O Narciso como signo do individualismo contemporâneo: o vazio preenchido pela angústia e solidão


Paloma Volski Mariano
(Licenciada em Filosofia)

palomavolski_m@hotmail.com 
Resumo: O presente artigo faz uma reflexão filosófica sobre a figura de Narciso no indivíduo contemporâneo e como este indivíduo se esvazia pelo hiperinvestimento de si, preenchendo este vazio pela sua própria angústia. Em um primeiro momento discorreremos sobre quem é o indivíduo contemporâneo e como ele pode ser representado pela figura de Narciso. Em seguida, abordaremos como a angústia é uma característica primordial neste indivíduo que, ao tentar encontrar um ponto de referência adentra cada vez mais seu vazio, o preenchendo com angústia.
Palavras-chave: Indivíduo; Narciso; Vazio; Angústia.

            É difícil definir sobre o que a sociedade atual está assentada, pois se trata de um período histórico que é definido pelo presente, ou melhor dizendo, pelo aqui e agora. De acordo com Gilles Lipovetsky, a sociedade está organizada de acordo com a lei da renovação acelerada, com uma estrutura social centrada na temporalidade do presente, na propensão à efemeridade e no gosto pela novidade, aspectos característicos do sistema moda[1]. O presente artigo objetiva iluminar, portanto, consoante com o filósofo francês em suas obras A Era do Vazio (1983)[2] e Os Tempos Hipermodernos (2004), o individualismo contemporâneo, no que lhe diz respeito, se apresenta como uma nova fase na história do individualismo ocidental, interpretada pelo autor como uma segunda revolução individualista. Tanto os indivíduos contemporâneos como a sociedade contemporânea estão frente a frente com a era do consumo de massa, o prazer narcísico de ver e de ser visto, apresentando as suas implicações na formação e no modo de se comportar do sujeito. No período contemporâneo, o sujeito se mostra imerso em sua própria subjetividade, em um universo particular e somente seu, o que o leva a trazer à tona um novo personagem: o Narciso, um sujeito que se aprisiona em seu mundo subjetivo, permitindo-se uma expressão espontânea de si. Como um novo molde de vida social do sujeito contemporâneo aparece o que Lipovetsky chama de processo de personalização, que se apresenta, em realidade, como tendo manifestação em valores hedonistas, isto é, em busca do gozo próprio, liberdade de poder se expressar autonomamente e liberar seus desejos respeitando as diferenças do próximo.
            A partir deste momento o perfil da sociedade é sustentado por uma tríade, a saber, a sedução, o efêmero e a diferenciação marginal[3], que agem de modo geral no todo social que está assentado sobre um domínio hedonista: é a generalização do processo moda. Proliferação da variedade de produtos que aumentam a possibilidade de escolha do indivíduo-consumidor, o sistema moda implementa um arsenal de objetos organizados pela microdiferença, gerando uma relação com os objetos não mais usual mas do tipo lúdica. Dito de outro modo, o que seduz é o bem-estar e os pequenos frenesis que dão ensejo na monótona rotina cotidiana. Em vista disso, o indivíduo é o âmago das decisões que deve tomar; ele se vê obrigado a afirmar suas preferências subjetivas dando prosseguimento ao encadeamento da obtenção de autonomia pessoal.
            Em consequência disso, delineia-se uma notória reivindicação de valores individualistas, como liberdade e autonomia. Fenômeno correlato à abertura dos indivíduos para a paixonite do novo, ao passo que estão mais imersos em si mesmos, pois este é o momento em que os indivíduos têm oportunidade de expressar o seu desejo subjetivo, de usar aquilo que lhes agrada sem a imposição de algo ou de outrem. Doravante as alternativas e estilos variados, que produzem pequenas discriminações, operam de modo a afirmar a preferência pessoal de maneira personalizada. Os indivíduos se veem incorporados à uma cultura de massas que é traduzida por uma cultura de consumo, esta que tem o papel de proporcionar o prazer instantâneo e a súbita alegria ao espírito, atingindo as inclinações estéticas, conquanto não atua sobre valores e comportamentos; a cultura se mostra superficial e sem efeito algum: trabalha apenas ao serviço do bel-prazer. A comunicação de massa fica a cargo da publicidade, que comunica, seduz e diverte o consumidor; seu desempenho está sobre a massa e não tão só sobre um indivíduo em particular, como propagam as visões apocalípticas deste fenômeno – o poder da publicidade em ser um veículo da propaganda é o de estimular e não de atuar como um poder mecânico que faz do indivíduo mera marionete. Não visando reformular os valores e costumes do indivíduo, a longo prazo, a publicidade trata-o como ele realmente é, unicamente fomentando a sede de consumo que ele próprio possui, visto que o sujeito é guiado pela febre do bem-estar, de gozos materiais e da paixão pelo novo. Ao final, o que é levado em consideração é o desejo e a autonomia de escolha que o indivíduo-consumidor possui, mesmo que algumas pressões se exerçam sobre ele. Convém salientar que a moda consumada é o ímpeto dos prazeres individuais, das aspirações subjetivas e do gosto por si mesmo, trazendo à tona uma nova fase do individualismo, que não corresponde meramente ao furor pessoal, mas que também se efetua na relação com o outro.

