aqui proponho que encerremos nosso labiríntico passeio pelos longos corredores cognitivos da verdade, da pós-verdade e do doublethink.



AUTOR:
*Arthur Aroha é graduado em Escultura pela Escola de Música e Belas Artes da Universidade Estadual do Paraná – UNESPAR. Atualmente é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Paraná – UFPR, na área de concentração de Estudos Literários sob orientação do Prof. Dr. Alexandre André Nodari. E-mail: aakds@hotmail.com


REFERÊNCIAS:

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz. 6ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. Trad. Waltensir Dutra. 5ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
GINZBURG, Carlo. O fio e os rastros. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. Rio de Janeiro: DP&A, 2011.
KAMINSKI, Rosane. Reflexões sobre a pesquisa histórica, a ficção e as artes. In: FREITAS, Artur (org.); KAMINSKI, Rosane (org.). História e Arte: encontros disciplinares. São Paulo: Intermeios, 2013, p. 65-93.
MATRIX. Roteiro e direção: Lilly e Lana Wachowski. Produção: Joel Silver. EUA/Australia: Warner Bros. Pictures/Roadshow Entertainment, 1999. 1 DVD (136 min).
ORWELL, George. 1984. New York: Signet Classics, 1961 (ano de reimpressão não informado).
PLATÃO. Livro Sétimo. A República (ou da justiça). Trad. Edson Bini. Bauru - SP: EDIPRO, 2006, pp. 307-344.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Trad. Mônica Costa Netto. 2ª ed. São Paulo: EXO experimental; Editora 34, 2009.
SAER, Juan José. El concepto de ficción. 4ª ed. Buenos Aires: Seix Barral, 2014.
SOUSA, Inglês de. Voluntário. In: SOUSA, Inglês de. Contos amazônicos. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005, p. 23-36.
<https://en.oxforddictionaries.com/word-of-the-year/word-of-the-year-2016>. Acesso em Janeiro de 2017.
<https://en.oxforddictionaries.com/definition/post-truth>. Acesso em Janeiro de 2017.

