Uma possível ontologia da dor na metafísica de Anne Conway

Pedro Rhavel Teixeira*

RESUMO
Em seu único livro Os Princípios da Mais Antiga a Moderna Filosofia, Anne Conway apresenta uma ontologia da dor. No capítulo sétimo de seu trabalho, a filósofa inglesa escreve que “toda dor e tormento estimula a vida ou o espírito que existe em tudo o que sofre (...) isso tem de acontecer necessariamente porque através da dor e do sofrimento, toda e qualquer rudeza ou densidade contraída pelo espírito ou pelo corpo se atenua.” PFMAM C. 7 S. 1[1]. O objetivo final dos seres é atingir à perfeição junto a Deus. O propósito deste artigo é mostrar como a metafísica de Anne Conway depende da experiência da dor para assegurar a unidade entre corpo e alma contrariando o tradicional dualismo psicofísico cartesiano. A dor também assegura a tese da harmonia pré-estabelecida que Conway compõe e é retomada por Leibniz com algumas diferenças. Com efeito, será necessário esclarecer algumas teses presentes na obra da autora, tal como o finalismo, o vitalismo monista, a ideia de Deus como emanação e por fim a harmonia pré-estabelecida. Quer-se mostrar que Conway de fato estabelece uma ontologia da dor, e não uma ontologia a partir da dor como defende Maria Luísa Ribeiro (Uma Ontologia a Partir da Dor, Lisboa: 2010), e que a dor é a chave central de compreensão para a filosofia de Anne Conway.

PALAVRAS-CHAVE: Filosofia Moderna, Ontologia, Metafísica.

No que tange a presença de mulheres na história da filosofia, há um vasto silêncio. Vozes não ouvidas. Quando estudadas, as mulheres na filosofia estão presentes e elencadas nos estudos de gênero, estudos feministas ou estudos da mulher. Os campos tradicionais de pensamento filosófico ocidental, a saber, ontologia, ética, política, estética e epistemologia carregam e perpetuam a supremacia masculina do saber. Um grande número de autores homens é ainda estudado. Não que devam ser abandonados ou esquecidos. A pergunta então pela presença feminina ganha uma dupla conotação: ora epistemológica, ora também política. Por tais motivos se justifica o estudo de uma, senão a primeira, mulher a escrever um tratado filosófico completo (HUTTON, 2009.). Anne Conway ou Anne Finsch foi uma filósofa inglesa de inspiração neoplatônica. Sua obra Os Princípios da Filosofia Mais Antiga e Moderna foi escrita durante o século XVII. Propõe-se como uma refutação do cartesianismo, hobbesianismo, espinosismo e outras doutrinas filosóficas que, de acordo com a autora, poderiam ser lidas como heréticas ou contrárias a crença na bondade divina.

O tratado de Anne Conway é um dos muitos trabalhos que surgem na época sobre a existência de Deus, assegurando sua bondade e perfeição. A obra se inicia com a seguinte proposta: “Deus e seus atributos divinos e como a trindade poderia ser concebida em Deus de modo a não escandalizar judeus, muçulmanos ou quaisquer outros povos.” (PFMAM. C.1, S.1.). Sua proposta metafísica, distinta da de Leibniz que propunha pôr um fim às disputas entre católicos e protestantes, é abrangente a uma concepção de paz entre as três religiões abraâmicas.

Antes de iniciar a investigação acerca do conteúdo do tratado de Conway, é prudente apresentar alguns fatos históricos acerca do lançamento e da recepção do texto da autora. Em 1690 foi lançado na Holanda o segundo volume de três Opuscula philosophica. Conway era amiga de Franciscus van Helmont, médico que apresentou o texto a Leibniz e Henry More — mentor intelectual da filósofa que, como mulher, não frequentara a universidade. Os Princípios da Filosofia Mais Antiga e Moderna é publicado sem autor, ou melhor, sem autora. Dois anos depois, em 1692 é lançada uma tradução inglesa com um indício de autoria: “Foi escrito não muitos anos atrás, por uma certa condessa inglesa, uma mulher erudita para além de seu sexo.” (HUTTON, p. 1, 2004.).  A tradução da obra de Anne Conway foi recebida pelo público como escrita por uma anônima, salvo a quem conhecia previamente a autora e a intenção de escrever um tratado filosófico. Este anonimato, contudo, não se deu totalmente uma vez que Anne Conway era reconhecida entre seus pares da filosofia apesar de seu gênero, e os indícios relacionados ao local de origem e a posição social deixavam clara a autoria do trabalho.