O individualismo neonarcísico[4]

            A modernidade foi marcada por um individualismo que constituiu um indivíduo autônomo, consciente de sua liberdade e que ocupou o lugar do personagem de seu próprio destino – fenômenos provocados pela primeira revolução individualista. Entretanto, o momento atual leva os valores deixados pelo nascimento do individualismo ao extremo, provocando uma ruptura com esta primeira fase e, assim, o individualismo não possui mais o caráter que tinha dantes, sendo substituído por uma natureza hedonista, à la carte e psicológica, promovendo ao indivíduo o deleite pessoal como finalidade última. Em consonância com esta ruptura da primeira revolução individualista para que a segunda pudesse se efetivar, esta etapa subsequente traz consigo não mais a modernidade mas inaugura a pós-modernidade[5], que consiste nos signos nítidos de seu modus operandi fundamental: a sedução, a indiferença e o consumismo. Lipovetsky concebe o poder pela sedução, funcionando por meio da informação, da multiplicação e da ampliação do leque de escolhas que o indivíduo-consumidor possui. Já a indiferença, que é um aspecto constitutivo da personalidade pós-moderna, não resulta da falta, mas do excesso, esboçada pela apatia frívola e passageira dos sujeitos. Diante disso, o autor trabalha com o conceito de indiferença pura que assinala o cunho de instabilidade e efemeridade advindas do sincretismo individualista de vastas combinações; o indivíduo não se apega a nada e se adapta às multíplices variações das coisas. E, por fim, o consumismo, este que está vinculado com o hedonismo e trabalha regularmente com a sedução, posto que os indivíduos consomem aquilo que lhes convém, escolhendo algo novo e descartando o antigo, e é aí que reside o círculo vicioso. Além do mais, Lipovetsky ainda elenca alguns traços que especificam a era pós-moderna:

[...] salientar uma mudança de direção, uma reorganização em profundidade do modo de funcionamento social e cultural das sociedades democráticas avançadas. Rápida extensão do consumo e da comunicação de massa; enfraquecimento das normas autoritárias e disciplinares; surto de individualização; consagração ao hedonismo e do psicologismo; perda da fé no futuro revolucionário; descontentamento com as paixões políticas [...] [6]

