A ficção fantástica: a eucatástrofe dos contos de fadas, segundo J. R. R. Tolkien, e o ensino das virtudes


Dra. Talita Cristina Garcia*
Jonatan Rocha do Nascimento**
Mário Santos da Silva***

RESUMOSobre o que, realmente, tratam os contos de fadas e qual o público a que se destinam? Refletiremos esse tema a partir da compreensão de J.R.R. Tolkien, famoso criador da saga “O Senhor dos Anéis”, sobre o que é um conto de fadas autêntico, utilizando-se do termo de sua autoria, a “eucatástrofe”, que refere-se ao característico desfecho das histórias dessa natureza. Servirá ao nosso propósito, a pesquisa e análise bibliográfica, sobretudo, das obras de Aristóteles, Bruno Bettelheim, Chesterton, etc., com o escopo de apresentar uma nova perspectiva à narrativa fantástica como paradigma útil à educação, e de que maneira é importante à formação da subjetividade dos indivíduos, sobretudo, no que concerne à assimilação das virtudes, bem como das realidades tipicamente humanas contidas em tal gênero literário.Palavras-chave: Contos de Fada. Eucatástrofe. Virtude. J.R.R. Tolkien.

INTRODUÇÃO
Este trabalho tem o intuito ambicioso de passear num mundo “desconhecido”, um mundo muitas vezes esquecido pela maioria dos adultos, sérios demais para preocuparem-se com a imaginação pueril, com as estórias infantis que nada tem a contribuir na solução dos intricados problemas do dia-a-dia da frenética e compulsiva sociedade adultícia.
Há algum tempo busca-se compreender o ser humano e há algum tempo que não encontramos resposta satisfatória, capaz de desvendar os dramas humanos, sobretudo, os interiores, aqueles concernentes à vida privada dos indivíduos, compartilhada na sua completude somente com aquele único indivíduo capaz de pensar-se a si mesmo.
      Toda essa inesperada jornada, vislumbrando as sombras do passado, permitiu ao homem desvendar, ainda que às apalpadelas, o seu eu interior e aquilo que o torna ser humano; explorando uma densa floresta desconhecida, a brandir uma faca no escuro, percorreu os caminhos da dúvida, do questionamento, das ciências, da metafísica, da física, da matemática, etc. A Filosofia, nesse sentido, representou o grande rompimento da sociedade que, uma vez envolta pela inconstância e ferocidade dos deuses, impôs-se sobre as verdades estabelecidas e, sobre escombros e destroços, partiu à procura do tudo, do quê, do Ser, do eu. Essa viagem até a encruzilhada do “eu” têm sido, por certo, a mais desgastante de todas já que, apesar de ser a mais tangível, torna-se cada vez mais distante. Quem somos? É possível conhecer? Há uma verdade? Para quê vivemos? É possível formar sociedades perfeitas? O que é virtude? O que é, verdadeiramente, o homem?
Nesse microcosmo que é o ser humano, encontramo-nos diante da grandiosidade do Universo, com complexidades mais ou menos compreendidas, cantos explorados e outros tantos ainda na obscuridade, a passagem dos pântanos, e ainda atolamos na pergunta: que é o homem?
Primeiramente, cabe-nos adentrar esse mundo fantástico que, mais do que maravilhamento, é mais palpável do que possa imaginar. O que há por detrás das bruxas, príncipes, castelos e feitiços encontrados nos contos ditos “de fadas”? Seriam elas sobre fadas ou sobre homens? Tratam de fato de bruxas más e reis galantes ou de pessoas de carne e osso? As batalhas que ali são travadas não seriam as mesmas que se travam no interior do ser humano? Qual o plano filosófico-pedagógica por detrás de tais névoas e quais os frutos encantados podem ser colhidos? Pretende-se, pois, empreender uma nova demanda, uma nova sociedade, à caminho de casa, onde se buscará compreender o que de precioso se pode encontrar nas terras ermas da fantasia para as crianças, jovens e adultos de hoje.

1 SOBRE CONTOS “DE FADAS”

É primordial ressaltar e delimitar o uso de alguns termos que serão importantes ao entendimento geral do que aqui pretendemos, evitando compreensões equivocadas, bem como generalizações que não se enquadram no estudo feito, especialmente no que tange ao termo de conhecimento geral, “conto de fada”. Isso se dá porque, embora muitos textos do gênero fantástico sejam chamados “contos de fadas”, essa classificação torna-se deveras abrangente, sobretudo, porque nas diversas culturas do mundo produziram-se histórias da tradição popular, constituindo os mais variegados folclores populares, numa vasta coleção dos quais não seriamos capazes de discorrer.
Por outro lado, é preciso ainda clarificar o entendimento sobre “contos de fadas”, já que, segundo a compreensão geral, o conto de fada é, necessariamente, uma história cujos personagens são fadas coloridas e de orelhas pontudas, com asas transparentes que, ao alçarem voo, inundam a atmosfera com um misterioso pó mágico. É mister, pois, que para caminharmos adiante seja preciso desfazer-nos dessas pré-concepções, de modo não seja penoso acompanhar as pegadas que aqui desejamos traçar.
Os modos de organização do discurso, segundo os estudiosos da língua e da literatura, são: narrativo, descritivo, o argumentativo e o enunciativo. Dentre estes, importa-nos o primeiro, qual seja, o narrativo, pois nele encontraremos o objeto de nosso estudo. Isto porque, embora a classificação dos diferentes tipos de textos sejam bem distintas, não se trata de matéria pacífica no entendimento comum, mesmo dentre os mais doutos círculos acadêmicos, porquanto usam indiscriminadamente termos como “contos de fadas”, aplicando-o, de modo descabido, a toda história infantil.