O texto original foi lançado em latim. Logo em seguida, teve outra edição numa tradução inglesa. O texto que se tem acesso atualmente consiste em uma tradução para língua inglesa feita a partir da retradução para o latim. Tal como o texto de filósofos antigos, a obra de Conway que se tem acesso é uma cópia da cópia. E uma tradução da tradução. Imagina-se, portanto, que o conteúdo tenha sofrido alterações. Neste aspecto, é importante ressaltar que seu texto também é incompleto, não foi revisado e a cópia mais antiga é feita a partir de um manuscrito encontrado no espólio da autora (HUTTON, 2004).

De acordo com Israel, é na modernidade iluminista radical que se criam os saraus de filosofia. Encontros onde se discutiam temas do conhecimento humano fora da academia (2002.). Graças a tais eventos é que muitas mulheres podiam iniciar sua educação no que diz respeito a gama de saberes que compunha a filosofia.  Anne Conway se difere das poucas outras mulheres de sua época por ter se educado ainda na infância. Através da biblioteca de sua família e posteriormente da biblioteca de seu marido, a viscondessa aprendeu hebraico. Estudou as escrituras judaicas e sobretudo a cabala. Ressalta-se às constantes citações a Kabbalah Denutada, uma obra de hermetismo escrita e publicada em 1677-78. Nesta obra há uma tentativa de conciliar alguns elementos da mística judaica com o cristianismo como, por exemplo, as três sefirot superiores representarem a trindade. É então a partir de uma cabala cristianizada que Conway tem acesso aos conhecimentos de mística judaica que influenciam a sua obra.

Conforme dito, apesar do tratado de Lady Conway ter sido lançado anonimamente, sua autoria era reconhecida por parte dos filósofos da época. Leibniz teve acesso a obra de Anne Conway através de van Helmont. Vê-se que o filósofo deixou ao menos dois registros sobre o conhecimento do documento prestando-lhe homenagens póstumas.

Os meus [sentimentos] em filosofia aproximam-se mais dos da falecida Condessa Conway, e defendem uma posição mediadora entre Platão e Demócrito, porque acredito que tudo ocorre mecanicamente como Demócrito e Descartes afirmam, contra a opinião de Henry More e de seus seguidores, e no entanto [também defendo] que tudo ocorre de acordo vitalmente e segundo causas finais, estando tudo cheio de vida e de percepção, contrariamente à opinião dos atomistas.[1]

Há também um agradecimento em Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano:

Vejo até onde os céticos tinham razão investindo contra os sentidos; vejo como os animais são realmente autômatos segundo Descartes, e como, no entanto, têm almas e sentimento, segundo a opinião do gênero humano; vejo como se deve explicar racionalmente os que enxergaram vida e perfeição em todas as coisas, como Cardan, Campanella, e mais do que eles falecida Senhora Condessa de Conway, platônica, e o nosso amigo, o falecido Franciscus van Helmont.[2]

            O reconhecimento de Leibniz da influência de Conway em sua filosofia é evidência da pregnância de sua obra. Contudo, essa relação merece um estudo à parte. As citações apresentadas demonstram elementos da metafísica conwayniana e por isso comecemos por examinar o seu elemento primário, isto é, Deus e seus atributos divinos.

            Conforme escrito no Capítulo primeiro, Seção 1: “Deus é espírito, luz e vida. infinitamente sábio, bom, justo, forte, omnisciente, omnipresente, omnipotente, criador e autor de todas as coisas visíveis e invisíveis.”. A ideia de Deus no tratado da filósofa inglesa, portanto, é um estatuto ontológico acerca do criador e seus atributos únicos e indefinidos. A noção de infinito, tal como aparece é prova da existência de Deus a partir de Descartes. Em seus Princípios da Filosofia, Descartes mostra como esta ideia é inata, ou seja, advém não da experiência, mas da reflexão e justamente por não ter nenhuma representação possível no mundo fenomênico só pode ser inata, ao contrário da noção de indefinido. (Princípio 26).