            Isto posto, a pós-modernidade traz à tona um novo personagem: o Narciso. Instala-se um novo estágio do individualismo decorrente da segunda revolução individualista[7] revelando uma mutação antropológica congruente com o novo perfil do indivíduo e como ele se relaciona consigo mesmo e com os outros, ao que Lipovetsky intitula como um “individualismo puro” que não possui vínculo com os valores morais e sociais anteriores em virtude do processo de personalização, ou melhor dizendo, a res publica não é mais o ponto central das preocupações. Ipso facto, é a deserção generalizada do ambiente público que abre espaço para que o narcisismo possa despontar, colocando a esfera privada como o centro das preocupações, uma vez que está em frequente mudança por obra dos desejos volúveis dos indivíduos; o fim do homo politicus anuncia o prelúdio do homo psychologicus.
            Ainda convém lembrar que a condição temporal vigente é o presente que assegura o indivíduo a viver apenas para si mesmo ao realizar suas satisfações e inquietações pessoais, sem portar sob sua incumbência a pretensão de se tornar imortal através dos anos e sem o desassossego de estar propagando aquilo que antes era passado de geração em geração (Carpe Diem!)[8]. Indo ao contrário das concepções apocalípticas do fenômeno do individualismo e que enxergam na pós-modernidade uma decadência associando-a a um niilismo trágico, Lipovetsky vê o narcisismo pós-moderno se desdobrando num desvanecer deste niilismo, uma vez que não há a ausência total de valores, mas sim uma substituição destes que visam o indivíduo particular. Em vista disso, o que podemos encontrar no neonarciso é uma apatia frívola movida pelo sistema individualista que é paradoxalmente sustentada por uma febre de sensibilidade ao mundo e de uma indiferença pura em relação a ele; as emoções também adquirem o caráter efêmero e frívolo resultante do sistema moda.

A anulação dos grandes sistemas de sentidos e o hiperinvestimento do Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”, que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetado para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que, atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades da abundância que, paradoxalmente, tornou possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um.[9]

            Levando-se em conta o que foi exposto, o narcisismo se configura pelo discurso psi que se tornou um ethos de massa, ou seja, a estrutura basilar que pode representar o indivíduo pós-moderno na imagem inédita de Narciso é concomitante com sua designação como homo psychologicus, isto é, o que recebe destaque são os elementos psíquicos, a personalidade, a individualidade e os pormenores particulares tendo como pano de fundo a valorização total do indivíduo que cada vez mais se empenha pela livre expressão do Eu, pela sua autonomia e sua independência. A propagação desta disposição psi significa que o indivíduo investe em si mesmo de modo jamais visto e presenciado anteriormente, ilustrado pela crescente busca de técnicas como ioga, meditação e sessões com o psicanalista – o Eu é caracterizado como o umbigo do mundo. O desinteresse pela res publica trouxe ao indivíduo certa habituação ao isolamento social, fazendo com que a lógica narcisista assumisse o lugar de regente também do sistema de socialização atuando como um novo método que socializa dessocializando, posto que a comunicação é movida pelos códigos individualistas. Fala-se mais de si, expressando um espaço aberto para as subjetividades, todavia o interesse repousa apenas sobre o próprio emitente; o remetente é o signo que simboliza unicamente o destinatário. O narcisismo é aquilo que exprime, no micro, o processo de personalização empregue no macro, atuando como atributo característico de uma personalidade pós-moderna em virtude do próprio processo de personalização que gerencia o funcionamento social. Dessarte, Narciso é um vulto mitológico que simboliza nosso tempo.
            Contudo, é preciso atentar para o fato de que embora Lipovetsky use a imagem de Narciso remetendo ao mito para denotar os tempos atuais, o indivíduo narcísico, por sua vez, não fica mais atônito ao reflexo de sua imagem, tampouco não possui uma imagem fixa, pois ele é um ser dotado de instabilidade; referido de outra maneira, “Narciso se colocou em órbita”.[10] Dessa forma, não há algo totalmente perene e inalterável na sociedade pós-moderna, fora o fato consolidado de que, paradoxalmente, o todo social é conduzido pelo narcisismo, este identificado como agente do processo de personalização que conduz a um novo modo de controle social que opera estendendo a supervalorização do prazer, o amanho pela liberdade pessoal, o desenvolvimento e a aceitação da diversidade.
            Não obstante, ao passo que o indivíduo investe mais em si mesmo e intensifica a livre expressão do Eu, mais suas incertezas e angústias crescem. Indiferente pela coisa pública e pelo outro que acabam dissipados pelo cúmulo de seu hiperinvestimento, suas referências ficam vazias graças à exorbitância de atenção para consigo, já que “a essência do individualismo é mesmo o paradoxo”.[11] Na ânsia de encontrar referências, estas que estavam localizadas na esfera pública, o indivíduo consome produtos na tentativa de se fixar em algo sólido, porém as coisas tangíveis tem o traço de efemeridade e frivolidade advindos do sistema moda, e esta tentativa fica fadada ao fracasso, fazendo com que o sujeito só consuma novamente, formando um círculo vicioso em busca da satisfação de desejos pessoais.
            Por isso tudo, a pós-modernidade é marcada por um mal-estar delineado por uma sensação de vazio que recai sobre uma personalidade de natureza irresoluta. Os êxtases narcísicos aparecem como uma forma de efeito destas perturbações que evidenciam este mal-estar extenso e hostil, exteriorizando este sentimento de vazio para uma apatia perante os objetos e as pessoas. Na medida em que cada indivíduo considera apenas seus próprios interesses ele sente mais solidão e mais vazio, dado que ao voltar para si mesmo, Narciso encontra dificuldades em desprender-se de seu próprio interior. Decorrente disso, o narcisismo propicia o isolamento facilitando ao indivíduo empenhar-se somente em coisas para si, tornando-se a preocupação central. A era pós-moderna é a era do vazio. 