É assim que temos dentre os textos narrativos as rapsódias, as fábulas, as crônicas, os romances, as novelas, os contos – inclusive, os chamados “de fadas”, cada um deles com características e funcionalidades bem distintas, distinção essa muito útil ao nosso propósito. Assim, mister se faz que examinemos brevemente algumas dessas espécies textuais, afim de clarificar ainda mais o tema.
Nesse sentido, compreendemos o que afirma Bakhtin (2003 [1952-1953], p. 280), isto é, “que cada esfera da atividade humana produz textos com algumas características comuns e, por isso pertencem a um determinado domínio discursivo, isto é, o lugar onde os textos ocorrem (...)”. Portanto, é necessário estabelecer algumas especificidades dos discursos do gênero literário. Dentre os textos do tipo narrativo, podemos mencionar o conto, o caso, a estória, a fábula, a história, a lenda, a novela, o relato, o romance, etc. Assim, primeiramente, temos como conto, de acordo com Sérgio Roberto Costa, um história curta, com configuração pouco extensa e historicamente verificável (COSTA, 2009), além disso, o conto traz em si algumas características próprias, quais sejam: poucos personagens, esquema temporal restrito, poucas ações intrincadas entre si, isto é, de menor complexidade, unidade temática e de tom. O caso, relato ou narrativa, geralmente, é falado e com reduzida extensão, concernente a fatos reais ou fictícios (COSTA, 2009). Segundo o referido autor, as crônicas diferem do conto, sobretudo, porque aquelas têm finalidade designada/predestinada, isto é, possuem utilidade que é a publicação em impressos, jornais, revistas, etc.
As fábulas, embora sejam consideradas contos, não se enquadram nessa classificação quanto às características comuns de que falamos. Fábulas são histórias sem grandes complexidades e que possuem como personagens, em geral, animais irracionais que possuem características e realizam ações humanas, culminando numa conclusão ético-moral (COSTA, 2009). Epopeias são um tipo literário que narra supostos fatos vividos por personagens heroicas e destemidas, geralmente, ambientadas na Grécia Antiga. Trata-se de textos longos, costumeiramente em forma de poesia, que visam exaltar os feitos realizados pela personagem mítica.
Já os contos de fada são tidos, tanto pelo senso comum como pela literatura, como aquela história ou conto popular que surge como herança de um conjunto de crenças e mitos primitivos adaptados aos contextos culturais. Apresentam como personagens indivíduos prototípicos, isto é, reis, fadas, rainhas, dragões, etc. (COSTA, 2009). Outro ingrediente adicionado à receita dos contos de fadas é a irracionalidade, uma vez que tais contos não obedecem, segundo dizem, a uma lógica determinada, verificada na vida real, no plano da existência humana objetiva.
Arrimados nessas breves classificações já é possível fazer um paralelo com a compreensão de J.R.R. Tolkien acerca do que viria a ser um conto de fada. Nesse aspecto, Tolkien deixa claro que as histórias formuladas e conceituadas como tal, nem sempre atendem aos critérios comuns que permitem assim qualifica-las. Em Sobre contos de fada (2013), o escritor, filósofo e professor universitário, John Reuel Ronald Tolkien, trata com singela maestria uma temática corriqueira, e vista por muitos como simplória: “contos de fada”. Aqui, faz-se necessário o uso de aspas no termo, já que, como viremos a seguir, os contos de fadas, tem menos fadas do que se possa imaginar, como explicará o autor.
Inicialmente, tal como fizemos, busca o conceito do texto narrativo em comento nos dicionários, obtendo o seguinte: “(...) (a) um conto sobre fadas, ou de modo geral, uma lenda de fadas, com desdobramentos de sentido, (b) uma história irreal ou incrível, e (c) uma falsidade” (TOLKIEN, 2013, p. 4).
Assim, dada a diversidade dos conceitos, o autor prefere esmiuçar o que viria a ser o termo “fada”, em inglês, fairy, no plural, fairies. Para o nosso léxico, infelizmente, a acepção prejudica a compreensão à luz do pensamento tolkeano: “1. ser imaginário do sexo feminino com poderes mágicos; 2. mulher de extraordinária beleza, encanto e habilidades” (HOUAISS, 2011, p. 330). Na língua inglesa, a palavra fairies designa não um ser feminino, mas, simplesmente, “seres sobrenaturais de tamanho diminuto, que a crença popular supõe poderes mágicos e terem grande influência sobre os assuntos dos seres humanos, para o bem ou para o mal” (TOLKIEN, 2013, p. 4). Nesse aspecto, discorda Tolkien das características outorgadas às “fadas”, tanto a sobrenaturalidade quanto a sua miudeza, que teriam sido fruto da racionalização. Afirma, primeiramente, que as modas opulentas, sobretudo, francesas – de onde provem a palavra fairy e elf, em francês fée e elfê. A Inglaterra, país onde estava radicado o autor, provavelmente importou não somente os termos, mas também, os adereços apequenados da pomposa afetação francesa (TOLKIEN, 2013).
Tolkien critica sutilmente a racionalização, no sentido de que, à medida que o homem foi descobrindo as porções ocultas do mundo, cada vez houve menos espaço à possibilidade de existência de seres desconhecidos, logo, os locais míticos da terra perderam seu encanto, caindo num ostracismo de invisibilidade. Nesse sentido, refere-se à lenda irlandesa Hy Breasil, que nada mais era que uma ilha mítica localizada em algum lugar do Oceano Atlântico, isso antes mesmo do ano de descobrimento das terras brasileiras. Assim, quando do seu achamento, percebeu-se que o Breasil, era mais que um lugar mítico, pelo contrário, era uma extensão de terra real, nomeadamente, Brasil. Aí, pois, estaria a origem verdadeira do nome do nosso país (TOLKIEN, 2013).