            Não há tempo e tão pouco espaço em Deus (PFMAM, C. 1, S.1.). Dele se difere as criaturas, sendo de essência distinta embora não estejam Dele separadas. O conceito de Deus que aqui começa a ser desenhado é a de Deus como emanação, isto é, uma espécie de força primária do qual os outros entes, ou mônadas, emanam e dele são dependentes. É como a gravidade que controla os objetos no universo, que os atrai e os mantém em uma determinada suspensão. Embora distinta das criaturas, há uma conexão primordial e necessária. Sendo assim, o segundo estatuto ontológico da filosofia de Anne Conway é o das criaturas, sendo o primeiro o do Criador. A essência ou substância das criaturas derivam de Deus, porque ele, com sua bondade e sabedoria infinitas, deseja que tais coisas existam dessa maneira. A sabedoria e a bondade são, portanto, modos ou propriedades distintas de uma mesma substância, a saber, o Criador (PFMAM, C. 1. S. 7.). É pela ideia de modos e propriedades que Conway propõe solucionar o problema da trindade, mostrando que não se trata de fato de três pessoas, mas de maneiras pela qual o Criador se manifesta, ou melhor, são seus próprios modos como bondade e sabedoria.

            O terceiro estatuto ontológico ou elemento elaborado por Anne Conway é a sua concepção de Messias (PFMAM, C.1, Nota 3.). Para a autora, o Messias é o logos, do qual as coisas passaram a existir pela palavra. Aqui, a filósofa alude ao mito judaico de Adam que nomeou os animais e as coisas do mundo. A partir da palavra, que para ela é o mesmo que uma ideia só que posta, externada, Adam elabora o mundo. O Messias, contudo, não se trata de uma pessoa, mas do próprio logos. O que os cristãos entendem por Jesus, os hebreus entendem por Adam. Esclarece ela na Nota 7 que Deus é a trindade na medida em que ele é o próprio infinito (primeiro elemento ontológico), o logos, no sentido que é palavra nomeadora, e o terceiro que são as criaturas, ou melhor, está presente nelas ainda que distinto. A natureza de Deus é essência distinta das suas criaturas, o Messias possui uma natureza intermediária, já as criaturas possuem uma natureza material que se transforma.

            A metafísica de Conway é perpassa a noção de mutabilidade. As criaturas estão sempre disponíveis para a perfeição, isto é, em vias de transformação por possuírem  uma natureza mutável em parte. Deus é imutável e o Messias, o logos, conjuga ambos: mutável e imutável. Mas como reparar em uma contradição acerca do conceito de Messias? Conway irá esboçar uma idealização não dualista, a de que corpo e alma não são substâncias distintas, e sim diferenças gradativas. Sendo assim, uma extensão da substância é mutável, o corpo, e outra parte imutável, a saber, a alma ou mônada. Sendo assim, o Messias possui o elemento imutável do Criador, o que significa a sua própria natureza enquanto logos, na medida em que é palavra proferida ou ideia. A mônada seria então a parte divina, ou melhor, a unidade da substância que emana diretamente de Deus. Já a parte mutável dispõe de uma natureza mais rude, a saber o corpo.

            A diferença entre em corpo e alma não seria então uma distinção, mas sim uma diferença de graus ou de modos. A forma como a substância se exprime. Deste modo, a metafísica de Conway explica a diferença entre os entes existentes. Estão todos numa diferença de grau. A ideia apresentada possui uma conexão direta com outra concepção da filósofa, a saber, o finalismo. Todo corpo é mutável. De que modo essa transformação ocorre? Ora, se considerarmos como a autora que a natureza dos corpos é mais rude, enquanto a do espírito mais tênue, o corpo necessariamente se transforma a partir do momento que perde a sua rudeza. Na metafísica de Anne Conway isto ocorre na e através da dor rumo à perfeição (PFMAM C. 7 S. 1). Neste ponto a dor, o finalismo, o anticartesianismo expresso numa recusa do dualismo estão imbricados numa mesma experiência, especificamente em uma ontologia da própria dor.

            O finalismo, de inspiração aristotélica, é o conceito de que seres possuem um telos, esta finalidade, na obra da viscondessa diz respeito a perfeição. O fim dos seres é a perfeição junto a Deus. Sendo Deus o criador de todas as coisas, das quais as coisas emanam e o tempo todo estão sob sua influência, o retorno à sua perfeição aparece como uma causa final. (PFMAM C. 3 S. 6.). O conceito de causa final foi recusado por outros pensadores, como Descartes, porque aparentemente poderia inibir a ideia de um livre arbítrio uma vez que obrigaria um fim determinado das coisas. Conway, tal como Leibniz, recusa a essa proposição (Discurso da Metafísica, XIX.). Para o filósofo, tal como para Lady Conway, ao banirem as causas finais em uma perspectiva mecanicista da realidade os filósofos assim propuseram caminhos ou sistemas perigosos na medida em que recusam a existência necessária de um Deus que continua a agir sobre as criaturas, formulação que Conway reafirma em sua ideia de Deus como emanação, segundo porque isto põe em xeque o sentido de um aprimoramento moral e ético que ocorre a partir da visão de aperfeiçoamento. Em suma, o bem deixa de ser a vontade pela qual Deus age e determina as coisas. Como filósofa cristã, Conway está preocupada em manter a noção de Deus como infinitamente bom e justo, não permitindo a presença de um ateísmo em sua filosofia.