O hiperindividualismo

            Já disséramos precedentemente mais acima, no início do tópico anterior, que a modernidade instaurou a primeira fase do individualismo, este rompido para que uma nova etapa pudesse se instaurar, tal qual foi pautada em um individualismo hedonista, à la carte e psicológico que inaugurou a pós-modernidade e fez aparecer a figura de Narciso, um indivíduo flexível, hedonista e cool. Em síntese, o pós-moderno alude a uma era de instabilidade pautada por mudanças infrenes, sustentada por uma sociedade fluida em que diversos estilos de vida convivem entre si, exacerbando os valores e ditames outorgados pela modernidade. Entretanto, em verdade, o momento atual que a sociedade está vivendo não é mais a pós-modernidade, que sofre uma alteração no pensamento do autor; a partir da obra Os Tempos Hipermodernos (2004), ele a compreende como um momento de transição complexo, em certa medida, para a hipermodernidade[12], assim sendo, um estágio interino que é superado; o termo pós-moderno não é mais aplicável para descrever como a sociedade se molda, neste caso – entramos na era do hiper. Assim como ocorreu com a pós-modernidade, a hipermodernidade não é uma ruptura com aquilo que foi instaurado pela modernidade, até porque Lipovetsky denomina a hipermodernidade de uma “terceira fase da modernidade”, esta precedida pelo momento da primeira e da segunda fase do individualismo, pois, ao se utilizar do prefixo “hiper”, seu objetivo é o de elucidar que o momento atual é aquele que acentua demasiadamente os valores da modernidade; é uma cultura marcada pelo excesso e pelo ritmo efêmero em que o indivíduo busca a realização de seus desejos.
            A hipermodernidade se resume a dois conceitos fundamentais, a saber, hiperconsumismo e hipernarcisismo. O hiperconsumismo aparece quando o consumo adentra todos os aspectos da vida, não como símbolo de honorabilidade social, mas sim em busca das satisfações de cada indivíduo em particular, tendo em vista que o hedonismo é um aspecto predominante na personalidade dos indivíduos. E o hipernarcisismo, que descreve a época de um narciso que é um sujeito eficiente e flexível que ocasiona uma descontinuidade com o narciso pós-moderno, que deixa de lado o caráter imprudente que a febre hedonista trouxe consigo e toma ares de um indivíduo maduro e responsável. No entanto, os paradoxos visíveis no indivíduo pós-moderno nunca surtiram tanto efeito e foram tão reforçados como no indivíduo hipernarcisista: ao passo que ele manifesta condutas responsáveis, mais sua irresponsabilidade aumenta, porquanto seu comportamento é sinalado pelo excesso, este ilustrado pelo frenesi consumista, pelo alto índice de obesidade e de transtornos como bulimia e anorexia, pelas compulsões e pelos vícios, p. e.. Deste modo, o hipernarcisismo apresenta duas predisposições contrárias; de um lado temos os indivíduos que cuidam de si e de seu corpo, que são maníacos pela higiene e pelo zelo com a saúde e que obedecem às prescrições médicas sem pestanejar. De outro, multiplicam-se as doenças psi, as enfermidades patológicas e um consumo que adquire não meramente um aspecto febril, mas doentio. 
