Reflexão sobre a memória e identidade do corpo: uma visão histórica

Sancléya Evanessa De Lima*
Marcelo Gomes**

RESUMO: Nos vários momentos da história, o corpo obedece a padrões políticos, econômicos, sociais, filosóficos e culturais, tendo o darwinismo como corrente filosófica que contribuiu para uma visão de secularização do corpo. Alguns filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes, Santo Tomas de Aquino, orientaram as concepções de corpo, principalmente no ocidente, que deixaram marcas na maneira de olhar esse corpo na sociedade. Platão, por exemplo, entendia o espírito sobrepondo a matéria e essa matéria sendo o próprio corpo subordinado ao espírito. Com essa perspectiva dual, o corpo só tem alguma importância porque se faz morada do espírito, sendo que Descartes reforça a visão de dualidade. As ideias de Aristóteles se aproximaram mais das ideias de Sócrates, pois partia do princípio de que as ações humanas aconteciam em conjunto, corpo e alma integrados. No entanto, a pesquisa bibliográfica demonstrou também que desde a Idade Média até a contemporaneidade, o cristianismo, o positivismo e o capitalismo contribuíram para uma possível memória e identidade do corpo marcada pela religiosidade, cientificismo e consumismo, atrelado na busca constante de suprir necessidades da sociedade vigente de forma utilitária.
Palavras-chave: corpo, sociedade, história, memória, identidade.

1 INTRODUÇÃO


Nas cavernas de Lascaux[1] há a imagem de um ser humano provavelmente mostrando uma das primeiras representações que os seres humanos tiveram de seu próprio corpo. Ali estava expressa a necessidade de registrar a sua própria existência, sua forma de viver e mesmo a ânsia de que outros seres humanos pudessem saber da sua presença no mundo.

Ao longo do tempo, é possível perceber as transformações da memória e identidade nas sociedades, carregando marcas que modificam maneiras de pensar, agir e sentir o corpo e acompanham a evolução do homem, nos aspectos políticos, sociais, econômicos, filosóficos e psicológicos.

A consciência, as representações, a maneira de agir, estão intimamente ligadas aos códigos que foram construídos ao longo do tempo. Todos têm a capacidade de se desenvolver criticamente, e compreende-se que o conhecimento não é imparcial, da mesma forma, o olhar sobre a corporeidade também não é. O próprio método científico é o resultado das necessidades e possibilidades materiais, que pode interferir nos resultados obtidos.

Em certa medida, a necessidade designa a realidade, dessa forma a história mostra que o corpo foi tratado de maneira utilitarista, ora vivendo esse corpo socialmente, ora vivendo de forma individualista e narcísica. As possíveis identidades corporais construídas ao longo da história, deixaram marcas que muitas vezes homogeneízam e discriminam, permitindo a criação de fronteiras simbólicas entre as pessoas ou grupos.

Neste sentido, Bauman (2001) critica a visão primária de que a construção de identidades é algo sempre bom, ele enfatiza que a busca por um sentido de pertencimento num grupo pode favorecer mais os limites de diferenças que podem ser transformadas em desigualdades, gerando conflitos e intolerâncias nacionalistas, religiosas, políticas, étnicas, culturais, dentre outras.

A identidade cultural, como qualquer outra identidade, é construída na interação das práticas sociais e culturais. Por isso, a identidade é sempre uma construção manifestada em função das contingências apresentadas (HALL, 2006; SILVA, 2000). Neste sentido, Hall (2006, p. 13), diz que “a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia”.

Diante das inúmeras interpretações sobre as questões relacionadas ao corpo, foi desenvolvida uma pesquisa a partir da revisão bibliográfica, utilizando principalmente as bases de dados Scopus, Google Acadêmico e Scielo, além do referencial teórico oferecido na disciplina de Interdisciplinaridade e Totalidade do programa de mestrado e doutorado em Sociedade, Cultura e Fronteiras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), com o intuito de buscar descrever e compreender a história de uma possível memória e identidade do corpo, em vários momentos da história e os principais teóricos que nortearam as bases filosóficas sobre as questões da corporeidade humana em diferentes culturas.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 BASES FILOSÓFICAS

Originalmente a filosofia teve a preocupação na busca de explicar o unitário, o real, o totalitário. No decorrer do tempo outros pensadores influenciaram a maneira de perceber o universo. A visão de totalidade é a maneira mais antiga de entender o mundo, começa numa visão não científica, orientada pelo animismo que significa a unidade da alma (FREUD, 1996).

As três principais representações do universo estão direcionadas em animista (mitológica), religiosa e científica. A vida mediante a concepção de mundo do homem primitivo estava presente nele mesmo, no animal, na natureza, etc. Comunga numa visão de antropomorfização do mundo. Visão de mundo centrada e fundamentada nos acontecimentos entendidos como acontecimentos do universo (animismo). É possível perceber que o animismo não está solidificado em uma religião, mas contém os fundamentos para que posteriormente a religião fosse criada. No animismo o corpo é percebido de acordo com as simbologias que regem o nascimento, a morte, o viver com o outro e as criações a partir das divindades. Apesar do animismo não ser uma explicação científica, não deixa de ser uma explicação. O animismo baseado na unidade, ordenou e deu sentido as coisas (FREUD, 1996).