            O finalismo, nesse caso, portanto, mais que uma hipótese meramente filosófica é um fundamento teológico. Sua manutenção se deve a uma recusa do ateísmo como possibilidade. O elemento religioso não deve ser motivo para o abandono da filosofia de Conway. A crença em um Deus transcendente está posta e justificada em toda a História da Filosofia. Tendo sido esboçado brevemente o finalismo, e após demonstrar a sua íntima relação com a experiência do aperfeiçoamento e do corpo, podemos apresentar a noção própria de dor colocada por Anne Conway. “Toda dor e tormento estimula a vida ou o espírito que existe em tudo o que sofre (...) isso tem de acontecer necessariamente porque através da dor e do sofrimento, toda e qualquer rudeza ou densidade contraída pelo espírito ou pelo corpo se atenua.” (PFMAM C. 7 S. 1.). Ressaltaremos como neste trecho Conway não elabora meramente uma ontologia a partir da dor, mas uma ontologia própria da dor que inclusive justifica a experiência dolorosa.

            A dor é o mecanismo pelo qual o ser se livra de sua rudeza e se torna mais perfeito na medida em que se torna mais espiritual. A vida, aqui entendida como uma força interior fonte do movimento, é movida através da dor. A mudança de grau, ou seja, a perfeição é estimulada através dessa experiência inexorável. A filosofia de Conway responde ao dilema colocado a Descartes por Elisabeth da Boêmia. A filósofa germânica pergunta ao escritor de Discurso do Método sobre a natureza da dor. Se a dor é meramente física porque ela afeta tanto a alma? Descartes nunca respondeu a pergunta (CONWAY, p. XVI e XVII, 1996.).  Sua doutrina dualista não permite elaborar uma razão suficiente para apreender uma resposta razoável. Na verdade, o dualismo psicofísico impõe outra pergunta: como um Deus puramente espiritual ativo pode ter querido criar um mundo meramente passivo e físico? A resposta para a indagação se dá através da diferença gradativa entre Criador e criatura. Apesar de infinitamente separados, a noção de perfeição é perseguida pelas criaturas. O aprimoramento ocorre na e pela dor, sua característica essencial é diminuir a rudeza e a densidade dos entes. Nesse contexto surge a indagação sobre a natureza de Deus, e a resposta de Conway ocorre logo no capítulo 2 seção 5, onde a filósofa afirma que a característica essencial de Deus é ser o criador.

                        A harmonia pré-estabelecida na obra de Conway aparece justamente a partir da natureza mutável dos corpos, e da característica essencial de Deus como substância espiritual. É o conceito  elaborado por ela que salvaguarda a comunicação entre os seres e a existência de Deus. Deus aqui aparece como o ser necessário sem o qual as criaturas não existem, sendo causa de si e causa de todas as outras existências que seriam contingentes. Contudo, para manter a crença de que Deus age no mundo é preciso estabelecer que toda comunicação, todo o afeto, e todo o encontro entre seres se dá unicamente por intermédio dele. Não há assim causa e efeito entre corpos e sim o agir de Deus através de sua bondade infinita.

A dor, ao contrário de ser uma experiência negativa, seria fruto da bondade infinita do criador que deseja que suas criaturas possam alcançar a perfeição e concede a criação tal capacidade. Esta foi a forma que Conway encontrou para conciliar sua crença religiosa com sua experiência pessoal com a dor crônica de que padecia. Lady Conway sofria terríveis enxaquecas que a fizeram procurar procedimentos cirúrgicos rudimentares. Como um Deus bondoso poderia condenar um ser a tal sofrimento? O tratado de Anne Conway tenta responder essa indagação pessoal. É curioso que séculos antes da medicina e da ciência pensarem a psicossomática, uma filósofa mulher na modernidade já procurava compreender o fenômeno da dor para além de um simples sintoma físico ou mesmo emocional que aflige a alma. Sua justificativa apesar de religiosa é capaz de atribuir algum sentido para além do mero mecanicismo do sofrimento.