Por fim, chega à conclusão de que, na verdade os “contos de fadas”, mais do que falar de “fadas florais”, tratam do Reino Encantado de Faïrie. As histórias de fadas, antes de mais, possuem terras, rios, água, tal e qual a realidade presente do mundo humano e, inclusive, seres humanos, quando conseguem alcança-lo. Para ele, portanto, raros são os contos que são, de fato, de fadas e são caracterizados por falar de aventuras dos homens nesse Reino Encantado, cujas palavras não podem exprimir e nem sequer tem a pretensão de explicar (TOLKIEN, 2013, p. 10). Nesse Reino, contudo, a magia que ele possui é algo de sério, que se deve respeitar, posto que o que ali toca, em verdade, toca a realidade humana em sua profundeza.
Bruno Bettelheim (1980, p. 14), mencionando o filósofo e poeta Schiller, trata acerca da importância dos contos de fada: “Há maior significado profundo nos contos de fadas que me contaram na infância do que na verdade que a vida ensina”. Assim, compreende que é característico de tal tipo literário um dilema existencial de forma breve e categórica, expondo a criança, destinatária da história, às vicissitudes da vida, isto é da inevitabilidade da luta contra os problemas inerentes à existência humana. Ao contrário, as histórias infantis modernas evitam a linguagem direta e, por vezes, trágica a fim de poupar o leitor de situações de tragédia e sofrimento. Assim, diz que, ao contrário, o conto mais trágico “confronta a criança honestamente com os predicamentos humanos básicos” (BETTELHEIM, 1980, p. 15).
Chesterton afirma-nos, com humor acerca dessa realidade: “O conto de fadas discute o que o homem sensato fará num mundo de loucura. O romance realista sóbrio de hoje discute o que um completo lunático fará num mundo sem graça” (CHESTERTON, 2008, p.16). Prossegue, confirmando sua teoria de que, o “País das Fadas” é o caminho de tratar sobre coisas reais, chamando-o de “País ensolarada do bom senso”:
Minha primeira e última filosofia, aquela na qual acredito com certeza absoluta, eu a aprendi na creche. Geralmente a aprendi de uma babá; isto é, daquela solene sacerdotisa ao mesmo tempo da democracia e da tradição, indicada pelos astros. Aquilo em que eu mais acreditava naquela época, aquilo em que mais acredito atualmente, são coisas que chamamos de contos de fadas. Eles me parecem inteiramente razoáveis. Não são fantasias: comparadas com eles, outras coisas são fantásticas. Comparados com eles, a religião e o racionalismo são ambos anormais, embora a religião esteja anormalmente certa e o racionalismo anormalmente errado. (CHESTERTON, 2008, pp. 50-51)
Cumpre ressaltar que os autores acima referidos dão uma visão diferenciada do senso comum, tomando-o não como fruto da ignorância das massas ou como saber dos ignorantes, como se poderia pensar, sobretudo com a onda racionalista na qual o mundo imergiu. Ao contrário, trata-se de um saber genuíno e necessário à vida e que, se bem explorado, pode levar à compreensão de realidades mais profundas relevantes, mesmo a partir de pessoas mais simples, sem instrução acadêmica, como as babás (CHESTERTON, 2008). Por sua vez afirma a doutrina tolkeana:
A magia do Belo Reino não é um fim em si mesma, sua virtude reside em suas operações - entre elas está a satisfação de certos desejos humanos primordiais. Um desses desejos é inspecionar as profundezas do espaço e do tempo. Outro (como veremos) é entrar em comunhão com outros seres vivos. Assim, uma história poderá tratar da satisfação desses desejos com ou sem a interferência de máquinas ou de magia, e na medida em que tiver sucesso se avizinhará da qualidade de histórias de fadas e terá o seu sabor. (TOLKIEN, 2005, p. 15)
J.R.R. Tolkien compreende, pois, que nada é mais necessário para adentrar o mundo fantástico, o Reino Encantado. Assim, contos que usam subterfúgios para criar uma fantasia de “flores-e-borboletas” foge à essência dos contos que tratam desse mundo tão real como o nosso. Exclui da classe dos contos de fada (fairytales) o uso de “fantasias” mentirosas, sonhos, fadas coloridas e desencarnadas, já que tudo o que ali se passa é considerado real. Não são consideradas como tal as histórias de animais, chamadas por ele de “fábulas de animais” que, como vimos, são aqueles que, embora haja ensinamentos morais a serem transmitidos e haja uma conexão com aquele terreno do fantástico, não há nenhuma preocupação de que haja uma comunicação desses seres com o mundo humano, como ocorre nos verdadeiros contos de fadas.
Assim, parece-nos fundamental que as histórias que estamos a tratar, toquem o fantástico, mas que façam regressar sempre mais a vida humana corriqueira, sob pena de perder-se na inutilidade e na fuga. Coaduna-se a esse pensamento o que afirma Bettelheim:
Para que uma estória realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar sua curiosidade. Assim para enriquecer sua vida, deve estimular-lhe a imaginação: ajuda-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras as suas emoções; estar harmonizada com suas ansiedades e aspirações; reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas em que a perturbam. (BETTLEHEIM, 1980, p. 13)
Parece-nos, então, que para conhecer as intempéries do mundo e a dureza do dia-a-dia, seja importante, para um desenvolvimento maduro e integral, conhece-lo a partir de figuras encantadas com vistas a um equilíbrio entre o encanto da contingência e da ordem presentes na natureza e a completa desilusão e desencantamento da realidade e das relações humanas.

2 O DESENCANTAMENTO DO MUNDO

A Filosofia sempre se prestou, de alguma maneira, a desvelar o quê por detrás das coisas, e segundo a razão humana explicar o que até então era considerado fantástico, elucidado pelos mitos. Tais explicações foram, ao longo da História, distanciando-se da mitologia para encontrar abrigo fora das cavernas, em conjecturas filosófico-racionais, sistemas filosóficos completos que buscavam compreender a natureza objetiva, bem como os recônditos da natureza humana.