A filosofia teve um forte impacto no ocidente, muitos dos filósofos que marcaram a história nesse campo, se originaram da Grécia. Os Gregos contribuíram para a filosofia, não somente de maneira quantitativa, mas qualitativa, pois o que foi constituído na filosofia em determinado sentido, tem caráter absoluto. Sendo assim, os próprios orientais, quando quiseram se beneficiar da ciência ocidental e de seus resultados tiveram que adotar alguns princípios da lógica ocidental. Assim é possível entender que a ciência surgiu a partir da filosofia. Os gregos adotaram dos orientais alguns conhecimentos científicos também. Ainda que reelaborado pelos gregos, os egípcios criaram os conhecimentos matemáticos-geométricos, oriundos de uma atividade da razão e dos babilônios algumas cognições astronômicas. Os próprios conhecimentos que foram criados e elaborados por esses povos, tiveram finalidades distintas, em cada cultura (REALE e ANTISERI, 1990).

Algumas correntes filosóficas influenciaram a maneira de interpretar o mundo. Neste sentido, o darwinismo vem contribuir para a secularização do corpo demonstrando que é produto de uma evolução biológica, marcado pelo contexto geográfico e histórico. O capitalismo, por meio da Revolução Industrial, renegou o corpo à condição de máquina, a partir daí, surge a teoria marxista, contrapondo-se à "reificação" do ser humano, colocando o homem como um sujeito sócio histórico (SOARES, 2001).

Mesmo com menos preocupação em relação a outros assuntos, desde a Grécia antiga, alguns filósofos já discutiam algumas questões a respeito do corpo. Sócrates tinha uma visão integral de corpo, sendo corpo e alma, ambos importantes; já Platão entendia que o corpo servia de prisão para a alma. As ideias de Aristóteles se aproximavam mais das ideias de Sócrates, pois partia do princípio, de que as ações humanas aconteciam em conjunto, corpo e alma integrados (CASSIMIRO; GALDINO; SÁ, 2012, p. 65).

Sócrates acreditava no hedonismo, que é o modo de viver de determinados grupos de pessoas e tem como único interesse a satisfação dos desejos do corpo e por isso recebeu inúmeras críticas. Ele entendia que as sensações de prazer do corpo deveriam ser exploradas no seu limite. Desta forma, destacou o corpo como recurso importante na busca por respostas que levariam ao conhecimento (COSTA, 2011, p. 250).

Platão divide o corpo em três dimensões, a dimensão racional, a irracional e a apetitiva, sendo que a primeira localiza no cérebro, a segunda no peito e a terceira nas entranhas. O curioso é que Platão orienta a materialidade do corpo no próprio corpo. Mesmo que a alma para ele era prisioneira desse corpo, admitiu alguma subjetividade onde deixava de ser o corpo unicamente material, trazendo dúvidas ao conceito de dualidade. Neste aspecto entra em contradição ao alertar para a prática dos exercícios físicos, aonde “a alma sã pudesse habitar um corpo são” (COSTA, 2011, p. 250).

Pinto e Jesus (2000, p. 90) afirmam que:
Platão admitia que a unidade corpo e alma, entre sensível e inteligível, era primordial para o alcance do bem. Nesta unidade o corpo deveria sempre estar a procura da perfeição e da saúde e a inteligência deveria estar sempre à procura do conhecimento. Porém, mesmo nesta unidade entre corpo e alma que Platão dizia ser necessária, está presente a dualidade e a hierarquização; o corpo é subordinado à alma. O homem do ideal platônico é a alma e não o ser humano em sua totalidade.
Na Idade Média, mesmo não tendo sido superado o dualismo psicofísico, Santo Tomas de Aquino mostra uma independência e valorização do corpo, numa visão tomista, ele dizia que a alma não sobreviveria sem o corpo. “Para o tomismo, o corpo educado se transforma em santuário da alma, o que revela a supremacia da alma” (COSTA, 2011, p. 251).
Aristóteles faz uma análise sobre a visão de corpo e alma dos seus predecessores. Ele afirmou que se a alma tem o poder de mover o corpo e mover a si mesma, assim abre precedente para pensar, que se a alma também pode ser um corpo, um corpo dentro de outro corpo, e se a alma pode se mover e se o ser movido é uma característica do corpo, logo a alma também é um corpo. Ele coloca a dependência da alma ao corpo, onde até o pensar que cabe à alma não existiria sem o corpo. O filósofo enfatiza também que corpo e alma são coisas distintas, mas, que se correlacionam entre si (ARISTÓTELES, 2006).

A importância do pensamento de Sócrates não é só devido a outros pensadores terem sido influenciados por ele. O próprio Aristóteles afirma que Sócrates introduz os conceitos universais e da indução e ainda no seu tempo, foi capaz de somar os conhecimentos da natureza, com a preocupação com o conhecimento do homem e da sociedade, bem como os aspectos éticos e políticos. Por outro lado, com Sócrates, a visão naturalista de homem é substituída, ou no mínimo complementada por uma visão ética de homem, transformada a partir dele em uma visão ética de conhecimento mais rigorosa (ANDERY, 1996).