 [1] Matérias e artigos jornalísticos que seguiram esta linha afirmativa surgiram aos montes neste período. Aponto aqui alguns exemplos em língua portuguesa e inglesa, a título ilustrativo:
<http://www.cartacapital.com.br/revista/933/a-era-da-pos-verdade>;
<http://www.jn.pt/opiniao/jose-manuel-diogo/interior/a-era-da-pos-verdade-5507571.html>; <http://revistacult.uol.com.br/home/2016/10/a-memetica-e-a-era-da-pos-verdade/>; <http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/apertem-os-cintos-estamos-entrando-na-era-da-pos-verdade/>; <https://www.nytimes.com/2016/12/27/magazine/the-problem-with-self-investigation-in-a-post-truth-era.html?_r=0>. Acessos em Janeiro de 2017.
[2] Anualmente o grupo Oxford dictionaries faz uma lista com os termos considerados os mais relevantes no período, e elege um como “palavra do ano”. O anúncio do post-truth como vencedor de 2016 pode ser encontrado em: <https://en.oxforddictionaries.com/word-of-the-year/word-of-the-year-2016>. Acesso em Janeiro de 2017.
[3] Tradução livre de definição apresentada em: <https://en.oxforddictionaries.com/definition/post-truth>. Acesso em Jan.  2017.
[4] O termo post-truth foi pela primeira vez utilizado com o sentido a ele hoje designado em 1992 por Steve Tesich em artigo sobre a Guerra do Golfo pérsico. Informações disponíveis em:   <https://en.oxforddictionaries.com/word-of-the-year/word-of-the-year-2016>. Acesso em Janeiro de 2017.
[5] Inglês de Sousa, nascido na então província do Grão-Pará, foi um escritor, advogado e político do período imperial brasileiro.
[6] Tapuio é um termo generalista que foi utilizado ao longo dos séculos no Brasil para designar quaisquer índios que não falam a língua tupi.
[7] O trecho final do conto assim diz: “Ainda há bem pouco tempo vagava pela cidade de Santarém uma pobre tapuia doida. A maior parte do dia passava-o a percorrer a praia, com o olhar perdido no horizonte, cantando com a voz trêmula e desenxabida a quadrinha popular:
Meu anel de diamantes
Caiu na água e foi ao fundo;
Os peixinhos me disseram:
Viva D. Pedro Segundo!” (SOUSA, 2005, p.35-36).
[8] Basta pensarmos em conflitos como as ocupações do Afeganistão, a guerra do Golfo, a invasão norte-americana ao Iraque, a intervenção francesa na Líbia, e mais recentemente as intervenções diversas nos conflitos na Síria, por exemplo.
[9] O período pós independências na América do Sul foi permeado ininterruptamente por conflitos assim. Praticamente todos os países entraram em guerra com seus vizinhos. Estas novas nações aplicaram as mesmas políticas expansionistas sob as quais elas, enquanto colônias, foram fundadas. Até porque seguiram sendo governadas pelas mesmas elites do período colonial.
[10] Vide a revolta denominada Cabanagem (1835-1840).
[11]  Toco aqui no que diversos autores, de Ginzburg e sua “contiguidade entre ficção e história” (GINZBURG, 2007), a Rancière e suas propostas de valorização por parte do olhar do pesquisador para com os produtos ficcionais (RANCIÈRE, 2009), entre tantos outros, discutem com afinco: as relações entre a realidade, a pesquisa histórica, a ficção e as artes.
[12] Todas as citações de 1984 são de tradução livre.
[13] O termo prole não existe no livro à toa: Orwell se inspirou nos grandes regimes totalitários europeus do século XX para criar o 1984. Especialmente no regime stalinista, do qual Orwell era crítico por considerá-lo uma perversão do Socialismo democrático. O próprio conceito do doublethink foi inspirado num discurso proferido por Stalin em 1930.
[14] Newspeak é o nome da nova língua que se desenvolvia na distopia de Orwell.
[15] Eco vai às últimas consequências e propõe que, visto que o documento chegou às mãos do próprio Hitler, ele poderia ter influência no Holocausto (ECO, 1994, p. 143).
[16] Outras influências foram Descartes, Kant, Foucault e Derrida. Como se pode ver em entrevista com Lana Wachowski disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=3MXR4MCuA0o&feature=youtu.be>. Acesso em Janeiro de 2017.
[17] Tradução livre.
[18] Todas as citações de El concepto de ficción são de tradução livre.
[19] Como se pode ver no trecho a seguir: “Lo mismo podemos decir del género, tan de moda en la actualidad, llamado, con certidumbre excesiva, non-fiction: su especificidad se basa en la exclusión de todo rastro ficticio, pero esa exclusión no es de por sí garantía de veracidad. Aun cuando la intención de veracidad sea sincera y los hechos narrados rigurosamente exactos ––lo que no siempre es así–– sigue existiendo el obstáculo de la autenticidad de las fuentes, de los criterios interpretativos y de las turbulencias de sentido propios a toda construcción verbal” (SAER, 2014, p. 10).
[20] Afinal somos seres que contam parte de sua história através de narrativas como as Sagas, sejam as irlandesas, as nórdicas, ou, porque não aplicar este termo também às narrativas sumérias, maoris, malinesas, às de Cristóvão Colombo no Diários da Descoberta da América, entre tantas possibilidades, quem sabe até a relatos de eventos e/ou situações bem mais recentes?
[21] O termo [verdade] foi aqui utilizado para substituir o termo original [literatura], como presente em: “A definição de literatura fica dependendo da maneira pela qual alguém resolve ler, e não da natureza daquilo que é lido” (EAGLETON, 2003, p. 11).

[22] O conceito de habitus (as “vestes sociais” habitadas ou encarnadas pelos membros de uma sociedade) é trabalhado por Bourdieu no Capítulo III – A génese dos conceitos de habitus e campo – de O poder simbólico. (BORDIEU, 2003, p. 59-74).


FEIRA DE SANTANA-BA | nº 5 | vol. 1 | Ano 2017

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