À medida que a razão humana foi acumulando saberes, ganhando independência da Filosofia, percebe-se, pois, a partir da Modernidade, um desejo de perseguir e manipular o mundo cientificamente, mas sem aquele quid primeiro, fomentador das mais intricadas perguntas, feitas até então. Nesse sentido, muito contribui Max Weber (1919, p. 13), quanto trata da vocação à ciência:
O progresso científico constitui um fragmento, decerto o mais importante, do processo de intelectualização a que, desde há milénios, estamos submetidos e perante o qual, além disso, se adopta hoje, muitas vezes, uma atitude extraordinariamente negativa. Tentemos, antes de mais, ver claramente que é que significa, do ponto de vista prático, esta racionalização intelectualista através da ciência e da técnica cientificamente orientada. Significa, porventura, que hoje cada um dos que estão nesta sala tem um conhecimento das suas próprias condições de vida mais amplo do que um índio ou um hotentote? Dificilmente. Excepto se for um físico, nenhum de nós, ao viajar de comboio, fará ideia alguma de como ele se move.  Aliás, também não precisa de saber. Basta-lhe “contar” com o comportamento do comboio e orientar assim a sua própria conduta; mas não sabe como fazer comboios que funcionem. O selvagem sabe incomparavelmente mais acerca dos seus utensílios.
Weber enxerga nesse progresso científico não uma aquisição de conhecimento sobre a vida, isto é, acerca do sentido da vida e da existência humana, mas sim, de um saber específico que garante nada mais que um limitado conjunto de informações acerca de determinada particularidade da vida humana que, diga-se, não é essencial à todos já que como disse, um selvagem, sem conhecimento científico algum, sabe muito mais de seus utensílios que diariamente lida, do que uma dezena de cientistas que, a partir de suas especialidades, vivem “um reino trasmundano de artificiosas abstrações que, com as suas pálidas mãos, tentam captar o sangue e a seiva da vida real, sem jamais conseguir” (WEBER, 1919, p. 15).
Ainda no início da modernidade, quando da emancipação das ciências, afirma Weber (1919, p. 17) que as ciências ainda possuíam a finalidade de perscrutar os nebulosos mistérios do Criador, isto é, a análise científica da natureza como caminho para Deus e do sentido da vida. Contudo, nem a Filosofia nem a Ciência, já em seu tempo, possuem sequer vestígios desse escopo:
Mas nas ciências exactas da natureza, onde as suas obras se podiam fisicamente apreender, esperava-se poder achar o vestígio dos seus desígnios acerca do mundo. E hoje? Afora algumas crianças grandes, com que se depara nas ciências naturais, quem é que ainda hoje acredita que os conhecimentos da astronomia, da biologia, da física ou da química nos podem ensinar algo sobre o sentido do mundo ou, inclusive, sobre o caminho no qual se poderia encontrar um vestígio desse sentido – se é que ele existe? Se eles se prestam a algum efeito é antes o de secar na raiz a fé na existência de algo que se possa ter por “sentido” do mundo.
Há, pois, um processo de racionalização exacerbada do mundo, por meio de uma ciência que visa tão somente extrair fórmulas e números, numa criação desenfreada de especialistas neste ou naquele assunto específico, sem interesse algum em investigar o que há por detrás dessa intrincada realidade da existência humana.
A intelectualização e a racionalização geral não significam, pois, um maior conhecimento geral das condições da vida, mas algo de muito diverso: o saber ou a crença em que, se alguém simplesmente quisesse, poderia, em qualquer momento, experimentar que, em princípio, não há poderes ocultos e imprevisíveis, que nela interfiram; que, pelo contrário, todas as coisas podem – em princípio - ser dominadas mediante o cálculo. Quer isto dizer: o desencantamento do mundo (WEBER, 1919, p. 13, grifo nosso).
Assim, surge o homem desencantado do mundo, isto é, que não vê com aquele assombro investigativo primevo a realidade que o cerca, restando tão somente o empreendedor sem paixão, sem aquela inspiração que já fora tão necessária ao desenvolvimento das ciências. Quanto a isso, Weber (1919, p. 20) utiliza-se das palavras de Tolstói para expressar bem essa desolação científica: “A ciência carece de sentido, pois não tem resposta alguma para a única questão que nos interessa – ‘Que devemos fazer? Como devemos viver?’”.
Num tempo de alto desenvolvimento das ciências, em que a sociedade parece encharcada de cientificidade, posto que nunca a tecnologia esteve tão à mão dos indivíduos, esse desencantamento do mundo torna-se cada vez mais presente. Há poucos fenômenos, seres ou lugares que sejam desconhecidos; as constelações e o espaço sideral já foram e estão sendo esquadrinhados pelos mais renomados especialistas; já se manipularam as células matrizes do ser humano. O que há de oculto ainda hoje no mundo natural? O que se está buscando?
De alguma forma, poderíamos dizer que tal “cientificismo” teve grande influência do movimento positivista do Círculo de Viena, colaborando para uma concepção menos encantada do mundo, isto porque, buscava-se naquele momento, uma análise objetiva da realidade, com estrita correspondência aos fatos, sem abertura às elucubrações de uma mente fascinada pelo mundo existente. Nesse sentido, afirmam:
[...] Aspira-se à limpeza e à clareza, recusam-se distâncias obscuras e profundezas insondáveis. Na ciência não há "profundezas"; a superfície está em toda parte: tudo o que é vivenciado forma uma rede complexa, nem sempre passível de uma visão panorâmica e frequentemente apenas apreensível por partes. Tudo é acessível ao homem; e o homem é a medida de todas as coisas (HAHN, NEURATH; CARNAP, 1986, p. 10).