            A metafísica de Anne Conway possui ainda, caráter político. Como dito, ela inicia sua única obra com a seguinte questão no capítulo primeiro: Deus e seus atributos divinos e como a trindade poderia ser concebida em Deus de modo a não escandalizar judeus, muçulmanos ou quaisquer outros povos[3].  Apesar de não ter conseguido sucesso em seu intento, há de se admirar uma tentativa conciliatória em três crenças, que apesar de se fundamentarem no monoteísmo, mantém-se em constante tensão e conflito. Conway advoga por uma paz entre os povos, enquanto Leibniz parecia querer apenas reunir as nações cristãs.

            O significado que se pode dar à obra de Conway é de um amor mundi e a tentativa de amenizar os conflitos entre diferentes povos, fugindo da proposta de estabelecer uma mera estrutura política ou um estado mais forte através de uma reunificação da religião cristã como em Leibniz.  A filosofia de Conway demonstra um aspecto não muito estudado na modernidade:  uma filosofia ginocêntrica. Sem apelar para quaisquer ideias de um ente essencialmente feminino, mas sim de um ser que tem em suas ideias clara influência do papel social que designa dentro de seu tempo.  Este ponto de vista feminino da modernidade ainda carece de estudos, carece mesmo da própria fundamentação de se poder falar em uma filosofia designada por gênero, uma vez que o discurso filosófico se propõe neutro e universal, Conway pode evidenciar a falácia da neutralidade por sua perspectiva distinta. A experiência sensível tem fundamental importância em sua obra, na verdade, foi uma espécie de 'primeiro motor' de seu pensamento. Não se trata de uma perspectiva empirista de pensamento, mas da tentativa de dar significado a uma experiência que pode ou não estar no âmbito fenomênico. No caso de Conway, a resposta parece ser negativa, uma vez que ela rejeitaria a concepção de interação entre os corpos, tal como Leibniz. O ser se constituiria junto a noção de progresso a partir da dor rumo a perfeição do criador.  Seu pensamento por mais religioso que possa parecer, não carece de justificativa em sua filosofia.


REFERÊNCIAS  
CONWAY, Anne. Os Princípios da filosofia mais antiga e moderna. Centro de filosofia da Universidade de Lisboa: Lisboa, 2010.
______.  Principia Philosophiae Antiquissimæ & Recentissimæ de Deo, Christo & Creatura, id est de Spiritu & Materia in Genere. Amsterdã: 1690.
_____. The Principles of the Most Ancient and Modern Philosophy. Cambridge University Press: Cambridge, 1992.
COUDERT, A. P. Leibniz and The Kabbalah. Springer: Nova Iorque, 1995.
DESCARTES, René. DESCARTES, René. Œuvres de Descartes. Tomos VIII e IX. Paris: L. Cerf, 1904.
FERREIRA, Maria Luisa Ribeiro. Anne Conway, uma ontologia a partir da dor in Os Princípios da filosofia mais antiga e moderna. Centro de filosofia da Universidade de Lisboa: Lisboa, 2010.
HUTTON, Sarah. Anne Conway: a woman philosopher. Cambridge University Press: Cambridge, 2006.
ISRAEL, Jonathan. Radical Enlightenment: Philosophy and the Making of Modernity 1650-1750. Oxford University Press: Londres, 2002.
LEIBNIZ, G. W. Monadologia in O Discurso da metafísica e outros textos. Martins Fontes: São Paulo, 2004.
______. Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. Editora Nova Cultural: São Paulo, 1996.
______. C. I. Gerhardt (ed.). Die Philosophischen Schriften von G. W. Leibniz (7 vols., Berlin, 1875-90; rpt.Hildesheim, Olms, 1962), vol. 3.


AUTOR
*Bacharel em Filosofia pela UFRJ, Mestre em Filosofia pelo PPGF-UFRJ e Doutorando em Filosofia pela PPGF-IFCS. Bolsista CAPES.





[1] C. I. Gerhardt (ed.). Die Philosophischen Schriften von G. W. Leibniz (7 vols., Berlin, 1875-90; rpt.Hildesheim, Olms, 1962), vol. 3, p. 217.
[2] LEIBNIZ. Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. Tradução de Luiz João Baraúna. Nova Cultural: São Paulo, 1996.
[3] CONWAY, Anne. Os Princípios da filosofia mais antiga e moderna. Centro de filosofia da Universidade de Lisboa: Lisboa, 2010, cap. I, s.  1.





[1] Não há consenso sobre a forma de citar a obra de Anne Conway. Optou-se pela escolha do capítulo e seção em detrimento de páginas da tradução. A sigla se refere ao título traduzido para o português Os Princípios da Filosofia Mais Antiga e Moderna.

FEIRA DE SANTANA-BA | nº 6 | vol. 1 | Ano 2017

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