Segundo o mesmo autor, Platão foi um seguidor de Sócrates, porém formulou seus próprios conceitos e visão de mundo, e acreditava que a essência das coisas que era o conhecimento verdadeiro. E o homem era dotado de corpo mortal e alma imortal, que a alma tinha capacidade de pensar, ligada à divindade, sendo assim, Platão apud Andery (1996, p. 68) coloca:
Acreditava, ainda que o conhecimento que era possível, embora exigisse um árduo trabalho, era o conhecimento do próprio homem. Com isso não queria dizer o conhecimento de seu corpo, mas o conhecimento contido na alma, aquilo que tornava o homem humano.
Na ideologia budista e bramanista entende-se que o espírito deve libertar-se de toda a dependência do corpo no mundo material e otimizar o controle total sobre o seu corpo. Os bramanistas conseguem sentir melhor o seu corpo, as batidas do coração, o ruído do sangue nas artérias, dentre outros sons do próprio corpo, coisa que no ocidente as pessoas têm dificuldade. Na cultura asiática, eles entendem que o corpo aprisiona a alma e o espírito, com suas necessidades (CASSIMIRO; GALDINO; SÁ, 2012).

Segundo os mesmos autores, paradoxalmente, os povos asiáticos enfeitam o corpo como forma de mostrar uma identidade, transformando o corpo em objeto de informação social. Tanto o homem quanto a mulher na cultura hindu mostram sua classe social pelas vestimentas, tatuagens e joias que usam. E isso demonstra um pouco de vaidade e que o corpo não está relegado ao espaço do esquecimento.

Breton (2003) comenta da tatuagem como diferentes códigos, de uma identidade escolhida, que muda em cada época ou em cada situação vivenciada. A tatuagem na cadeia, por exemplo, retrata a indignação pelo encarceramento que entrega seu tempo e seu corpo à investigação permanente dos guardas. Na sociedade grega antiga o estigma simbolizava a alienação ao outro, hoje, a marca corporal ostenta o pertencer a si mesmo.

Sobre determinadas culturas, Costa (2011, p. 249) afirma:
Subliminarmente, as culturas hindu e a egípcia sugerem o corpo como barreira para a evolução do espírito e, por mais que o ornamente, este permanece um empecilho à própria transcendência. Estas mesmas culturas estimulam a ornamentação do corpo para delimitar as fronteiras socioeconômicas, para marcar as distâncias entre classes sociais, tanto em vida, como após a morte. Os egípcios mumificavam os corpos (dos ricos, cultos e sacerdotes) para que estes servissem de moradia da alma, na eternidade. Em outras culturas, o corpo cremado incandesce com o efeito do fogo (símbolo da purificação e da renovação), vira cinzas e solta fumaça. Os indianos cremam o corpo para liberar o espírito da matéria e alcançar a vida eterna, embalado pela fumaça que sobe aos céus.
Segundo Pinto e Jesus (2000), o pensamento ocidental foi todo ele condicionado na divisão da matéria e do espírito. Na Idade Média perpetuam-se as ideias de Platão, com perfil dual em que o corpo só tem alguma importância porque se faz morada do espírito.

Para os autores, sob o mesmo raciocínio, nos deparamos com René Descartes que, apesar de questionar a igreja exigindo explicações científicas e racionais para certos fenômenos, foi o que permitiu um entendimento extremo do dualismo entre espírito e matéria. Ele vê a razão humana como sendo o único critério de verdade. Tanto para Platão como para Descartes, o corpo limita a alma e o intelecto deve controlar esse corpo, uma vez que este intelecto é superior a ele. Há, portanto, um entendimento do corpo de uma forma utilitarista e reducionista.

Descartes define corpo e espírito e os explicam de maneiras diferentes, o corpo é explicado mecanicamente e se identifica com os demais corpos do universo e acessório da alma, já a alma ou o espírito é entendido como essência do ser humano. Certas experiências ligadas às sensações e emoções só se configuram pela ligação dos dois. Para Descartes o movimento é considerado como entrechoque de corpos e só é possível chegar ao conhecimento pela atividade da razão (ANDERY et al., 1996).

No oriente, discutir dualidade não faz sentido, porque eles entendem o corpo como unidade, para eles a interdependência se faz naturalmente. No ocidente as pessoas ficaram até hoje valorizando o conhecimento racional, linear, sequencial, discursivo, relativo; já no ocidente eles valorizaram o conhecimento intuitivo, para eles o conhecimento racional complementa o intuitivo (PINTO; JESUS, 2000).

Os apontamentos voltados à visão de corpo na história, mostra-se, ora numa visão de totalidade, ora fragmentado, em certos momentos voltados ao ser integral e em outros momentos na especialização. Esses apontamentos são possíveis de verificar na própria construção da disciplina Educação Física que trata dos aspectos que remetem as características do corpo. Estas formas de entender a corporeidade são cíclicas. No que diz respeito a essa disciplina, é possível fazer uma reflexão com a própria história da interdisciplinaridade que surgiu segundo FAZENDA (2003), na década de 1960, na Europa, com o desejo de quebrar um pouco com a excessiva especialização ligada ao cientificismo. O objetivo era evitar que o aluno tivesse o olhar no conhecimento voltado em uma única direção, que as disciplinas pudessem trabalhar juntas e diminuir as distâncias entre elas. A partir daí foi concebida uma nova forma de pensar a universidade.