Ora, parece-nos que a Filosofia proposta pelo Círculo de Viena, nascida na Áustria por volta de 1922, era exatamente a descrita bem antes por Weber que, como um oráculo, anunciou de alguma maneira o encabrestamento filosófico que viria poucos anos depois de sua morte, ocorrida em junho de 1920. Além da superficialidade dos fatos objetivos, o Círculo delegou aos filósofos um papel secundário, como que de um mero revisor de textos ou um corretor de fórmulas matemáticas: “A tarefa do trabalho filosófico consiste neste esclarecimento de problemas e enunciados, não, porém, em propor enunciados ‘filosóficos’ próprios'. O método deste esclarecimento é o da análise lógica” (HAHN; NEURATH; CARNAP, 1986, p. 10). Os cientistas orientados por Moritz Schlick sequer consideravam a problemática metafísica dos grandes sistemas filosóficos precedentes como autênticos problemas, tendo-os por falsos e sem significado, já que não poderiam ser verificados empiricamente.
O filósofo brasileiro Rubem Alves, faz uma crítica aos cientistas que, encontrando a relação de causa e efeito para explicar a dinamicidade das coisas, intentam encontrar uma linguagem positiva, longe da subjetividade dos metafísicos:
A ciência, com o propósito de estabelecer regras para a construção de um discurso “objetivo”, livre de “ídolos” e intromissões indevidas de nossas emoções, pensou que o caminho correto seria partir dos fatos e não dizer coisa alguma além daquilo que os fatos permitem. Agora, entretanto, descobrimos que os fatos não dizem coisa alguma a não ser quando são trabalhados pela imaginação (ALVES, 1981, p. 115).
Ora, segundo Alves, na tentativa de isolar-se nos fatos puros, o cientista esquece que tudo o que a ele se apresenta como dado, isto é, objeto de estudo, passa pela interpretação dos seus sentidos, de modo que, inevitavelmente, sempre serão afetados o observador e o objeto observado. Os fatos não informam imediatamente tudo o que são, sempre havendo a necessidade de uma mediação do intelecto humano, como seu intérprete, segundo o arcabouço de informações que possuir.
Assim, percebe-se que a sonhada objetividade do mundo é, de fato, um desencantamento, uma desolação acerca da incapacidade do homem de compreender totalmente a realidade, com todas as suas implicações. Acerca dessa sociedade, afirma Weber (1919, p. 32):
O destino da nossa época, com a sua racionalização, intelectualização e, sobretudo, desencantamento do mundo, consiste justamente em que os valores últimos e mais sublimes desapareceram da vida pública e imergiram ou no reino trasmundano da vida mística, ou na fraternidade das relações imediatas dos indivíduos entre si.
Parece-nos, pois, que alcançamos o destino profetizado por Weber, no qual, somente em pequenos círculos, no submundo intelectual é que tornam à superfície as novidades antigas da Filosofia, sobretudo, os clássicos da Antiguidade que, aos poucos, estão a ser retirados de baús onde, por tempos, foram deixados no ostracismo da comunidade intelectualizada. Vemos então, que a realidade é muito mais complexa e encantadora do que os grandes corolários da ciência que, ainda que consigam esquadrinhar os fenômenos naturais e dominar a técnica, ainda não conseguiram alcançar satisfatoriamente a difícil tarefa de ser e se tornar um ser humano adulto, racional, responsável, senhor de si. Daí a missão desempenhada pelos contos de fadas:
[...] a criança necessita entender o que se está se passando dentro do seu eu inconsciente. Ela pode atingir essa compreensão, e com isto a habilidade de lidar com as coisas, não através da compreensão racional da natureza e conteúdo de seu inconsciente, mas familiarizando-se com ele através de devaneios prolongados – ruminando, reorganizando e fantasiando sobre elemento adequados da estória em resposta a pressões do inconsciente. Com isto, a criança adequa o conteúdo inconsciente às fantasias inconscientes, o que a capacita a lidar com esse conteúdo. É aqui que os contos de fada têm seu valor inigualável, conquanto oferecem novas dimensões à imaginação da criança com as quais ela pode estruturar seus devaneios e com eles dar melhor direção à sua vida. (BETTELHEIM, 1980, p. 17, grifo nosso)
Apreende-se que o desenvolvimento do ser humano à fase adulta está intimamente ligado à sua visão de mundo e de quais maneiras o indivíduo aprendeu a lidar com as implicações interiores, que perfazem seu cotidiano e suas relações interpessoais. Assim, compreender e ter contato, ainda que indiretamente –pelos contos-, com  o mal e a vileza, antes de ser considerado uma ameaça, é uma escola primária e indolor, por exemplo, da maldade que se deve evitar no futuro. Embora, segundo afirme Bettelheim (1980, p 17), que existe na cultura dominante o desejo de fingir “que o lado escuro do homem não existe, e professa um aprimoramento otimista”.
Assim, mesmo postulando uma racionalização do mundo e uma cientificidade de todo o saber humano, o homem contemporâneo não oferece soluções eficazes ao seu mundo desencantado e, ao invés disso, propõe caminhos, aparentemente, mais sólidos e exatos, quando são otimistas –e por que não dizer fantasiosos? - e incertos. Os contos, por sua vez, ensinam por meios etéreos como chegar à solidez da vida mediana, da vida cercada daquilo que é necessário à vida consigo mesmo e com o outro.