            É mister pôr em destaque que a epidemia consumista não é corolário apenas do individualismo, uma vez que Lipovetsky identifica, no âmago da hipermodernidade, dois aspectos essencialmente determinantes para depreender como a nossa sociedade se molda, que são “(1) a passagem do capitalismo de produção para uma economia de consumo e de comunicação de massa; e (2) a substituição de uma sociedade rigorístico-disciplinar por uma ‘sociedade-moda’ completamente reestruturada pelas técnicas do efêmero, da renovação e da sedução permanentes”.[13] Dito de outro modo, quando o autor cita a mudança de um capitalismo de produção para um capitalismo voltado ao consumo de massa, seu propósito é mostrar ao leitor que a relação do indivíduo com os objetos consumidos não é mais usual, porém do tipo lúdica, ou seja, o consumo versa sobre uma lógica da sedução, do efêmero e da frivolidade, ambas fundamentadas pela alteração da organização da sociedade, esta que não é mais disciplinar, como era na modernidade, todavia é reordenada pelo sistema moda. Deste modo, o indivíduo hipermoderno consome menos pela necessidade do que pelo prazer de estar cedendo as suas regalias, em razão de que o reino do consumo desponta como um sonho fascinante e jubiloso – os indivíduos hipernarcisistas situam a neofilia no patamar de paixão generalizada.
            De fato, o hipernarciso está absorto em uma cultura hedonista também auxiliada por este capitalismo reproduzido pelo consumo de massa que o estimula a consumir cada vez mais, colocando em um posto essencial para a vida humana o bem-estar, a comodidade e o lazer. O indivíduo deve aproveitar o presente, viajar a passeio, sempre tendo como finalidade a diversão e o gozo próprio; as promessas e anseios por um futuro entusiasta e aprazível são frutos da era do consumo de massa. Não obstante, esta sede de consumo que é uma das características da hipermodernidade, e vista por alguns como uma forma de felicidade, é, neste caso, uma felicidade aparente e ilusória – o indivíduo hipernarcisista é marcado pela angústia. Corroborando com nosso autor, a lógica de nossos tempos é a lei da renovação acelerada; o ambiente efêmero em que vivemos trouxe não apenas um individualismo hipernarcísico, mas também acarretou um sentimento de insegurança, angústia e vazio. Exemplos claros disso são as catástrofes, o terrorismo, a proliferação e o aparecimento de doenças, sejam elas psi ou corporais. O hipernarcisista é um sujeito que vive no presente, aproveitando o aqui e o agora, porém, ao mesmo tempo, sente medo e agonia pelo futuro que o espera. Sob uma ótica, a sociedade-moda não para de acentuar aos gozos privados proporcionados pelo consumo; de outra, a vida fica menos leve e frívola e mais atormentada e estressante, assemelhando-se a um fardo que deve ser carregado adiante. Já em Da Leveza Lipovetsky escrevia que:

Esse cosmo economista que funciona na base do desempenho e da competitividade desenfreada faz com que haja uma insegurança crescente, pois cada um tem um futuro cada vez mais incerto. À medida que se reforça a ideia de que cada um é responsável por sua própria situação profissional, aumentam o medo da avaliação permanente e o de não estar às alturas das exigências da empresa “flexível”. [...] A civilização da leveza vê assim surgir uma nova “classe ansiosa” privada de qualquer segurança do trabalho, em que a maioria dos indivíduos “descartáveis” e precarizados vive uma experiência cruel de fracasso pessoal.[14]

            Sendo assim, atendendo ao que foi evidenciado, a hipermodernidade tem um amortecimento do carpe diem pós-moderno e um superinvestimento no futuro (incerto), acarretando indivíduos aflitos e inseguros, que buscam eficiência e legitimidade em uma corrida desmesurada pelo futuro desconhecido. Medo pelo porvir sustentado em fatores como alto índice de desemprego, o cuidado com a saúde para não gerar problemas posteriormente. Impera uma ideologia de prevenção e vigilância que representa a obsessão narcísica com a saúde e com o próprio corpo; enfim, preocupação com seu Eu. A relação que o hiperindividualismo instituiu com o presente é o cuidado do aqui e agora visando o futuro, este sempre conjugado na primeira pessoa. O narcisista hipermoderno é senhor de si mesmo, flexível e cambaleante, posto que sua independência (excesso) mostra um Eu sem firmeza alguma (falta). O homo psychologicus cede seu lugar ao homo consumericus, um indivíduo que nesta fase, consome descontroladamente pelo seu próprio bel-prazer, pelo prazer de ser um “colecionador de experiências”, sejam elas estéticas, lúdicas ou comunicacionais, entretanto pautadas por um movimento de mudanças perpétuas que colocam o indivíduo em um jogo que torna si mesmo a sua maior recompensa. Crescimento da compra de objetos como telefone celular, o micro-ondas e a secretária eletrônica, e a multiplicação de redes sociais como facebook, twitter e instagram, que permitem ao indivíduo estabelecer de modo autônomo como gerir seu espaço e tempo. Cada um com os objetos que lhe apraz, cada um com o uso singular destes, cada um com o ritmo efêmero de sua própria vida.
            Na hipermodernidade, temos um individualismo paradoxal, formado por indivíduos que são conjuntamente informados e sem alicerce, menos ideológicos e mais presos ao sistema moda, que são adultos e instáveis, independentes e regulados pelo consumo. Longe de qualquer significação profunda, possuem opiniões frívolas e vulneráveis. Este é um tempo em que o indivíduo que, se antes gozava sem pensar nas consequências, agora sente os efeitos da irresponsabilidade em suas angústias, incertezas e em seu vazio. São os tempos hipermodernos.


 BIBLIOGRAFIA

LIPOVETSKY, Gilles. A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada. São Paulo: Cia das Letras, 2011.

_____. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. São Paulo: Editora Manole, 2005.

_____. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

_____. A sociedade pós-moralista: o crepúsculo do dever e a ética indolor dos novos tempos democráticos. São Paulo: Editora Manole, 2009.

_____. Da leveza: rumo a uma civilização sem peso. São Paulo: Editora Manole, 2016.

_____. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

_____. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarola, 2004.

_____. Sedução, Publicidade e Pós-Modernidade. Revista Famecos, Porto Alegre, v. 1, nº 12, 7 – 13, jun. 2000. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/3062. Acesso em: 12/03/2016.