Segundo Fazenda (2003), conhecer e compreender as partes, é a forma primária de compreensão da totalidade, sendo assim ela explica:
Nessa volta ao tempo que somente a memória permite, tentamos encontrar o fio condutor da história do conhecimento, e eis que um primeiro símbolo nos é anunciado: conhecer-te a ti mesmo. Conhecer a si mesmo é conhecer em totalidade, interdisciplinarmente. Em Sócrates, a totalidade só é possível pela busca da interioridade. Quanto mais se interiorizar, mais certezas vai se adquirindo da ignorância, da limitação, da provisoriedade. A interioridade nos conduz a um profundo exercício de humildade (fundamento maior e primeiro da interdisciplinaridade). Da dúvida interior a dúvida exterior, do conhecimento de mim mesmo à procura do outro, do mundo. Da dúvida geradora de dúvidas, a primeira grande contradição e nela a possibilidade do conhecimento... Do conhecimento de mim mesmo ao conhecimento da totalidade (FAZENDA, 2003, p. 15).
A partir dos estudos da interdisciplinaridade, parece haver uma proposta de harmonização entre razão e sentimento, em que objetividade e subjetividade se complementem, corpo e intelecto convivam. Assim foi possível vislumbrar uma tentativa voltada à epistemologia da “alteridade” (FAZENDA, 2003).

Assim como outros movimentos surgidos intencionalmente, a interdisciplinaridade se propôs, de acordo com Fazenda (2003), a superar o desgaste disciplinar e trazer uma nova forma de pensar epistemologicamente.

A maneira como o ser humano compreende o mundo e dessa maneira a corporeidade, as suas crenças, a forma com que se relaciona socialmente, a classe social em que o indivíduo pertence, são determinações subjetivas do inconsciente e estão ligadas ao materialismo histórico. Nesse aspecto, Marx e Engels (1980, p. 25-26) apud Andery (1996), faz a seguinte reflexão:
A produção de ideias, de representações e da consciência está em primeiro lugar direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens; é a linguagem da vida real (...). Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência.

            Da mesma maneira, Sokal e Bricmont (2010) fazem a seguinte reflexão, a memória coletiva e individual é algo lento e como na física e na vida em sociedade, toda causa tem um efeito e muitas vezes esses acontecimentos são cíclicos.


2.2 MEMÓRIA E IDENTIDADE DO CORPO NA HISTÓRIA

Os romanos têm uma história singular e também de bastante influência de outras culturas, eles não gostavam de expor os seus corpos, mas mostravam o poder de Roma, mais precisamente do imperador, nos grandes monumentos construídos. E mesmo atribuindo o culto ao corpo um valor pagão, a arte romana manteve-se orientada pela expressão do ideal de beleza da cultura grega. Posteriormente, as representações levaram em consideração temas místicos e religiosos (TUCHERMAN, 2004).

Segundo Barbosa, Matos e Costa (2011, p. 25), “na Grécia antiga o corpo era visto como elemento de glorificação e de interesse do estado”. O Grego não se apropriava do pudor físico. A demonstração do corpo nu, bonito, fértil, apreciado por todos, representava a saúde do povo grego. Tanto a busca do corpo belo, quanto de uma mente brilhante, faziam parte da busca pela perfeição, sendo os dois importantes. E esses corpos trabalhados foram mostrados posteriormente nos jogos olímpicos que foram abolidos na Idade Média, por motivos de ideais religiosos.

O cristianismo faz o papel de cobrir o corpo, reprimindo-o, ao mesmo tempo em que valoriza o corpo sofredor de cristo. Saber lidar com a dor do corpo seria mais importante que saber lidar com os prazeres e evidencia a separação do corpo e da alma e a busca constante de valorizar o espiritual e renunciar o material (TUCHERMAN, 2004).

Na Idade Média, com a inquisição, o corpo passou a ser interpretado como flagelo, as torturas e mortes eram encaradas como um pagamento do mal que o corpo fazia para a alma. Tomamos como exemplo, a representação do corpo da mulher para a figura masculina, sendo uma figura do mal, ligada à tentação (BARBOSA; MATOS; COSTA, 2011, p. 27).

A moralidade quanto ao corpo e ao sexo não tinha tanta rigidez. Eram estabelecidas normas de conduta para se evitar os excessos, então o controle do indivíduo sobre si mesmo era muito importante. Essa moralidade não se estendia para as mulheres e escravos. O corpo feminino não tinha atribuição de perfeição, era incompleto. Para elas se exigia total fidelidade e obediência a seus pais e maridos, já para os homens livres, era permitido a bigamia e a homossexualidade como práticas naturais (ROSÁRIO, 2006).