3 A ÉTICA DAS VIRTUDES DE ARISTÓTELES

Bruno Bettelheim demonstra que as figuras apresentadas nos contos de fadas possuem qualidades e defeitos bastante demarcados, a fim de que, dentro de suas capacidades de discernimento, isto é, do seu nível de desenvolvimento cognoscitivo, a criança possa, aos poucos, construir sua compreensão entre uma pessoa má e uma pessoa boa, por exemplo. Nesse sentido, diz:
As figuras nos contos de fadas não são ambivalentes – não são boas e más ao mesmo tempo, como são todos na realidade. Mas dado que a polarização domina a mente da criança, também domina os contos de fada. Uma pessoa é ou boa má, sem meio-termo. Um irmão é tolo, o outro esperto. Uma irmã é virtuosa e trabalhadora, as outras são vis e preguiçosas. [...]. Há alguns contos de fada amorais onde a bondade ou a apresentação das polarizações de caráter permite à criança compreender facilmente a diferença entre as duas, o que ela não poderia fazer tão prontamente se as figuras fossem retratadas com mais semelhança à vida, com todas as complexidades que caracterizam as pessoas reais. [...] Então a criança tem uma base para compreender que há grandes diferenças entre as pessoas e que, por conseguinte, uma pessoa tem que fazer opções sobre quem quer ser. Esta decisão básica sobre a qual todo o desenvolvimento ulterior da personalidade se construirá, é facilitada pelas polarizações do conto de fadas (BETTELHEIM, 1980, p. 17).
Essa polarização e essa escolha de que fala Bettelheim, compreenderemos como a polarização feita entre virtude e vício, que os contos vão apresentando à criança que, após uma deliberação racional interior segundo as características colhidas dos personagens, são impulsionadas a seguir o melhor caminho, o caminho da virtude. Nas palavras do próprio autor nesse sentido, o conto “oferece significado em tantos níveis diferentes, e enriquece a existência da criança de tantos modos que nenhum livro pode fazer justiça à multidão e diversidade de contribuições que esses contos dão à vida da criança” (BETTELHEIM, 1980, p. 20).
Se queremos, pois, traçar um paralelo entre os contos de fada e o ensino das virtudes, primeiramente, é necessário determinar o que vem a ser uma virtude, quais os meios para se adquiri-la, se é que possível possuí-la dessa forma, e qual a sua finalidade. Aristóteles, grande filósofo de Estagira do século III a.C., em sua famosa obra “Ética à Nicômaco”, estabelece alguns parâmetros sobre um autêntico agir humano. Sabe-se, porém, que o discurso ético inicia-se propriamente com Sócrates, desenvolvendo-se em Platão, que concebe a virtude como conhecimento que leva à felicidade do homem, de modo que, uma vez conhecido o bem é impossível fazer o mal e, ainda que um mal seja realizado, tratar-se-ia de um equívoco já que o resultado esperado pelo agente sempre visa o bem. Além disso, elenca quatro virtudes principais: sabedoria, coragem, temperança e justiça (COPLESTON, 1986, pp. 193-195).
A ética de Aristóteles, também teleológica, isto é, enquanto intrinsecamente ligada à finalidade das ações, devem sempre conduzir ao bem e ao fim do homem e, por conseguinte à felicidade. Quanto a qual seja a finalidade do homem, não é possível precisar matematicamente, haja vista que, diferentemente da matemática, o objetivo da ética são as obras do homem. Logo, a ação humana que, de maneira constante e durante toda a sua vida, o encaminham para a felicidade são consideradas virtuosas (COPLESTON, 1986).
O Filósofo passa a definir o homem feliz como quem vive bem e age bem, sendo a felicidade uma “espécie de boa vida e boa ação” (ARISTÓTELES, 2008, p. 29), sendo a virtude em geral, chegando a afirmar que “a felicidade é a atividade conforme à virtude”. Significa dizer que o viver bem do homem é, na verdade, viver sempre segundo aquilo que o diferencia de todos os demais seres e coisas, a atividade de sua alma que o singulariza dentre todo o existente: a razão (REALE; ANTISERI, 2014). Sendo o que há de mais nobre e aprazível no mundo, Aristóteles (2008) tem a felicidade como que uma dádiva divina, visto ser o melhor de todos os bens e, mesmo que seja fruto de um esforço pessoal, como resultado da virtude ou hábito, tem aparência de ser, de fato, o melhor para o homem.
Há, contudo, dentro de cada homem além da racionalidade (alma racional), impulsos ou princípios contrários a essa mesma razão e que, opondo-se constantemente à ela deve ser dominada para que atuem em concordância. Desta maneira, “o elemento irracional pode ser persuadido pela razão” (ARISTÓTELES, 2008, p. 38) e, portanto, o homem virtuoso, que possui a virtude ética ou moral, poderá ponderar racionalmente e ditar os rumos de suas ações em direção ao bem e, consequentemente, à felicidade (REALE; ANTISERI, 2014, p. 204). A repetição deste tipo de ação terá, para Aristóteles (2008, p. 40) grandes resultados:
[...] as virtudes... adquirimo-las pelo exercício, tal como acontece com as artes. Efetivamente, as coisas que temos de aprender antes de poder fazê-las, aprendemo-las fazendo; por exemplo, os homens tornam-se arquitetos construindo, e tocadores de lira tocando esse instrumento; e do mesmo modo, tornando-nos justos praticando atos justos, moderados agindo moderadamente, e igualmente com a coragem, etc. O que estamos dizendo é confirmado pelo que acontece nas cidades-Estados: os legisladores tornam bons os cidadãos por meio de hábitos que lhes incutem.
A partir disso, então, Aristóteles (2008) define que é da natureza das virtudes que sua destruição se dê dois modos, por deficiência ou por excesso, logo, sempre o bem de uma virtude pode ser corrompido pela falta ou pela abundância. Exemplo disso seria a prática excessiva de exercício físico, que teria como consequência o esgotamento do corpo e a pratica deficiente conduziria à morbidez. Assim, a fim de se conservarem incólumes a temperança, a coragem e todas as virtudes, deve-se tomar a via da mediania, isto é, a justa medida entre o excessivo e o deficiente. Logo, a medida que se pratica com mediania a virtude, obtêm-se o prazer e a dor que indicam a disposição moral do indivíduo, de maneira que a excelência moral está relacionada ao prazer e ao sofrimento (ARISTOTELES, 2008). Por esta razão, menciona Platão ao afirmar que “deveríamos ser educados desde a infância de maneira a nos deleitarmos e de sofrermos com as coisas certas; assim, deve ser a educação correta” (PLATÃO apud ARISTOTELES, 2008, p. 43).