[1] Cf. LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
[2] Data da publicação original, em francês, da obra de Lipovetsky. Contudo, usamos a tradução para o português de 2005.
[3] Lipovetsky usa o termo diferenciação marginal para denominar a discriminação de uma coisa qualquer, o que está estritamente ligado a uma preferência particular. Citando os produtos que estão acessíveis no mercado, por exemplo um celular; tal produto apresenta variados tamanhos e formas, diversas cores e programas, ou seja, são bastante similares, porém, apresentam diferenças pequenas. Dito de outro modo, a diferenciação marginal representa os simples e pequenos aperfeiçoamentos de detalhe que acrescentam um toque especial aos produtos na competição do mercado.
[4] Lipovetsky não define propriamente o que seria o conceito de neonarcisismo, porém ele cunha este termo para designar um novo individualismo remetendo ao mito de Narciso, embora não faça uso do termo narcisismo em um sentido freudiano. Sua concepção de narcisismo se refere à figura de um novo sujeito que libera de forma intensa um amor por si mesmo, promovendo uma renúncia aos valores altruístas, motivado pelo processo de personalização. Este novo narcisismo apresentado pelo autor se configura como um novo tipo de personalidade cambiante e sem estrutura, fluída e indeterminada, ilustrada por um Eu que está envolvido por inconstâncias e incertezas, destituído de referências e de uma estabilidade para se orientar.
[5] Diferentemente de Lyotard, que foi um dos precursores do termo pós-modernidade e que via uma ruptura total com aquilo que a modernidade instaurou, Gilles Lipovetsky concebe a pós-modernidade como também uma ruptura, mas não de forma total e sim parcial, ou seja, a estrutura basilar que a modernidade estabeleceu ainda permanece na pós-modernidade, esta identificada como o processo de personalização. Sendo assim, a pós-modernidade é um estágio da modernidade. Em uma concepção lipovetskyana, a pós-modernidade desponta em meados de 1950 e é um fenômeno cultural marcado pela busca do prazer e a obsessão do consumo, apresentando características como a onipresença da sedução e o surgimento da personalidade narcisista, que trafega por um vazio e pelo vazio, inebriada por si mesma. Identificada como o período histórico em que as barreiras das instituições sociais desaparecem não se opondo mais ao indivíduo, dando lugar à manifestação dos desejos pessoais, da satisfação e realização subjetivas e do amor-próprio.
[6] LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarola, 2004, p. 52.
[7] A segunda revolução individualista ocorre devido à extenuação da sociedade e dos costumes, do indivíduo contemporâneo da era do consumo de massa e da eclosão de uma maneira de socialização e de individualização até então inéditos, que vão de encontro com a ruptura daquilo que foi instituído pela primeira revolução individualista dos séculos XVI e XVIII. Este momento possibilita uma privatização ampliada, a degradação das identidades sociais conjuntamente com o desgaste político e ideológico e a desestabilização acelerada das personalidades.
[8] Aproveite o dia.
[9] LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. São Paulo: Editora Manole, 2005, p. 34 – 35.
[10] LIPOVETSKY, Op. Cit., 2005, p. 37.
[11] CHARLES, Sébastien. O individualismo paradoxal: introdução ao pensamento de Gilles Lipovetsky. In: LIPOVETSKY, Gilles; CHARLES, Sébastien. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarola, 2004, p. 21.
[12] A hipermodernidade é entendida por Lipovetsky, assim como a pós-modernidade, um novo gênero da modernidade, que teve início a partir de meados de 1980. Uma sociedade hipermoderna é caraterizada pela fluidez e flexibilidade, sendo a era dos paradoxos explícitos. Seu modus operandi consiste no mercado, no indivíduo e na habilidade técnica. Em resumo, a hipermodernidade está embasada em uma cultura de excessos por aquilo que a modernidade instaurou, sendo marcada pelo caráter efêmero e frívolo advindo do sistema moda, assim como a lei da renovação acelerada que se faz presente como nunca desde o estabelecimento do sistema moda. O indivíduo, como nunca, busca a satisfação de todos seus desejos, mas principalmente pelo consumo, que adquire não mais apenas um aspecto febril, mas sim doentio.
[13] Lipovetsky, Op. Cit., 2004, p. 60.
[14] LIPOVETSKY, Gilles. Da leveza: rumo a uma civilização sem peso. São Paulo: Editora Manole, 2016, p. 270.
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