Na era moderna o corpo passou a ser um objeto científico, de experiências, investigação e análises, então transfere do teocentrismo ao antropocentrismo, tomado por um ideal renascentista (GAYA, 2005).

No renascimento, mesmo com a racionalidade trazida pela ciência, o corpo teve um caráter mais humanista, diferente do ideal concebido pela igreja na Idade Média. O renascimento marcou a passagem da Idade Média para a Modernidade pela ciência. O século XIX foi marcado pelas ciências biológicas e a ascensão da burguesia, que favoreceu o desenvolvimento das indústrias e do capitalismo (CASSIMIRO; GALDINO; SÁ, 2012).

As leis biológicas durante todo o século XIX subordinam as leis sócio históricas. A ideologia das aptidões naturais permeia os estudos científicos e as práticas sociais que deles decorrem. Aprisionam o homem a necessidades orgânicas e biológicas, acoplado aos ideais eugênicos de regeneração e purificação da raça (SOARES, 1994, p. 23).

Foucault (1985, p. 80) afirma que:
O controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que antes de tudo investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade biopolítica.
Nessa perspectiva, Soares (1994, p. 30) reitera que certamente as concepções, os valores e os hábitos tiveram um papel muito importante na racionalidade social, racionalidade que nasce devido às exigências de saúde do corpo social, para a produção e reprodução do capital.

Para Soares (1994, p. 9), no século XIX na Europa, mais especificamente na França, é que se consolida o Estado burguês e são elaborados conceitos básicos sobre o corpo, voltados à construção do homem novo, assim como a sua utilização como força de trabalho. A construção desse homem novo deveria cuidar da pessoa integralmente, nos aspectos mentais, intelectuais, culturais e físicos.

Este homem foi transformado pela necessidade do capital, é um protagonista do corpo saudável, produtivo e biológico, tendo a visão positivista de ciência como corrente filosófica para garantir essa transformação, integrado nos discursos médico, pedagógico e familiar, como receita e remédio para curar o homem da sua letargia, indolência, preguiça e imoralidade (SOARES, 1994, p. 10).

No Brasil, surge o período militarista (1964 – 1985) e sobre essa fase Lenharo (1986) discute o papel da família, da religião e da política como forma de padronizar comportamentos favoráveis aos interesses da época, valorizando a hierarquia, a ascensão social e um modelo de comportamento social construído, utilizando da pedagogia utilitária de militarização do corpo, para disseminar conceitos.

Recorreu-se aos aspectos pedagógicos conservador e autoritário da Educação Física, como um instrumento fortemente capaz de alienar o indivíduo, preparando-o para servir a pátria e a nação, além de servir como mão-de-obra forte, ágil e disciplinada para atender ao mercado de trabalho (LENHARO, 1986).

Segundo o mesmo autor, várias formas e estratégias foram utilizadas no período do Estado Novo (1937 – 1945), a fim de forjar um indivíduo despolitizado, disciplinado, trabalhador, produtivo e submisso. Nesse sentido, os aspectos de instrumentalização do corpo foram verificados ao longo da história de várias maneiras, modificando os interesses ao longo do tempo. Aproveitaram a instituição familiar e a igreja para enfatizar e fazer cumprir as normas da época.

Lenharo (1986) aponta para a família o papel ideológico de disseminar a moral da sociedade, faz apologia ao poder e culmina na formação do homem dócil, obediente, colocando o trabalho como aspecto de alta relevância. Que de acordo com Bruhns (1997, p. 62): “a existência do tempo de trabalho implica na existência de um tempo de não trabalho que, por não ter inserido no universo produtivo no mesmo momento histórico no qual esse mesmo tempo foi “disciplinarizado”, foi frequentemente pensado em tempo ocioso, como uma contrapartida da racionalidade humana”.

O divertimento era visto de maneira utilitária por meio da disseminação das práticas esportivas, que muitas vezes aconteciam no interior das fábricas. Essas atividades tinham o intuito de extravasar, como forma de eliminar as energias negativas para ter mais disposição para voltar ao trabalho e “produzir”, como meio também de recuperar o próprio soldado que não foi escolhido para os serviços militares. O corpo foi visto como máquina e não no sentido pleno, como fim no próprio corpo e tudo aquilo que poderia trazer prazer, autonomia, pensamento crítico, ia contra os paradigmas da época. (LENHARO, 1986).

Lenharo (1986) observa a função da Educação Física como formadora do homem no imaginário da época, fisicamente e moralmente. E a tendência higienista se apropriou desse modelo, como impositiva, exigindo uma política repressora e excludente. Via-se o corpo como objeto de transformação do corpo social, com o exército e a sua primeira escola de Educação Física, auxiliando nesses ideais, com apoio inclusive do ministério da educação e saúde. As pessoas eram disciplinadas para ser patriotas e quem comandava essa ordem pedagógica era o exército, cabia ao exercício a técnica de civilização por meio do corpo. Para aumentar a produtividade, visava transformar o trabalhador em soldado do trabalho.