Passa então a elencar inúmeras virtudes com seus respectivos vícios, sobre os quais não nos alongaremos aqui, vez que parece-nos despiciendo aprofundar tais questões. Contudo, importante tomar ciência de algumas delas para que possamos discorrer mais à frente, sobre algumas virtudes em espécie: quanto à riqueza, temos a virtude da liberalidade, cujo excesso é a prodigalidade e a deficiência é a avareza; a calma, em relação à cólera para ser o meio-termo, cujo excesso é a pacatez e o excesso a ira; contudo, a justiça é a mais excelente das virtudes, já que ela mesma é quem constitui as demais virtudes, assim, se por um lado há um vício de justiça quando se é injusto, não se pode dizer que há um excesso de justiça, já que quanto mais justo se for, mais excelentemente se está a praticar tal virtude.
O avanço nos estudos da ética aristotélica, sobretudo na Idade Média, concatenou as virtudes em quatro eixos, que são quatro principais, denominadas cardeais, com as quais são correlatas todas as demais virtudes. São elas: prudência, que consistiria no aprimoramento da inteligência na escolha do certo e do errado; justiça, que aperfeiçoa a vontade, a fim de garantir o que é devido aos outros no momento correto; fortaleza, que é controle do apetite irascível do espírito que impulsiona a fugir da dor e do sofrimento; e a temperança que aperfeiçoa os apetites concupiscentes da alma, que impulsionam à busca do que é prazeroso (MARTINS FILHO, 2010).
Retomando nosso ponto central, Bettelheim (1980) afirma que somente escutando repetidamente e garantindo-se o tempo necessário para que a criança demore-se nos contos é que poderá haurir deles os melhores frutos. Parece-nos, portanto, que o caminho de tijolos amarelos da ficção fantástica deve ser sempre retomado, a fim de que se possa levar ao caminho do bem fazer, da boa vida, do indivíduo virtuoso.
Assim, se são os atos maus que tornam vicioso o homem é, pela constância de atos bons que são formadas, no interior dele, as virtudes (AQUINO, 2012). Logo, agindo conforme sua virtude, por meio da razão, poderá encaminhar suas ações não segundo suas paixões interiores – egoísmo, maldades, inveja, defeitos, prazeres, etc.- mas, em direção aos bem do homem e, via de consequência, à todo o grupo social em que estiver inserir. Desta forma, mais uma vez tomando as palavras de Platão, como dito acima, no sentido de que é desde cedo que se deve ensinar ao homem a deleitar-se e sofrer com certas coisas. Noutras palavras, deve-se já na infância incutir no intelecto de que há condutas que se deve ter prazer, porque são boas, e outras às quais se deve rejeitar, isto é, as que conduzem ao mal.
Comte-Sponville (2009, p. 7), em seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, tal como Aristóteles, expõe que a melhor maneira de ensinar a virtude é pelo exemplo, contudo, o livro torna-se uma ferramenta útil para que se busque “compreender o que deveríamos fazer, ou ser, ou viver, e medir com isso, pelo menos intelectualmente o caminho que daí nos separa”. Daí que passa a expor, individualmente, acerca das virtudes que considera essenciais ao humano, culminando em dezoito excelências: polidez, fidelidade, prudência, temperança, coragem, justiça, generosidade, compaixão, misericórdia, gratidão, humildade, simplicidade, tolerância, pureza, doçura, boa-fé, humor e amor.

4 OS CONTOS FANTÁSTICOS E AS VIRTUDES

          Tendo a noção de que virtude é a ação que conduz ao bem e que aperfeiçoa, pela razão, aquilo que interiormente pode conduzir ao vício, Tomás de Aquino (2012) demonstra que tal como a ciência não chega ao intelecto por invenção/descoberta própria, mas por doutrina exterior, tal ocorre com a virtude, que é alcançada pela correção e pela disciplina, que provem de outrem.
  Portanto, como vimos, essa correção do sujeito, na verdade, é o ensinamento que pelo hábito, paulatinamente, forma o conjunto de valores éticos que são norteadores das decisões do indivíduo adulto. Também, inicialmente, fizemos notar que os contos de fadas, embora sejam o campo em que a imaginação ganha especial enlevo, há um universo de possibilidades de ensinamentos que, mais do que entretenimento, são para a formação integral do indivíduo.
            Chesterton (2008) faz-nos recordar da história de Jack, o matador de gigantes, que simbolizam a revolta contra todo o orgulho; ou Cinderela (Borralheira), cuja lição é aquela trazida no Magnificat, cântico em que Maria, mãe de Jesus, afirma que Deus exaltou os humildes; ou ainda, A Bela e a Fera, que ensina que é preciso amar alguém, ainda que não seja amável. Como dissemos, os contos de fadas não são tanto de fadas, mas de humanos, não de crianças, mas de adultos. Nas palavras de Tolkien (2014, p. 65): “Os contos de fadas são feitos por homens, não por fadas”.
            Assim, segundo a teoria de Tolkien (apud MARTINS FILHO, 2010; TOLKIEN, 2014)  acerca dos contos de fadas, observa-se três funções que carregam em si: a terapia de restauração, a sã evasão dos problemas e o consolo da alegria. Isto é, primeiro, serve como uma restauração das forças absorvidas no trabalho; segundo, trata-se do escape que proporciona o conto, fazendo com que o indivíduo transcenda as durezas angustiantes e sofridas de suas realidades aos mais profundos desejos, contempla também a busca de escapar das “feiúras” do mundo, a fome, a sede pobreza, dor, pesar, injustiça, morte; terceiro, o consolo da alegria do final feliz, o happy ending de que falamos, necessária a todos os contos de fadas para serem autênticos.