Para o mesmo autor, o corpo máquina, despolitizado, era visualizado no ambiente do trabalho operário das fábricas. Por meio da observação do movimento, era possível verificar a homogeneização dos corpos, e esses corpos para produzir ainda mais resultados, precisaram da ciência como forma de conhecê-los cientificamente para melhorar os resultados. O projeto de sociedade foi pensado com base nos órgãos do corpo humano, partes integradas em concordância sem discutir umas com as outras e sem gerar conflitos.

Na sequência, Cassimiro, Galdino e Sá (2012, p. 66) afirmam que:
A partir do século XX, período que consolidou a contemporaneidade, o corpo foi ganhando evidência por meio das novas tecnologias e comportamentos, principalmente através do uso dos meios de comunicação. O estilo de vida e o desejo de obter a perfeição física levaram o homem da sociedade industrial a buscar, excessivamente, um novo padrão de beleza, satisfazendo um desejo que não é próprio de sua natureza, mas, sim, de uma exigência para a sua inclusão na sociedade, onde tudo pode virar mercadoria.
Até o século XVIII, consagrou-se a visão religiosa de corpo. A partir do século XXI, o corpo tornou-se objeto do capitalismo, sendo que o mesmo exerceu papéis distintos em cada momento histórico e em cada sociedade. O processo de dominação da Grécia antiga até os dias atuais surgiram por questões políticas, econômicas e religiosas, motivadas pela classe dominante em todos os momentos históricos (CASSIMIRO; GALDINO; SÁ, 2012, p. 64).

Tanto Cassimiro, Galdino e Sá (2012, p. 77) quanto Barbosa, Matos e Costa (2011), afirmam que padrões de beleza sempre estiverem presentes nas sociedades. Os padrões corporais de beleza exigidos na contemporaneidade não são construções pessoais, mas imposição do consumismo, de uma sociedade narcísica, que incute uma ideia padronizada de beleza. Esse ideal de sociedade narcísica, já vem desde a Grécia antiga, mas lá, o corpo também exercia o papel de instrumento para o combate.

De acordo com Bauman (1999), houve uma transformação ideológica em que passamos de uma posição de ética do trabalho a uma posição de estética do consumo. É também nesse sentido que podemos considerar que o ato é mais importante que os sujeitos, uma vez que ele pode ser digerido no espaço de sua apresentação.

2.3 A CULTURA CORPORAL
As atividades físicas, em todas as dimensões, seja como expressão do lazer, do trabalho ou genuinamente humana, tiveram atenção aumentada nos últimos anos por vários profissionais e obviamente pela política; de repente, curtir, cuidar do corpo passou a ser moda. E mil providências foram tomadas e, claro, colocadas no mercado, para que “estas mais recentes necessidades” fossem atendidas (MEDINA, 1992, p. 33).

A Educação Física precisa entrar em crise, precisa de inquietação, pois o setor que trabalha com as práticas corporais foi um dos únicos que seguiram a regra do mercado, o profissional procura oferecer à sociedade aquilo que se cobra, “vencer no esporte”, vencer na vida, emagrecer, esculpir o corpo, ter um corpo saudável para o trabalho. E fica a inquietação: qual o significado do “vencer na vida”, por exemplo? No sentido popular tem várias interpretações, já para a sociologia é interpretada como uma situação social decorrente da mudança de padrões, por meio da criação de novos hábitos e salienta a importância da busca por novos padrões culturais que possam tornar as “pessoas livres” (MEDINA, 1992).

Se a “moda do corpo” produziu a “cultura do corpo”, é possível produzir uma “cultura somática”, reavaliando aquilo que foi desprezado durante séculos, fato que não ocorrerá espontaneamente, mas por meio de “consciências críticas” e depois de ter provavelmente instaurado a crise (MEDINA, 1992, p. 36).

O corpo humano, salvo raras exceções, é tratado pura e simplesmente como objeto em nada diferente de uma máquina qualquer: um carro ou, na melhor das hipóteses um computador mais sofisticado. Assim, elimina-se dele todas as peculiaridades do animal racional capaz de falar, sorrir, chorar, amar, odiar, sentir dor e prazer, brigar e brincar, capaz de deter fé e transcender, com sua energia, a própria carne (MEDINA, 1992, p. 41). 

A ênfase do corpo numa sociedade consumista parece ser muito mais a lucratividade do que a qualidade de vida das pessoas. A especialização não acontece somente na Medicina, que muitas vezes reduz o paciente a um “estômago”, por exemplo, mas em outras profissões especializadas, como o caso da Educação Física. À medida que tentamos compreender o todo a partir das partes, a valorização parece diluir e desaparecer e isso não significa posicionar-se contra o lucro e a especialização, mas sim, resgatar os valores essenciais à humanização. Nessa perspectiva científica, “o homem explicado é sempre um homem fragmentado” (MEDINA, 1992, p. 41-42).