            Aqui recorremos ao termo “eucatástrofe”, ou grande reviravolta, como contrária às grandes catástrofes dos dramas. Essa virada do destino tão presente nos contos fantásticos, é fundamental não para negar a existências das agruras e fatalidades da vida, mesmo que são necessárias para a alegria final, mas sim para negar a derrota final universal, ainda que haja todos os indícios reais – da vida ordinária- concedendo, de algum modo, a esperando de mudança de direção, do vício à virtude. Assim afirma Tolkien (2014) que a boa história de fadas, deve, portanto, ser capaz de, na virada final, causar um sobressalto no coração e trazer lágrimas aos olhos.
            Esse final segundo Bettelheim (1980), faz a criança retornar à vida confortada pela segurança da vitória do herói, num retorno feliz à realidade destituída de mágica. Para aclarar a eficácia dos contos, utiliza-se da figura do despertar após os sonhos. O sono restaura o corpo de seu cansaço, imergindo-o no mundo dos sonhos. O despertar indica esse estar habilitado para retornar à realidade do mundo, do trabalho, etc. e além disso, o contrário se percebe quando o indivíduo fica privado de dormir. Nesse sentido, faz uma audaciosa declaração:
Talvez um dia sejamos capazes de demonstrar o mesmo fato experimentalmente em relação aos contos de fada: que as crianças vão mal de vida quando são privadas do que as estórias podem-lhes oferecer, dado que os contos ajudam-na a elaborar, na fantasia, as pressões inconscientes (BETTELHEIM, 1980, p. 79) .
Coaduna-se, pois, essa orientação de que os ensinamentos dos contos podem fazer crescer no complexo interior da criança, com a virtude que, aos poucos, ordena e aperfeiçoa aquilo que e é irracional na alma humana, tornando-a ao caminho da felicidade, que é a própria virtude. Assim, afirma Bettelheim (1980, p. 82):
Quando todos os pensamentos mágicos da criança estão personificados num bom conto de fadas – seus desejos destrutivos, numa bruxa malvada; seus medos, num lobo voraz; as exigências de sua consciência, num homem sábio encontrado numa floresta; suas raivas ciumentas, em algum animal que bica os olhos de seus arquirrivais- então a criança pode finalmente começar a ordenar essas tendências contraditórias. Isto começado, a criança ficará cada vez menos engolfada pelo caos não manejável.
Desta forma, os contos de fadas, a partir da concepção tolkeana, promovem o que poderíamos chamar uma ordenada fuga/escape do mundo, com vista a ordenar o mundo interior do ouvinte, restaurando suas forças e conduzindo ao bom termo de sua vida, um caminho de virtude.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Percorrer a senda rumo à Terra das Fadas é tarefa árdua e simples, contudo, exige da Demanda uma abertura àquilo que, aparentemente, é irreal e desconhecido. Nas palavras de um velho personagem de Tolkien: “Porque há tanta coisa ainda que nunca vi na frente: em cada bosque, em cada fonte há um verde diferente” (TOLKIEN, 2003, p. 290).
            Percebe-se que, embora esquecidos quanto à sua profundidade simbólica, os contos de fada ou fantásticos continuam a influenciar as crianças de todo o mundo, que ainda hoje, não cessam de imaginar aventuras imaginárias, castelos e donzelas indefesas, personagens dos mais variados que enfrentam adversidades terríveis e chegam ao feliz termo do consolo final, do “otimismo essencial dos contos de fadas” (BETTELHEIM, 1980, p. 52). Na frenética sociedade contemporânea, há cada vez menos espaço à imaginação e à saudável ludicidade, úteis à restauração do sujeito que, empurrado pelas necessidades do trabalho com sua rotina maçante, tem cada vez menos tempo para si e para cuidar de seus dilemas mais profundos. Assim, delega-se essa função aos programas de televisão, aos gurus da internet que têm resposta para tudo, aos medicamentos antidepressivos e similares.
            Quando o adulto conta uma estória do mundo fantástico, parece-nos que há um duplo efeito. Quais sejam: forma-se a criança ouvinte, ajudando-a a fundar as bases das soluções de seus contrastes interiores dos quais sequer ela ainda tomou consciência e, via de consequência, alimenta-se o bom adulto do amanhã, que buscará fazer o melhor para si e para o mundo que o rodeia; restaura-se a força e a esperança do adulto que, pelo cansaço e dureza da vida diária, esqueceu-se de seus sonhos, suas aspirações, sua admiração pelo mundo e, sobretudo, a inocência da criança que fora um dia. Criança destemida que enxergava o mundo de maneira fantástica, que enfrentava gigantescas criaturas, que sempre buscava o porquê do mundo, a quem foi dada entrada ao Reino dos Céus: a eucatástrofe final.
            Aos poucos, têm-se buscado conhecer esse mundo eucatastrófico, o País das Fadas, a fim de apontar caminhos e luzes nesse nosso mundo catastrófico. Lá e de volta outra vez, como quem caminha no limiar entre Faïrie e Terra, buscamos demonstrar que o mais inocente dos contos pode instruir às crianças e encantar os adultos, causando, como diz o mestre Tolkien (2014, p. 66), “um sobressalto no coração, próximos às lágrimas”, afinal, “nem todas as lágrimas são um mal” (TOLKIEN, 2003, p. 1091).


AUTORES
* Doutora em História Social. Professora de Filosofia do Centro Universitário Católica de Vitória.
**Graduando em Filosofia pelo Centro Universitário Católica de Vitória e bacharel em Direito pela Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha;
*** Graduando em Filosofia pelo Centro Universitário Católica de Vitória.

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como citar:
GARCIA, T. C., NASCIMENTO, J. R., SILVA, M. S. A ficção fantástica: a eucatástrofe dos contos de fadas, segundo J. R. R. Tolkien, e o ensino das virtudes. Revista Sísifo, n°9, v. 1, 30 de junho de 2019.
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