Medina (1992, p. 42) salienta a importância que a religião ocupa nas questões de corpo ao longo dos séculos, o dualismo que divide corpo e alma foi motivo de inculcação, resultado de uma imagem distorcida e pecaminosa na cultura ocidental. Além do dualismo a outra corrente é a do pluralismo.
As crenças religiosas demonstraram na concepção grega tradicional, a partir de Homero, que o homem foi considerado como mortal, já o orfismo, na antiga Grécia, proclama o homem como imortalidade da alma e concebe a dualidade do corpo e da alma, contrapondo-os. Nesse aspecto é possível compreender que:
Com esse novo esquema de crenças, o homem via pela primeira vez contraporem-se em si dois princípios em contraste e luta: a alma (demônio) e o corpo (como tumba ou lugar de expiação da alma). Rompe-se assim a visão naturalista: o homem compreende que algumas tendências ligadas ao corpo devem ser reprimidas, ao passo que a purificação do elemento divino em relação ao elemento corpóreo torna-se o objetivo do viver (REALE e ANTISERI, 1990, p.19).
Segundo os mesmos autores, Heráclito com uma visão órfica via na vida do corpo a mortificação da alma e na mortificação do corpo a vida e libertação da alma, acreditava junto com outros órficos em castigos e prémios depois da morte.

Outra visão que surge com limitações de ordem prática é a que considera o homem dentro de uma unidade irredutível e os dois principais tipos de monismo são o materialista e o idealista. O primeiro reduz o homem para dimensões do senso comum, empobrecendo as dimensões corpóreas, excluindo suas potencialidades e expressões significativas, no segundo, considera o corpo como instrumento acessório do espírito. Dessa forma, a filosofia tem importância quando ultrapassa o seu hermetismo elitista e analisa o senso comum, democratizando e sendo útil às pessoas (MEDINA, 1992).

Têm sido comuns afirmações de que o ser humano é muito mais do que o seu corpo. Pensar o corpo como sendo apenas de carne, ossos e órgãos, conduz à percepção de que o homem é muito mais do que isso. Igualmente, considerar-se o homem composto de corpo, mente e alma, e não o definir através da sua unidade e totalidade. Quando muito, percebendo particularidades significativas, continuará sendo um amontoado de carne, ossos e órgãos, mantido vivo enquanto e por conta da alma ligada a ele (MEDINA, 1992, p. 46).

O meio por conta da cultura, do ambiente, do momento histórico e dos valores, forma ou deforma, os homens que por sua vez, constroem ou desconstroem o mundo. Portanto a unidade em que se constitui o homem, deve incluir a inserção na sociedade e na natureza. A ideia de corpo é aquela que se opõe ou contrapõe a uma mente ou a uma alma, tal visão representa um erro de percepção. A divisão só é válida, na medida, que não se perca a totalidade na qual a particularidade se manifesta (MEDINA, 1992, p. 46).

Ainda de acordo com o mesmo autor, nos séculos I e II, os filósofos enfatizavam a necessidade das pessoas cuidarem de si mesmas, tanto do corpo quanto da alma, pois só assim alcançariam a vida plena, sendo recomendadas as meditações, a rigorosidade nas atividades físicas e nas dietas.
Segundo Foucault (1985), esse cuidar de si provocou no mundo helenístico e romano um individualismo, no sentido em que as pessoas valorizavam as regras de condutas pessoais e voltavam-se para os próprios interesses, tornando-se menos dependentes uns dos outros e mais subalternas a si mesmas. A partir daí, instaura-se então o que o autor chama de cultura de si.
Nos dias de hoje existe uma enorme necessidade de se encaixar nos padrões de beleza propostos socialmente, e inúmeros métodos para alcançar esses padrões são oferecidos. Dessa forma as “indústrias de beleza e saúde” têm no corpo o seu maior consumidor.

Barbosa, Matos e Costa (2011, p. 29) reiteram que:
Esta crise do corpo será consequente da crise dos fundamentos da nossa cultura, associando-se também à crise do próprio sujeito. É interessante notar como os discursos que normalizam o corpo, sejam eles científico, tecnológico, publicitário, médico, estético, vão tomando conta da vida simbólica/subjetiva do indivíduo, invadindo as dimensões expressivas e simbólicas da corporeidade, fornecendo imagens e informações que reconfiguram o próprio âmbito da vivência corporal.
No capitalismo de produção o corpo entrava no mercado como força de trabalho, como força a ser domada e preservada. Atualmente, assiste-se a um capitalismo da superprodução, onde o problema é consumir o que se produz em excesso, o corpo entra no mercado como capacidade de consumir e ser consumido (VAZ, 2006).

Em relação a força de trabalho por meio da subordinação do corpo, Marx (1975, p. 202) apud Tonet (2013, p. 83) faz a seguinte reflexão:
Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica a sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais (...) Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar a sua vontade. (MARX, 1975, p. 202).
Se anteriormente o corpo foi dividido em dois, em matéria física e abstrata, na era pós moderna o corpo é a própria fragmentação, em partes como boca, glúteos, músculos, cabelos, órgãos genitais, etc. (BARBOSA, MATOS E COSTA, 2011, p. 30).

Nesta perspectiva podemos dizer que:
Hoje vive-se a revolução do corpo, valores relativos à beleza, saúde, higiene, lazer, alimentação, exercício físico, têm reorientado um conjunto de comportamentos na sociedade, imprimindo um novo estilo de vida, mais aberto à diversidade por um lado, mas mais narcísico e hedonista no que diz respeito à experiência do corpo. Percebe-se então que vivemos uma época de contradições, no que diz respeito às nossas escolhas, uma vez que hoje não há uma obrigação das pessoas se vestirem de acordo com a classe social de que fazem parte, como ocorria noutras épocas, porém, a moda dita as regras, dita as tendências e aquilo que devemos escolher (BARBOSA; MATOS; COSTA, 2011, p. 32).
Segundo Carreteiro (2005), o corpo social tem dado lugar ao corpo individual, o interesse coletivo perde o sentido, são construídos novos coletivos com interesses diferentes entre eles. Os grupos buscam se diferenciar criando fronteiras entre eles.

Bauman (2003), fala sobre a hipermodernidade, originária do excesso de globalização do mundo moderno, da migração e da deslocalização dos poderes, está atribuindo novo sentido ao território, à área ou aos lugares. Julga-se que é na relocalização da atenção dada ao lugar que o corpo se torna também objeto de investimento privilegiado. Ele pode ser considerado como um “quase lugar”.

Na história é possível analisar as mudanças na forma de compreender o corpo passando por estágios, que passam pelo pensamento místico, religioso, filosófico e científico (positivista) e que muitas vezes são cíclicos.

Por meio do pensamento e outras formas de interpretação da realidade se deu o conhecimento. Segundo Sokal e Bricmont (2010), a ciência deve se pautar na ética da verdade, e não no obscurantismo das ideias e no relativismo exagerado, deve-se pautar no rigor metodológico. A verdade existe, isso não significa que não possa ser questionável, mas o relativismo epistémico exacerbado pode impedir de se enxergar a verdade. É razoável entender que exista uma hierarquia do conhecimento, ainda que alguns cientistas utilizem de forma antiética, hegemônica, ou distorcida esse conhecimento.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Grécia foi o berço das orientações filosóficas no ocidente, influenciando e sendo influenciada por outras culturas, em que se configura de maneira geral na percepção dual do corpo humano. Nas tradições orientais, por outro lado, existe a compreensão do ser humano de forma mais integrada, não eximindo da elevação do intelecto em relação ao corpo.

O corpo acompanha a história do homem, que segundo vários pesquisadores e correntes filosóficas podem mudar de acordo com o momento político, de maneira consciente ou inconsciente. As distintas compreensões do corpo humano ao longo da história vão construindo uma memória e identidade dinâmicas, cumulativamente elaboradas. Dessa forma, novas leituras e construções sociais se refletem na percepção coletiva do corpo.

Percebe-se que o corpo não se apropriou de uma memória e identidade próprias, a sua identidade é fragilizada e relegada, encenando vários papéis sociais e utilitários de acordo com modelos sociais, políticos, econômicos, culturais e filosóficos em cada época.

Em tempos de pós modernidade, as percepções holísticas da realidade permitem novos enfoques sobre as questões da corporeidade. A modernidade líquida conceituada por Bauman pode também ser aplicada à compreensão do corpo e sua inserção no mundo. Há um universo de novas possibilidades distintas daquelas descritas no presente trabalho, ensejando novas leituras e percepções a serem elaboradas.

Os pressupostos filosóficos que norteiam a visão interdisciplinar, de totalidade ou de unidade que foram construídas historicamente, mediante suas potencialidades e fragilidades, refletiram na compreensão da corporeidade humana, que também se depara constantemente na dificuldade de entendimento pelos próprios profissionais que discutem o assunto. Dessa forma, sugere-se que mais pesquisas sejam desenvolvidas com objetivo de trazer um conhecimento o mais próximo da realidade e que essa construção seja democrática e compartilhada. Que o corpo, assim como suas atividades corporais sejam capazes de instigar a criticidade das pessoas.




[1] As obras mais surpreendentes do Paleolítico são as imagens de animais pintadas nas superfícies rochosas das cavernas, como as da caverna de Lascaux, na região francesa de Dordogne (JANSON; JANSON, 1996, p. 14).

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AUTOR

*Sancléya Evanessa De Lima possui Graduação em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina (UEL); especialização lato sensu em Recreação, Lazer e animação sociocultural pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e Mídias Integradas na Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR); aluna do Programa de Mestrado Stricto Sensu em Sociedade, Cultura e Fronteiras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Foz do Iguaçu - Pr. E-mail: lima.san@bol.com.br
Telefone de contato: (45) 999616595.

**Marcelo Gomes é Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista FCL – UNESP. Doutor em Sociologia pelo instituto de filosofia e ciências humanas (IFCH) da UNICAMP. Professor Dr. do Programa de Mestrado e Doutorado em Sociedade, Cultura e Fronteiras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Foz do Iguaçu – Pr. E-mail: mgsociais@yahoo.com.br

como citar:
LIMA, S. E., GOMES, M. Reflexão sobre a memória e identidade do corpo: uma visão histórica. Revista Sísifo, n° 9, v. 1, 30 de junho de 2019.



[1] As obras mais surpreendentes do Paleolítico são as imagens de animais pintadas nas superfícies rochosas das cavernas, como as da caverna de Lascaux, na região francesa de Dordogne (JANSON; JANSON, 1996, p. 14).
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